A Al-Qaeda não vai explodir sua blusa

Apesar do temor da inovação na criação de bombas, sucesso em ataque terrorista seria pouco provável

SHANE HARRIS & , NOAH SCHACHTMAN, FOREIGN POLICY, SÃO JORNALISTAS , SHANE HARRIS & , NOAH SCHACHTMAN, FOREIGN POLICY, SÃO JORNALISTAS , O Estado de S.Paulo

12 Agosto 2013 | 02h01

O pânico em torno de um suposto complô da Al-Qaeda atingiu novos patamares na segunda-feira à noite quando a ABC News informou que terroristas no Iêmen estavam testando uma técnica de fabricação de bomba nova e virtualmente indetectável: embeber suas roupas em líquido explosivo que depois de seco pode ser detonado.

As manifestações de desespero começaram quase imediatamente, mas as pessoas não deveriam ter sido tão apressadas em gritar. Uma bomba na roupa quase certamente não funcionaria, disseram especialistas em explosivos à Foreign Policy.

De bombas na cueca a bombas no traseiro, os mestres em artefatos explosivos do ramo iemenita da Al-Qaeda vêm semeando o medo e o pânico há vários anos. Mas suas técnicas insidiosas, embora tecnicamente impressivas, não revelaram que podem alcançar o efeito almejado: matar uma porção de pessoas.

Não fica claro no relatório se este último suposto dispositivo, que uma autoridade anônima chamou de "engenhoso", está diretamente ligado à recente ameaça de terror que levou ao fechamento de mais de 20 embaixadas e postos diplomáticos americanos. Mas o uso de explosivos sofisticados montados em dispositivos difíceis de detectar se encaixa no padrão de Ibrahim al-Asiri, o criador de bombas do Iêmen e um dos terroristas mais procurados do mundo.

Considerado o principal fabricante de bombas para a Al-Qaeda na Península Arábica, e suspeito de estar por trás dos recentes planos de ataques, ele teria projetado dois dos dispositivos mais inteligentes dos últimos anos que não foram detectados.

O primeiro foi a chamada bomba-cueca vestida por um jovem nigeriano, Umar Farouk Abdulmutallab, a bordo de um jato comercial americano com destino a Detroit no Dia de Natal de 2009. A outra foi uma bomba que se acredita que Asiri inseriu no reto de seu irmão numa tentativa de assassinar o chefe de contraterrorismo da Arábia Saudita.

As duas bombas têm algo em comum: nenhuma delas realmente funcionou.

Abdulmutallab foi dominado por outros passageiros e não conseguiu detonar seu dispositivo. E o inserido no irmão de Asiri prestou um bom serviço matando-o, mas deixou seu alvo só com ferimentos leves. O corpo do terrorista aparentemente absorveu a maior parte do impacto da bomba.

Apesar desses fracassos, a lenda de Asiri só aumentou nos círculos de segurança e contraterrorismo. Sua invenção mais espantosa é uma bomba que seria cirurgicamente implantada no corpo de um terrorista, mas, que como a bomba do reto, teria quase todo seu impacto dissipado no corpo do atacante.

No entanto, essas tentativas de atentado provocaram uma ansiedade não inteiramente infundada de que a Al-Qaeda no Iêmen está decidida a encontrar novas maneiras de frustrar as medidas de segurança designadas para detectar explosivos ocultos.

Em 2011, Asiri desenvolveu o que John Pistole, chefe da Agência de Segurança nos Transportes (TSA, na sigla em inglês), chamou de "um dispositivo de próxima geração". A bomba seria ativada por meio da mistura de dois novos explosivos líquidos que separados não são detectados pelas agências de segurança ou cães farejadores. Felizmente, a CIA tirou a bomba do Iêmen e frustrou um possível ataque.

Mas como nenhum desses dispositivos funcionou conforme o desejado, será o caso de os americanos entrarem em pânico?

Um especialista em explosivos disse à Foreign Policy que embora essa suposta bomba-blusa possa parecer aterrorizante, ela é muito arriscada para quem vai cometer o atentado. Fricção ou calor do corpo seriam suficientes para detoná-la.

"Na minha opinião, seria uma bomba altamente instável que não teria poder suficiente para matar ninguém num raio de um metro e meio dela", disse o especialista.

No Fórum de Segurança de Aspen, Pistole chamou Asiri de "nossa maior ameaça", e afirmou: "O que sabemos é que há um perigo de consequências catastróficas". Se for verdade, talvez possamos nos manter tranquilos por um tempo. A menos que Asiri ou algum outro consiga criar um dispositivo que realmente mate mais pessoas do que apenas a que a transporta, esses artefatos poderão ser um material excelente para filmes, mas não para ataques terroristas eficazes. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.