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A ajuda europeia de € 500 bilhões aos países mais afetados pela covid-19

Para tomar esta decisão bastaram duas pessoas, a chanceler alemã e o presidente francês, como se o 'motor franco-alemão', apagado há um ou dois anos, tenha sido ligado bruscamente por um milagre 

Gilles Lapouge , O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2020 | 03h30

O montante mirabolante de € 500 bilhões é quanto a União Europeia reunirá para ajudar os países mais martirizados pela fúria da covid-19. Parece que entramos na caverna de Ali Babá. Para tomar essa decisão bastaram duas pessoas, a chanceler alemã e o presidente francês, como se o “motor franco-alemão”, apagado há um ou dois anos, tivesse sido ligado bruscamente por um milagre. 

Essa façanha irá beneficiar os dois que a idealizaram: a bem da verdade, Angela Merkel estava no seu crepúsculo havia um ano, mas está novamente no centro do jogo. Quanto a Emmanuel Macron, ele prega há três anos em favor da União Europeia, só que até agora pregava no deserto. De passagem, Merkel deu uma mãozinha à sua amiga, Ursula von der Leyden, a nova presidente da Comissão Europeia em Bruxelas, que encontra dificuldade para se impor.

Ocorre que a União Europeia não é composta apenas por dois países, França e Alemanha. E o acordo sobre o fundo de € 500 bilhões terá de ser submetido aos 27 membros da EU.

Acredita-se que será aprovado, mas ao preço de numerosos encontros, de uma perda de tempo e de energia. Quando o líder chinês Xi Jinping quer impor uma decisão crucial, consulta um milhão de delegados, para não dizer nada, depois  de que, o pensamento de Xi (como outrora o pensamento de Mao) se impõe. Por precaução, aliás, o pensamento de Xi figura na Constituição.

Quanto aos Estados Unidos, Donald Trump comunica suas decisões ao mundo inteiro, mas também ao país, e até aos seus colaboradores mais próximos por meio de tuítes.

A China e os EUA de Trump têm a mesma vantagem: a rapidez e a recusa de toda contradição.

O procedimento da União Europeia é mais delicado, mais pesado, mais lento. Quinhentos bilhões de euros a serem divididos entre 27 países não é uma tarefa fácil. O mais complicado é que essa União Europeia é desunida e disparatada. e está em pedaços, muitas vezes incompatíveis. Que lembrança da história, que idiossincrasia todos esses países terão de colocar numa mesma cesta? Um camponês esloveno e um pescador bretão?

Na União Europeia, há o grupo do Sul, apelidado ironicamente de “Club Med”, pretensamente mais dotados para o ‘far niente’, a poesia, o sonho desperto do que para reduzir os déficits orçamentários (Itália, Grécia, Espanha). A Itália diz que se encontrou só, durante a pandemia. Ela será bem tratada. Todos esses países do Sul se beneficiarão de cuidados atenciosos.

Outro grupo é composto pelos chamados “sovinas”: Suécia, Holanda, Dinamarca e a outrora Alemanha de Merkel. Esses são considerados “agarrados aos seus trocados”, principalmente quando esses trocados são “bilhões de euros”.

Já Macron, depende. Como ele muda frequentemente de opinião, podemos colocá-lo, conforme os dias, no Club Med, ou com os sovinas. Devemos esperar discussões bastante agitadas. E depois, há o grupo dos países do Leste, ao redor da Hungria e da Polônia. Esses detestam a União Europeia, mas deverão ter uma parte da grana.

Em princípio, portanto, o acordo Macron/Merkel deverá ser aprovado, mas quanto tempo vai levar e com quantas mutilações? É o preço que a União Europeia paga por seus princípios democráticos. Essa é uma de suas fragilidades. E é sua virtude. 

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

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