A ameaça ao reinado de Angela Merkel

Cada vez mais isolada por vizinhos e enfrentando problemas internos, chanceler alemã é criticada e corre risco de perder o poder na eleição de 2013

É JORNALISTA, PHILIPP, WITTROCK, DER SPIEGEL, É JORNALISTA, PHILIPP, WITTROCK, DER SPIEGEL, O Estado de S.Paulo

27 Maio 2012 | 03h04

Em geral, Angela Merkel gosta de sua presença no cenário internacional, que sempre lhe proporcionou uma oportunidade de brilhar e é onde ela desenvolveu uma reputação de "Miss Mundo" e "Miss Europa".

Agora, porém, as coisas não estavam indo tão bem para a chanceler, no momento em que ela viajava, na semana passada, de uma cúpula internacional para a seguinte. Na reunião da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), em Chicago, houve uma disputa sobre a retirada do Afeganistão. Na cúpula do G-8, em Camp David, o presidente da França, François Hollande, flexionou seus músculos e disse que faria o mesmo em um jantar em Bruxelas com os líderes dos membros da União Europeia.

Na crise do euro, o líder socialista está buscando aliados para romper com a abordagem com base na austeridade de Merkel e apoiar os eurobônus, que são profundamente impopulares em Berlim. Seus esforços não foram infrutíferos tampouco - e a Alemanha poderá ficar mais isolada em breve.

Isso tudo poderia ser perfeitamente palatável para Merkel se as coisas estivessem indo bem para ela no front político doméstico - e se ela pudesse confiar na estabilidade de seu governo de coalizão. No entanto, a política interna para Merkel está tudo menos calma.

A decisão de demitir seu ministro do Meio Ambiente, Norbert Röttgen, há duas semanas, criou turbulência dentro do governo de coalizão da sua conservadora União Democrata-Cristã (CDU), de seu partido irmão da Baviera, União Social Cristã (CSU), e do Partido Democrático Liberal (FDP), favorável ao empresariado. A CDU ficou agitada como raramente se viu depois da demissão. Desta vez, contudo, as coisas não giram em torno de diferenças políticas. Agora, a questão é a própria chanceler - seu estilo e seu caráter.

Até agora, o mundo de Angela Merkel parecia extremamente simples. Houvesse o que houvesse em seu entorno, ela permanecia a imutável gerente da crise soberana. Isso lhe rendeu importantes pontos de simpatia junto às pessoas e dentro de seu próprio partido. Ela se afirmava como sendo sólida como uma rocha e parecia ter a serenidade necessária para tomar as decisões acertadas no momento certo. Agora, o verniz dessa imagem da chanceler está rachado.

Pode-se dizer que Merkel perdeu seu grau de confiança máximo triplo A - ao menos no que toca à popularidade. Ela está sofrendo uma enorme pressão doméstica e de fora. No longo prazo, não conseguirá manter sua posição firme contra seus parceiros europeus com respeito às políticas de austeridade.

A pressão crescente que está sendo exercida por Hollande e outros será simplesmente grande demais para permiti-lo. Ao mesmo tempo, tem-se a impressão crescente de que as repercussões de sua decisão de demitir Röttgen, que já foi um protegido político de Merkel e alimentava aspirações de um dia se tornar chanceler, são inteiramente incalculáveis.

"O partido parece desinteressante", afirmou Klaus-Peter Schöppner, da empresa alemã de sondagens de opinião Emnid. Ele disse que o afastamento de Röttgen terá implicações nos índices de aprovação da chanceler. "Não se pode mais descartar - aliás, é muito provável - que tratar mal ministros ou membros do Parlamento terá um grande impacto na imagem de um partido e de seus líderes", disse Schöppner.

Maldição. O drama que cerca seu deposto ministro do Meio Ambiente poderá se tornar uma maldição para Merkel, em especial porque os estrategistas da CDU não fizeram segredo de que a campanha eleitoral de 2013 do partido será inteiramente centrada na pessoa da chanceler. Agora, porém, ela de repente se sobressai como alguém duro e frio - todas as características antes desconhecidas numa chanceler que é apelidada de "Mutti" (mãezinha) dentro de seu partido.

O fato de Röttgen não estar fazendo barulho sobre a sua demissão, por enquanto, não mudará isso. Durante o fim de semana passado, surgiram reportagens sugerindo que ele poderia buscar retaliação contra a chanceler com um "contragolpe".

Na segunda-feira, porém, sua assessora de imprensa declarou: "Não há nenhuma declaração sobre os eventos e nenhum anúncio". Em outras palavras, Röttgen não tem planos, por enquanto, de fazer uma declaração pública, aparecer na TV ou dar uma entrevista a um jornal. Há, no entanto, um temor considerável na CDU de que um humilhado Röttgen poderia querer um grande acerto de contas com a chanceler.

Confidentes políticos de Volker Kauder, o líder parlamentar dos conservadores, já emitiram advertências claras contra isso. "Qualquer um no partido tem o direito de manifestar sua opinião", disse Kauder ao tabloide Bild. "Mas as pessoas devem colocar o país e o povo em primeiro lugar, depois o partido - e, por último, elas mesmas."

Os democratas-cristãos temem um debate público capaz de criar uma atmosfera negativa duradoura e desgastar o campo conservador. Um sentimento negativo seria venenoso para a motivação e seria ruim para a posição negociadora de Merkel na crise do euro. Sob pressão em casa e do exterior, a chanceler teria menos peso para defender suas posições.

O negativismo também poderia ser tóxico para os índices de popularidade de Merkel no eleitorado. Schöppner, da Enmid, traça um paralelo com pesquisas sobre a imagem de corporações. Nessas pesquisas, a maneira como companhias tratam seus empregados é particularmente importante para os pesquisados - ao menos no que diz respeito a seu nível de confiança nas empresas. "O mesmo se aplica a partidos políticos", disse Schöppner.

Está claro que a derrota do partido na eleição estadual deste mês na Renânia do Norte-Vestfália abalou profundamente os democratas-cristãos. De repente, a criança problema do governo não é mais o abalado FDP, mas os próprios democratas-cristãos, que gostam de se considerar a âncora de estabilidade na coalizão de Berlim.

E com a demissão de Röttgen, Merkel violou sua própria regra, constantemente reiterada, de que eleições estaduais não devem ter impacto na política em nível nacional. No entanto, depois da desastrosa eleição na Renânia do Norte-Vestfália, o ministro do Meio Ambiente de Merkel foi subitamente visto como alguém sem a autoridade necessária para comandar a "revolução energética" do país, um projeto grandioso envolvendo a transição de energia nuclear e combustíveis fósseis para energia sustentável.

Incompreensão. Os amigos de Röttgen discordam dessa interpretação e acham que a razão dada é espúria ou uma desculpa. Fontes próximas confirmam que, no início da campanha estadual na Renânia do Norte-Vestfália, a chanceler fez o ministro do Meio Ambiente declarar que ficaria no Estado para liderar a oposição mesmo que a CDU perdesse a eleição. No entanto, aliados de Röttgen declararam também que a chanceler prometeu que, no fim, ela declararia que seu antigo protegido era indispensável em Berlim.

O acordo nunca foi fechado e o desfecho é bem conhecido. A percebida falta de compromisso de Röttgen com a Renânia do Norte-Vestfália foi vista como um importante fator de sua derrota.

A consequência, contudo, é que a incompreensão com a medida da chanceler está ficando mais ruidosa, em particular entre membros desapontados do diretório estadual da Renânia do Norte-Vestfália. Na segunda-feira, o ex-ministro alemão do Trabalho Norbert Blum protestou. "Isso não corresponde à maneira como eu acredito que as pessoas deveriam ser tratadas", disse Blum. "Isso não é bom para um partido democrata-cristão."

Dentro das fileiras do partido no Parlamento, Wolfgang Bosbach, também da Renânia do Norte-Vestfália, agradeceu a Röttgen, há duas semanas, por ele o haver substituído. "Todos têm alguma opinião sobre a sua demissão e muitos já fizeram declarações públicas sobre ela", disse Bosbach.

Ele considerou compreensível, portanto, que Röttgen desejasse, em algum momento, fazer sua própria declaração, mas acrescentou que estava seguro de que ele não diria nem faria alguma que pudesse prejudicar a CDU ou a chanceler. "Se o fizesse, ele acabaria se prejudicando também", acrescentou o político.

Se Röttgen - que foi oficialmente destituído do cargo de ministro do Meio Ambiente pelo presidente Joachim Gauck na terça-feira - assumirá ou não esse risco dependerá de seus planos para o futuro e também do que ele ainda poderia ter a perder.

Por enquanto, não parece que ele virará as costas completamente para a política. A porta-voz de Röttgen confirmou que o político, de 46 anos, pretende concorrer à reeleição para o Parlamento nacional em 2013. Por enquanto, ele também pretende conservar seu posto de vice-presidente da CDU.

O silêncio pode ser a melhor maneira de evitar que ele seja visto como mau perdedor. "A única coisa que Röttgen tem a seu favor, neste momento, é o modo como Merkel o expulsou, como se ele fosse uma espécie de ladrãozinho", disse um bem conectado veterano político da CDU da Renânia do Norte-Vestfália. "Se for esperto, ele ficará em silêncio e deixará sua demissão falar por si mesma." / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.