A aliança entre EUA e Grã-Bretanha e a primavera árabe

Ao assumir o cargo, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, procurou manter relações sólidas, mas não servis, com os EUA. Uma alusão, não tão sutil, ao "complexo de poodle" de seu predecessor Tony Blair. Com a visita do presidente Barack Obama ao país, a equipe de Cameron pode declarar sua missão cumprida.

Roger Cohen, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2011 | 00h00

O premiê tem sido pouco servil no Oriente Médio, na economia e na Líbia. Em fevereiro, com França e Alemanha, a Grã-Bretanha votou a favor de uma resolução da ONU condenando os assentamentos de Israel, enquanto os EUA a vetaram. No campo econômico, os britânicos administraram sua crise fiscal de frente, com cortes draconianos de despesas, enquanto Obama deixou as medidas mais difíceis para o dia seguinte. Além disso, o esforço diplomático no sentido de uma intervenção na Líbia partiu de Londres e Paris, enquanto Washington, com razão, ficou preocupado com uma terceira frente militar em um país muçulmano.

A investida na Líbia foi um choque estratégico para os europeus. A intervenção destacou a extraordinária capacidade dos EUA de projetar seu poder e a enorme dependência que a Europa tem dessa projeção. Não vejo um público europeu disposto a aumentar seus gastos em defesa, mas essa necessidade existe. O não servilismo não quer dizer nada sem assumir responsabilidades.

O enfoque ocidental da revolução árabe, no entanto, deveria ter o lema: "É o Egito, estúpido". Somente se o maior Estado, o centro cultural e a referência política do mundo árabe conseguir uma transição estável para um governo representativo, a primavera árabe avançará. A Líbia não pode ter mais prioridade do que o Egito.

O interesse estratégico europeu na primavera árabe é imenso. Se as economias norte-africanas decolarem, agora que não estão mais a serviço de famílias dirigentes e seus asseclas, a vinda de imigrantes desesperados para a Europa diminuirá.

Com a União Europeia mais uma vez dividida por causa da Alemanha. Com o isolamento de Berlim, a estratégia do bloco tornou-se paradoxal. Por outro lado, Cameron livrou-se de um velho dilema: o continente ou os EUA? Com a UE desertando, a resposta é clara.

A viagem de Obama deve fazer a Europa pensar em um alívio da dívida, na concessão de incentivos comerciais, em investimentos privados e crédito para o Egito e outros países. E uma condição para a transformação árabe é a de que essa reforma seja de oportunidades iguais.

Outra condição é que o ódio saudita dessa tendência pró-democracia de Obama não se reflita em um financiamento da contrarrevolução por parte de Riad. Como os paquistaneses, os sauditas também podem mostrar sua irritação e pender para a China, que necessita de petróleo. Nunca devemos duvidar da capacidade saudita de fomentar a discórdia. E isso exige uma união sólida, não servil, entre britânicos e americanos, para evitar a mãe das explosões. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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