A ameaça da aliança sino-russa

Especialistas e líderes políticos têm observado semelhanças entre o que ocorreu na Europa antes da 1ª Guerra e o que presenciamos hoje na Ásia; eles temem novo conflito

Artyom Lukin, Global Viewpoint/O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2014 | 02h01

Se, de um lado, as duas primeiras guerras mundiais irromperam e foram travadas principalmente na Europa, a terceira, caso não seja evitada, provavelmente explodirá na região da Ásia-Pacífico.

Alguns estudiosos e líderes políticos têm observado semelhanças surpreendentes entre o que ocorreu na Europa antes da 1.ª Guerra e o que presenciamos hoje na Ásia. A situação em termos de segurança na Ásia-Pacífico nos dias atuais - com reivindicações de soberania conflitantes, a ascensão do nacionalismo entre países de maior e de menor porte e a rivalidade entre grandes potências - cada vez mais se assemelha à Europa um século atrás.

Uma guerra mundial é um conflito militar muito especial - um conflito em que se confrontam duas coalizões poderosas lideradas por grandes potências com recursos estratégicos mais ou menos comparáveis, de maneira que uma não vencerá fácil e rapidamente a outra. Estamos a caminho de ver esse tipo de guerra irromper na região da Ásia-Pacífico?

A China, naturalmente, é uma potência emergente cujas ambições colocam o país em rota de colisão com o atual poder hegemônico, os Estados Unidos - situação muito semelhante ao antagonismo anglo-germânico que preparou o caminho para a 1.ª Guerra.

Mas, mesmo que a China se torne, como vem sendo previsto, a primeira economia do globo e conseguir se equiparar militarmente aos EUA, não será o bastante para ser vista como um possível desafio à hegemonia americana. Isso porque a China terá de enfrentar não só os EUA, mas todo o bloco liderado pelos americanos, que conta, entre outros, com Japão, Canadá, Austrália e talvez a Índia.

Hoje, Pequim tem apenas um aliado oficial, a Coreia do Norte, ao passo que o Paquistão pode ser considerado um aliado de facto, pelo menos com relação à Índia. Embora valiosos para a China, esses países dificilmente podem ser considerados enormes ativos estratégicos. A China não tem um aliado confiável com reputação de grande potência. O único candidato plausível é a Rússia. Uma aliança com Moscou sem dúvida fortaleceria Pequim.

E tendo Moscou como amigo e aliado, a China poderia estar tranquila quanto à segurança das suas fronteiras e teria acesso livre aos recursos naturais da Rússia. Assim, Pequim ficaria menos vulnerável a bloqueios navais que os EUA e seus aliados marítimos certamente imporiam no caso de um confronto sério.

Liga eurasiana. No caso de formarem uma aliança, Moscou e Pequim teriam para si a Ásia Central, como também a Mongólia, rechaçando efetivamente todos os poderes externos do coração da Eurásia. Uma aliança com Moscou também colocaria o complexo militar-industrial da Rússia e sua vasta infraestrutura militar na Eurásia a serviço de Pequim. O que pode, no final, dar origem a uma liga eurasiana que, controlando o centro do continente, seria reminiscente da aliança dos Poderes Centrais formada no centro da Europa pela Alemanha Imperial e o império dos Habsburgos.

Há uma forte tendência no Ocidente a subestimar o potencial para a criação de uma aliança entre Rússia e China. Com frequência, uma parceria estratégica entre os dois países é considerada uma "aliança de conveniência", estabelecida com bases instáveis. Moscou, seguindo esse raciocínio, estaria disposto a formar uma aliança com Pequim, pois desconfia e teme a ascensão da China. O problema é que o Ocidente liderado pelos EUA é visto por Moscou como uma ameaça muito maior do que a China. O consenso no Kremlin é no sentido de que, ao menos nos próximos 20 anos, a China não será uma ameaça para a Rússia.

O inimigo comum de Moscou e Pequim são os Estados Unidos.

Embora descrever uma parceria estratégica sino-russa como aliança não seja correto, o relacionamento entre os dois países é cada vez mais estreito, o que se evidencia pelo recente mega-acordo sobre fornecimento de gás, a disposição da Rússia de vender para a China suas armas mais avançadas e a expansão dos exercícios militares bilaterais.

A crise da Ucrânia poderá muito bem ser o ponto decisivo, selando o destino desses alinhamentos na Eurásia. A decisão do Ocidente de punir e isolar a Rússia vem empurrando Moscou para mais perto de Pequim que, de modo revelador, assumiu uma posição de neutralidade benevolente com relação às ações do Kremlin na Ucrânia e a anexação da Crimeia pelos russos. É caso de suspeitar que, em troca, Pequim espera de Moscou o mesmo tipo de "neutralidade benevolente" no tocante às suas reivindicações no Leste da Ásia e no Pacífico Ocidental.

As personalidades dos líderes russo e chinês, Vladimir Putin e Xi Jinping, também serão um importante fator na decisão desse alinhamento entre China e Rússia. Ambos são presidentes autocráticos que concentram em suas mãos poderes quase exclusivos nas decisões de política externa.

Putin e Xi parecem se dar muito bem e adotam o mesmo estilo de realpolitik agressiva. Comparados com líderes ocidentais contemporâneos com atuações pouco satisfatórias na área da política externa, o duo Putin-Xi será uma força tremenda. É significativo também o fato de que Putin e Xi estarão ativos por um longo tempo: Putin deverá se candidatar e se reeleger em 2018, ao passo que Xi só deixará o cargo em 2022 e poderá continuar na posição de líder supremo depois desta data.

Nova ordem. O sistema internacional está numa fase crítica, com a unipolaridade dos EUA se esvanecendo e os contornos da nova ordem mundial se formando. A questão crucial é se esta ordem emergente privilegiará a multipolaridade e um equilíbrio de poder flexível ou uma ordem dividida em duas alianças hostis.

São necessários dois para brigar - no caso, duas alianças para desencadear uma guerra mundial. Na verdade, uma aliança já existe há mais de 60 anos. Ou, preferivelmente, uma rede de alianças liderada por Washington - a Otan na parte ocidental da Eurásia e os pactos de segurança na Ásia Oriental. Se um bloco oposto - formado por Rússia e China - será criado, isto dependerá em grande parte de Washington. Se os EUA continuarem sua atual política de contenção contra Rússia e China será difícil para esses países resistirem à tentação de formar uma aliança antiocidental.

Muitos fatores se combinaram para a explosão da 1.ª Guerra. Mas a situação ficou realmente explosiva quando a Europa se dividiu em duas alianças contrárias - a tríplice aliança da França, Rússia e Grã-Bretanha contra a tríplice aliança da Alemanha, o império Austro-húngaro e Itália. Se, um século depois, caímos novamente na armadilha da política de alianças hostis, as consequências talvez sejam menos trágicas.

Um concerto eurasiano de poderes, tomando emprestado alguns elementos do Concerto da Europa do século 19, seria uma maneira possível de evitar a catástrofe, com a criação de uma ordem multipolar estável. Um acordo entre muitos protagonistas fortes - Estados Unidos, China e Rússia -pode ser a base inicial de uma arquitetura multilateral em que outros países devem ser envolvidos. Esta será, certamente, uma tarefa imensamente difícil, mas na tentativa de realizá-la teremos, pelo menos, o benefício das lições que a história nos ensinou.

*Artyom Lukin é professor e vice-diretor de pesquisa da Far Eastern Federal University de Vladivostok, Rússia. 

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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