A Alemanha está emperrada, e ninguém pode movê-la; leia a análise

Diante de uma série de desafios urgentes, como a desigualdade crescente, a infraestrutura arruinada e as mudanças climáticas, a eleição era uma chance para o país traçar um curso melhor e mais uniforme para o século 21

Oliver Nachtwey/ The New York Times* - O Estado de S.Paulo

Os dezesseis anos da chanceler Angela Merkel no comando da Alemanha estão chegando ao fim. Ou não.

No domingo, os eleitores votaram e os resultados foram profundamente ambíguos. Nenhum partido obteve mais de 26% dos votos, a diferença entre os dois maiores partidos foi mínima e ninguém fez um grande avanço. O próximo governo ainda está um pouco distante: semanas, possivelmente meses de negociações de coalizão. Nesse ínterim, Merkel continuará liderando o país.

A bandeira alemã tremula em frente ao edifício do parlamento alemão, com o slogan: 'Ao povo alemão', em Berlim. Foto: AP/Markus Schreiber

De muitas maneiras, é um resultado surpreendente. Ao longo de grandes períodos da campanha, o Partido Verde e a União Democrática Cristã estiveram à frente das pesquisas. Mas ambos caíram, com as campanhas vacilando porque seus candidatos não conseguiram convencer os eleitores de que eram sucessores viáveis. O Partido Social-Democrata, liderado por Olaf Scholz, então pareceu ascender na estima do eleitorado. Mas essa fase também passou. Não houve vitória decisiva.

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Poderia ter sido um novo começo. Diante de uma série de desafios urgentes, como a desigualdade crescente, a infraestrutura arruinada e as mudanças climáticas, a eleição era uma chance para o país traçar um curso melhor e mais uniforme para o século 21. Em vez disso, a Alemanha está emperrada. Merkel pode estar de saída. Mas a Alemanha que ela cultivou – cuidadosa, cautelosa, avessa a grandes mudanças – continuará como antes.

A campanha nos deu as primeiras pistas. Normalmente, os candidatos ao mais alto cargo político procuram se distanciar o máximo possível dos titulares, para demonstrar a superioridade de sua visão para o país. Mas, na Alemanha, os principais candidatos competiam para imitar o estilo político centrista de Merkel. Afinal, esse estilo conquistara quatro vitórias eleitorais sucessivas.

Annalena Baerbock, a líder dos Verdes, tentou cultivar uma imagem de rigor e perícia semelhante à de Merkel. Frustrada por um escândalo de plágio e talvez pela aversão dos eleitores a alguém sem experiência no governo, ela logo perdeu a liderança na campanha e acabou levando seu partido a apenas 14% dos votos.

Armin Laschet, o sucessor de Merkel como líder dos democratas-cristãos, também tentou representar uma aura de competência e eficiência. Mas o esforço foi prejudicado por uma campanha errática e repleta de erros, sintetizada por seus comentários insensíveis durante uma visita às vítimas das enchentes no verão. Ao liderar o partido com 24%, presidiu um desempenho historicamente fraco. Ele, no entanto, ainda tentará forjar uma coalizão.

Depois, temos Scholz. Embora candidato pelo Partido Social-Democrata, ele fez todos os esforços para se associar à chanceler, oferecendo-se, no lugar de Laschet, como a verdadeira opção de continuidade. Como vice-chanceler e ministro das finanças no governo Merkel, a manobra foi fácil: ele até adotou o gesto do “triângulo de poder”, marca registrada de Merkel. Funcionou, até certo ponto. Mas os quase 26% conquistados por seu partido não são suficientes para assegurar Scholz na chancelaria.

A convergência entre os candidatos vai além do estilo político. Após dezesseis anos de governo Merkel, o país se estabeleceu em um status quo aparentemente inabalável. Em termos econômicos, sociais e ecológicos, muito pouco vai mudar.

Primeiro, a economia. Com uma economia exportadora orientada para o comércio internacional – e outra, incomum para países industrializados, com um substancial setor manufatureiro – a Alemanha preza a estabilidade monetária acima de tudo. Qualquer coisa que possa afetar a competitividade internacional do país está fora de questão.

Além do mais, o freio da dívida, uma lei consolidada na constituição em 2009 que proíbe déficits orçamentários, impõe um limite rígido sobre o que é possível: haverá pouco espaço para um programa de investimento financiado por dívida ou grandes gastos em infraestrutura. Nesse cenário, não parece viável nenhuma reestruturação fundamental da economia.

Na aparência, pelo menos, a economia é bem-sucedida. Mas os ganhos econômicos não foram compartilhados pela maioria. A desigualdade de renda aumentou – o 1% mais rico possui quase um quarto de toda a riqueza – e a Alemanha tem um dos maiores setores de baixa renda entre as nações da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Cerca de um em cada cinco trabalhadores, algo em torno de 8 milhões de pessoas, ganha menos de 11,40 euros, ou US $ 13,36, por hora.

O descontentamento social, portanto, está aumentando. Nos últimos dez anos houve uma renovação considerável das greves e o termo “sociedade de classes”, antes banido, voltou ao debate público. Espalhou-se pela sociedade uma raiva mais amorfa, que encontrou expressão no apoio ao partido de extrema direita Alternativa para a Alemanha e às teorias da conspiração antivacina. Seriam necessárias mudanças profundas para lidar com as raízes de tal enfermidade. Nenhum dos principais partidos parece capaz de encarar a tarefa.

Da mesma forma, é improvável uma abordagem ambiciosa em relação ao clima. Em grande parte porque, pela primeira vez na história do pós-guerra, o governo da Alemanha provavelmente será formado por três partidos em coalizão. Liderados pelos democratas-cristãos ou pelos social-democratas, que buscarão formar um governo sem o outro, que incluirá os Verdes e o Partido dos Democratas Livres.

Embora os Verdes tenham prometido “transformar o impossível em possível”, a presença dos Democratas Livres – um partido de empresários e liberais clássicos para os quais o mercado e as novas tecnologias devem resolver a crise climática, e não o Estado – colocará um freio acentuado nas políticas mais ambiciosas.

Ironicamente, devido à sua natureza cautelosa, a campanha se desenrolou em um cenário de múltiplas crises. A pandemia continua a causar enorme pressão no país, a Otan sofreu uma derrota histórica no Afeganistão e as inundações causadas pelas mudanças climáticas devastaram grandes extensões de terra neste verão e ceifaram quase 200 vidas.

Individualmente, cada problema já seria significativo. Juntos, eles equivalem a um grande confronto com o status quo. O momento – inclusive no nível europeu, em que o bloco exige uma liderança firme – demanda ousadia.

Mas isso não vai acontecer. Ao contrário, a nova era, presa a políticas consensuais e direcionamentos mornos, provavelmente trará mais do mesmo.

*Oliver Nachtwey (@onachtwey) é professor de sociologia na Universidade de Basileia e autor de Germany’s Hidden Crisis: Social Decline in the Heart of Europe. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU.

 

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