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A aliança das direitas que assola a Europa

Marine Le Pen tentava havia meses se encontrar com o vice-primeiro-ministro italiano e ministro do Interior, Matteo Salvini, o homem forte da extrema direita. Conseguiu.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2019 | 05h00

Marine Le Pen sonhou com isso. Ela tentava havia meses se encontrar com o vice-primeiro-ministro italiano e ministro do Interior, Matteo Salvini, o homem forte da extrema direita, aquele que fechou os portos italianos para navios com migrantes. Mas, estranhamente, Salvini não parecia apressado em ver a líder da extrema-direita francesa. Será que sua agenda estava lotada? A menos que Salvini prefira “se fazer desejado”, de modo a garantir a “liderança” na direita europeia.

Madame Le Pen esperou pacientemente. E ela foi recompensada: conheceu na manhã de ontem em Paris, a “figura emblemática” da Europa dos direitistas, este Salvini que também é o líder do partido neofascista Liga (antes Liga do Norte). Após um café da manhã, Le Pen, presidente da Reunião Nacional (ex-Frente Nacional) e Salvini disseram que queriam expandir o acordo entre as partes.

É este, claramente afirmado, o verdadeiro significado deste café da manhã: reunir em um acordo transnacional todos os partidos soberanos do Velho Continente para as próximas eleições europeias, entre 23 de maio e 26 de maio. Assim, na Assembleia Europeia, haverá um bloco de países soberanos suficientemente poderosos para convencer os partidos da direita a se unirem a essa extrema-direita, que até pouco tempo era tratada com desconfiança e até mesmo desdém.

Já na próxima semana, o mesmo Salvini lançará em Milão uma “plataforma defensora da soberania” em nome do grupo “Europa das Nações e das Liberdades”. Nessa ocasião, poderemos medir o impressionante progresso conquistado, em todo o Velho Continente, pela ideologia defensora da soberania, portanto hostil à União Europeia e seus valores. Nesta lista já figuram, é evidente, a Liga (Itália) e a Reunião Nacional (França). Devemos acrescentar a AfD alemã (Alternativa para a Alemanha, extrema direita), mas também Vox (o novo partido direitista da Espanha), o Partido Popular Dinamarquês, o Partido dos Verdadeiros Finlandeses.

Além disso, entre os partidos de direita com propensão a se associar à ideia de Salvini, há um partido búlgaro, além da Forza Italia, do insubmersível italiano Berlusconi, a FPO austríaca. E, depois, uma pequena formação que reagrupa os partidos de direita, sob o rótulo CRE (partido de conservadores e reformistas europeus), que une os partidos checo e polonês. Também os conservadores britânicos, mas estes vão embora, por causa do Brexit.

Esta lista está incompleta. Está, ao mesmo tempo, em movimento e sujeita a uma revisão, pois essas tropas de direita e de extrema direita fervilham, como os partidos clássicos, comas rivalidades, ódios, ciúmes, ambições que regularmente movem a paisagem política.

Sobra, em todo o caso, uma verdade evidente: a Europa de Bruxelas, a sua ideologia (democracia, direitos humanos, respeito ao voto) é severamente espancada pela proliferação de correntes populistas ou defensoras da soberania, que se sentem em condições de tomar o poder, como foi o caso na Itália.

E um grupo que reunirá, na Assembleia Europeia de Estrasburgo, a direita clássica e a extrema direita, vai se constituir numa força dominante com o desejo final: uma Europa que pertença teoricamente à União Europeia, mas que passará seu tempo desconstruindo essa mesma Europa de Bruxelas, sendo o francês Emmanuel Macron, na verdade, em vista do enfraquecimento da chanceler alemã, Angela Merkel, o único baluarte sério contra tal “tsunami”. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

 

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