A ambiguidade moral do saque

Reação de moradores em áreas atingidas pelo terremoto no Chile traz à tona dilema entre o legal e o justo

Donald G. Mcneil Jr, O Estadao de S.Paulo

15 de março de 2010 | 00h00

THE NEW YORK TIMES

"A lei, na sua igualdade majestosa", escreveu Anatole France, romancista do século 19, "proíbe tanto ricos quanto pobres, de dormir sob pontes, mendigar e roubar pão".

Se os corpos esmagados foram imagens duras que nos chegaram do terremoto do Haiti, no caso do Chile as mais memoráveis foram as dos saques. No entanto, um fato que se tornou clichê do jornalismo voltado para os desastres também se revelou no Chile: as primeiras notícias de pessoas saqueando mercados em busca de comida e fraldas para os bebês foram imediatamente acompanhadas de imagens de outras carregando aparelhos de TV e máquinas de lavar, numa cidade que estava sem energia elétrica. Uma loja de departamentos em Concepción foi incendiada. Em alguns lugares, bandos de indigentes assaltavam qualquer um à sua frente. Moradores que criaram forças de autodefesa teriam dito que o "terremoto humano" era pior do que o geológico.

Isso tudo levanta uma questão: quando é que uma pessoa desesperada tem direito de se defender? E direito a quê? E em que momento do caos, entre fraldas e máquinas de lavar pratos, a polícia deve gritar "largue isso ou eu atiro"? Dias depois, com milhares de soldados nas ruas, as imagens começaram a mudar: jovens deitados no chão, sob a mira de armas.

No geral, a situação era semelhante à do Haiti. Ou de New Orleans, depois do furacão Katrina. Ou como Dayton, depois das inundações em 1913. Ou como Roma em 410. É difícil encontrar uma perturbação da ordem social, natural ou provocada pelo homem que não tenha levado a saques em algum lugar. Moradores de Chicago saquearam lojas durante uma nevasca recorde em 1967. Moradores de Montreal também cometeram saques durante choques com a polícia em 1969. E não nos esqueçamos dos saques do Museu Nacional de Bagdá, logo após a invasão de 2003.

Embora os saques comecem espontaneamente, a rapidez com que ele cessa depende do quão rápida e severa é a reação a ele. Esse, em resumo, é o argumento para o uso decisivo da força.

Legalmente, como Anatole France observou, o faminto não pode nem roubar pão. Mas acadêmicos que estudaram o fenômeno do saque distinguem três níveis numa escala de ambiguidade moral.

Roubar comida para sobreviver é aceito por muitos. Roubar aparelhos de TV já é uma área não bem definida. Sim, um homem faminto pode vender o aparelho para conseguir comida, mas nunca se sabe claramente se a finalidade será essa. E o terceiro nível - os saques e o caos, que são realmente uma guerra étnica ou de classes - é universalmente condenado, mesmo que muitos digam que os pobres de um país têm o direito de se encolerizar e devem ser perdoados ao expressar essa cólera durante uma crise.

Tricia Wachtendort, do Centro de Pesquisa de Desastres, da Universidade de Delaware, é contrária até mesmo ao uso das palavras "saque" ou "crime" para descrever o roubo de bens essenciais. A ética depende dos fatos envolvidos em cada caso, disse James M. Glass, professor de política na Universidade de Maryland. "Você pode argumentar que é certo pessoas famintas roubarem lojas, mas pessoas famintas atacando uma mulher com uma sacola de comida para seus filhos é um atoleiro moral."

Vista grossa. Diante desse contexto, uma decisão adotada depois pela então presidente do Chile, Michele Bachelet, foi bastante excepcional na história dos desastres. Ao mesmo tempo que condenou os saques, impôs um toque de recolher e enviou 14 mil soldados para patrulhar as cidades, ela pediu aos varejistas do país que fornecessem comida e outras bens necessários gratuitamente às pessoas. E algumas autoridades deixaram que a polícia fizesse vista grossa quando os saqueadores roubavam produtos de primeira necessidade.

Não está claro qual o fator mais importante, mas, dias depois, os saques no Chile diminuíram. Alguns comerciantes não só continuaram vendendo, como triplicaram os preços. Mas nas áreas pobres da cidade de Concepción soldados entregavam sacolas de alimentos.

A decisão de Michelle Bachelet, disse Sergio Serulkinov, professor de história da Universidade de San Andrés, em Buenos Aires, lembrou um aspecto também excepcional ocorrido em 1989, na Argentina, por ocasião de tumultos por comida que duraram um mês. Nenhum desastre natural tinha provocado aquela situação; pelo contrário, a hiperinflação é que estava deixando as pessoas famintas. No início, grupos de mulheres de favelas entravam em lojas, enchiam suas sacolas e saíam sem pagar - mas também sem danificar as caixas registradoras nem quebrar nada. Mais tarde, essa disciplina desapareceu e multidões de pessoas invadiam os mercados. Com o governo impotente e a polícia hesitante, os proprietários das lojas começaram a barganhar com os invasores, oferecendo as mercadorias de graça se suas lojas não fossem danificadas.

Esses tumultos finalmente acabaram, quando nada mais restava - uma sorte da qual o Chile escapou. / TRADUÇÃO TEREZINHA MARTINO

JORNALISTA DE SAÚDE ESPECIALIZADO EM PRAGAS E SURTOS EM PAÍSES POBRES

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