A América Latina sem Fuentes

Ao morrer esta semana, aos 83 anos, Carlos Fuentes comoveu a cultura internacional. Nada mais justo. O escritor mexicano, autor de 60 livros, colheu todas as honras possíveis da literatura na língua espanhola. Foi ícone de "El Boom", a explosão de letras latino-americanas que sacudiu o mundo nas décadas de 60 e 70.

É COLUNISTA DO ESTADO, CORRESPONDENTE DA REVISTA NEWSWEEK, EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COMMAC MARGOLIS, É COLUNISTA DO ESTADO, CORRESPONDENTE DA REVISTA NEWSWEEK, EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COMMAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

20 Maio 2012 | 03h05

Só que a pegada de Fuentes vai muito além da literatura para a diplomacia, a vida acadêmica e a política - mundos paralelos que ele navegou com destreza e estilo, seja em Madri, Paris ou Mazatlán. Polêmico, destemido, às vezes irascível, Fuentes defendeu posições que incomodaram governos e elites, servindo-se na página escrita ou no pódio da conflagrada história latino-americana. Não se alinhou com o realismo mágico, que mistura fatos com o fantástico, como na obra de Gabriel García Márquez.

Mais próximo a Balzac e Charles Dickens, sua ficção dissecou a sociedade para expor as chagas, promessas e os fracassos do México e sua relação conturbada com o mundo.

A caminho, tornou-se o latino-americano mais famoso da sua era. Diferente de seus pares, García Márquez, Mário Vargas Llosa e Octávio Paz, ele jamais ganhou o Prêmio Nobel. Mas sua produtividade espantosa (escrevendo sempre à mão), a longa carreira diplomática (chegando a embaixador na França), mais o compromisso de contar a história de seu povo ajudaram a alçar não apenas a ficção latina senão toda a América Latina ao mapa mundial.

Fuentes também assumiu uma missão particular. Convencido do desgaste da ficção europeia e americana, acreditava que era a hora e vez dos escritores latinos. Tornou-se embaixador sem pasta, "o perfeito homem de letras internacional", segundo Ilan Stavans, professor de Literatura latino-americana na Universidade de Amherst.

Sofisticado e cosmopolita, Fuentes, no entanto, parecia prisioneiro de uma cápsula do tempo. Costurava elogios a Fidel Castro quando a maioria dos intelectuais latino-americanos já denunciara o cubano, entre eles Vargas Llosa e Octávio Paz. Fumou charutos com o então insurgente marxista e projeto de tirano nicaraguense Daniel Ortega.

Suas arrobas anti-imperialistas desagradaram Washington, que o proibiu de entrar nos Estados Unidos. Passada a Guerra Fria, virou figura fácil ao norte do Rio Grande onde palestrava em inglês impecável, encantava universitários e se misturava com notáveis e celebridades. Fiel à esquerda até o final, seu derradeiro artigo, publicado no dia da sua morte, saudava a volta de um socialista ao poder na França.

Mas Fuentes nunca se engessou. Com o tempo, criticou o endurecimento do regime castrista e desdenhou o homem forte venezuelano Hugo Chávez como "demagogo de discurso flatulento" e um "Mussolini tropical".

O quanto sua obra será estudada nas próximas gerações, ainda é uma incógnita. Curiosamente, enquanto crescia como representante internacional da América Latina, Fuentes perdia ressonância em sua terra.

Embora vibrante e elegantemente narrada, sua ficção também parecia agarrada ao passado, como se a senha da identidade de seu povo estivesse nas ruínas da história. A fixação o levou a estereótipos - o soldado machista, o indígena sofrido, gringos decadentes e arrogantes e mulheres sempre santas ou prostitutas.

"Seus romances são grandes fábricas de mitos", nas palavras de Ilan Stavans. "Fuentes virou o Diego Rivera das letras", diz, em referência ao grande artista mexicano conhecido por seus murais gigantes, que escancaram arquétipos históricos.

No México de hoje, complexo, tumultuado e ambicioso, as narrativas de Fuentes começam a perder brilho, como retratos em preto e branco no Multiplex. A nova geração de escritores mexicanos não se comove com sua mitologia. Talvez seja essa a máxima homenagem a Carlos Fuentes, escritor que inspirou mais rebeldes que discípulos. Exímio contador de histórias, desafiou o mundo a enxergar uma região em que jamais reparara. Agora que conseguiu a atenção, a América Latina pode seguir rumo.

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