''A altura das chamas e da fumaça negra era impressionante''

DEPOIMENTO

Lívio Oricchio: reporter do ?Estado?, O Estadao de S.Paulo

21 de agosto de 2008 | 00h00

"Eram 14h30 do dia 20 de agosto de 2008. O comandante do vôo 338 da Iberia, de Madri a Valência, informa aos passageiros que não poderá taxiar na pista do Aeroporto de Barajas para decolar porque recebeu da torre de controle a informação para aguardar. ?Nos disseram que houve uma acidente... (pausa) ali, ali. Olhem para o lado direito do nosso avião?, disse o piloto, atônito, ainda com o microfone aberto. As pessoas dentro do Airbus A320 da Ibéria correram para as janelas do lado direito, ainda no solo. O que viram, não esquecerão tão cedo: chamas muito altas e um volume impressionante de fumaça negra. A confirmação de uma catástrofe aérea ficou clara de imediato. Apesar da distância de cerca de 1,5 quilômetro entre o Airbus e o MD-82 da Spanair, a quantidade de fumaça era tão grande que tudo parecia bem mais próximo. Dentro do avião da Iberia criou-se um clima de tensão. Afinal, aquele vôo decolaria duas ou três aeronaves depois do MD-82. Inevitavelmente, as pessoas se imaginam naquela situação.Uma das aeromoças da Iberia comenta ter experimentado momento semelhante há pouco tempo. ?Mas conseguimos deixar o avião a tempo?, disse. O que se via, porém, sugeria, era algo bem mais sério. Não havia como sobreviver àquela imensa nuvem densa de materiais em combustão extremamente tóxica.Xavier, repórter da TV5, passageiro da Iberia, pede que a porta traseira esquerda do Airbus seja aberta. Como tinha uma câmera, desejava registrar as imagens, provavelmente únicas para quem estava no aeroporto, pois não havia nenhum obstáculo, além da distância, para gravá-las. Sem o plástico da janela as imagens ficam melhores. Nesse instante, o que se via era uma fila de caminhões de bombeiros, ambulâncias e carros de serviço, que se deslocavam velozmente na direção do acidente.A ordem do comandante da Iberia era para manter seus passageiros a bordo, mesmo com o protesto da maioria. A temperatura dentro do avião, com os motores desligados, passava dos 35 graus. Ele pediu desculpas, mas não podia fazer nada, tinha de mantê-los lá.?Mesmo que a companhia permita, não recomendo que desçam, pois somos o terceiro na fila de decolagem quando o aeroporto reabrir. Como demoraria até que todos entrassem a bordo novamente, perderíamos nosso lugar na fila e só sairíamos de Madri bem mais tarde?, explicou.Vários passageiros não se interessaram em acompanhar as imagens chocantes de um superincêndio a tão pouca distância, sabendo que dentro daquelas chamas havia quase 200 pessoas. Com o uso do celular liberado, vários buscavam informações na internet. Em poucos minutos a parte traseira do Airbus se transformou em um centro de troca de dados. Alguns manifestavam preocupação por ter de voar depois do choque e de assistir de perto os horrores de um acidente dessa natureza. Havia uma espécie de contaminação emotiva. O comandante de novo, cerca de 30 minutos após as primeiras chamas, se apresenta. ?Não podemos utilizar a outra pista (paralela à 36, a do acidente). Para chegarmos lá teríamos de cruzar a 36 e é possível ver quantos veículos a estão utilizando para prestar socorro ao acidente.?Um dos passageiros informou ter lido que transformaram a parte final da pista em hospital de campanha. Outro comenta ter lido que um paramédico ouviu de um bombeiro não ter muito o que fazer, não poderia sequer se aproximar do núcleo maior das chamas em razão do calor provocado pela queima de 12 toneladas de querosene existentes nos tanques do MD-82.Isolados no avião da Iberia foi possível constatar uma realidade cheia de paradoxos: bem poucos estavam tão próximos do ocorrido, mas, ao mesmo tempo, tão distantes de informações precisas. A internet falava em sete mortos. De repente, 48. Nada digno de crédito. A aeromoça que teve uma ?experiência semelhante? continuava otimista. Talvez até para não pensar muito na sua atividade profissional. Já perto das 17 horas, os passageiros do Airbus da Iberia receberam ordem para desembarcar. Até então, tudo o que foi oferecido não passou de um copo d?água. O calor abrasivo continuava o mesmo. No entanto, nem todos haviam chegado ao salão do Terminal 4 do Aeroporto de Barajas e a ordem foi cancelada. O grupo viu o comandante e co-piloto, ambos bem jovens, pedirem licença na passarela telescópica para chegarem à cabine de comando. ?Rápido, rápido, recebemos informações de que irão reabrir o aeroporto?, afirmou, se explicando para os passageiros, que já não entendiam mais nada.Na decolagem, pela pista paralela à 36, foi possível observar de cima, fugazmente, o cenário do acidente. Lembrou filmes de guerra, regiões depois de um bombardeio. Não havia nada inteiro do MD-82. A área estava negra, só restos, consumida pelo fogo de mais de uma hora. No avião da Iberia, pessoas de mãos dadas, umas com as outras. A tensão só diminuiu mesmo quando, 40 minutos depois, o vôo 338 pousou em Valência. Contudo, na memória de todos os passageiro, aquela experiência triste e doída permanecerá preservada por um bom tempo."

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