A alma militar e a guerra 
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A alma militar e a guerra 

Com ou sem guerra, é melhor uma estrutura profissional nas Forças Armadas

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2021 | 05h00

Nas minhas coberturas de conflitos armados ao longo de décadas, convivi com muitos militares, dos mais diversos países e culturas. Aprendi a apreciar o que se chama de “a alma militar”, e a observar como as circunstâncias podem moldá-la e conduzi-la para concepções inteiramente destoantes sobre seu papel.

A formação de um soldado é diferente da de qualquer outro profissional. Consiste em introjetar a obediência a uma ordem que pode levá-lo à morte; a aceitação de que ele, e não seu colega ao lado, tenha sido o escolhido para ir na frente, numa posição que diminui em muito suas chances de voltar vivo. O objetivo principal da formação do soldado é torná-lo parte de um corpo, e não mais um indivíduo. A isso se dá o nome de “espírito de corpo”.

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Ao longo da carreira, o militar prova muitas vezes essa entrega à pátria: nos treinamentos exaustivos, nos exercícios arriscados, no rigor da disciplina e da hierarquia, na vida austera da caserna e nas mudanças periódicas de cidade que desorganizam sua vida familiar. A guerra, o risco de morte, galvaniza essa entrega, numa prova suprema de doação e de lealdade. 

Por tudo isso, a alma militar é sensível. Qualquer afirmação que pareça colocar em dúvida a veracidade dessa entrega, e o seu valor na sociedade, causa profunda mágoa. Não há nada mais valioso que alguém pode oferecer do que a própria vida.

O que dá sentido à existência e aos sacrifícios dos militares é a guerra — ou a ameaça dela. Quanto mais distante essa ameaça, maior o desafio de manter a corporação sintonizada com o espírito de entrega e de doação à pátria. Na ausência da guerra, o espírito de corpo e a sensibilidade da alma militar podem facilmente degenerar numa mentalidade autocomplacente, num exército de pessoas mimadas e egoístas, que se sentem merecedoras de todos os privilégios, sem disposição para concessões, mesmo quando a penúria impõe sacrifícios ao restante da sociedade.

Essas circunstâncias geram um tipo de funcionário público que é o oposto à alma militar: em vez de ele servir à pátria, é ela que lhe deve servir. No extremo, esse estado mental pode levar às ditaduras militares. Em situações intermediárias, a Forças Armadas que mantêm a nação como refém de suas exigências, de seus caprichos.

Existem dois tipos de Exército: o “nacional”, que recruta soldados por meio do serviço militar obrigatório, e combina esse contingente com voluntários mais qualificados que entram como cadetes, aspirantes à carreira de oficial; e o voluntário e profissional. Os dois diferem pelo tipo de contrato com seus integrantes, que determina duas culturas militares bem diferentes.

No Exército “nacional”, os que entram para a carreira como cadetes e vão galgando as patentes têm a expectativa de um emprego para a vida toda, até se aposentarem jovens, de preferência com alta patente e boa renda por décadas a fio.

O Exército profissional demite o militar quando não precisa mais dele. Com a economia decorrente de não ter efetivos inchados, pode investir mais em armamento e treinamento dos que ficam. O profissional demitido não sai considerando que a Força lhe deve algo. Ao contrário, ela lhe deu formação valorizada no mercado, que o qualifica para outras profissões na vida civil. É assim nos Estados Unidos e na Europa.

Mesmo na ausência da guerra, a cultura das Forças Armadas profissionais serve de antídoto para a degeneração da alma militar em um ser mimado, que sente que a nação está sempre em dívida com ele. 

Você não verá o militar de um Exército profissional celebrando uma vitória sobre guerrilheiros e militantes civis que conduziu à subjugação da própria população por décadas. Vitórias e derrotas ocorrem entre exércitos. Com ou sem guerra, é sempre melhor uma estrutura profissional nas Forças Armadas.

É COLUNISTA DO ESTADÃO E ANALISTA DE ASSUNTOS INTERNACIONAIS

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