AFP PHOTO / MARIO VAZQUEZ
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A angústia na busca de crianças em escola que desabou no México; 21 morreram

Pais angustiados acompanham trabalhos de resgate na Escola Enrique Rébsamen, na Cidade do México, onde ao menos 25 estudantes foram dados como desaparecidos; mexicanos mostram solidariedade escavando escombros e distribuindo comida

Paulina Viegas / The New York Times, O Estado de S.Paulo

20 Setembro 2017 | 13h14
Atualizado 20 Setembro 2017 | 23h03

Gustavo López primeiro reconheceu as roupas do garoto. O vulto frágil, arrancado dos destroços, jazia nas lajes quebradas que sobraram da escola. Era seu filho de 7 anos. Em estado de choque, López passou horas sentado em silêncio, tentando reunir forças para contar à filha de 9 anos, que escapara ilesa, que seu irmãozinho, também chamado Gustavo, havia morrido. 

Ele estava entre as pelo menos 21 crianças que morreram quando a Escola Enrique Rébsamen desabou durante o terremoto que devastou o México na terça-feira, matando pelo menos 230 pessoas. López esperou pelo primo Mauricio, que adorava Gustavinho e o levava ao cinema e para andar de bicicleta. 

Quando Mauricio chegou, algumas horas depois, centenas de médicos, paramédicos, voluntários e populares tentavam resgatar alunos ainda sepultados sob os escombros. “Ele era também meu filho”, gritou Mauricio, enquanto o próprio Gustavo procurava consolá-lo. “Não consigo suportar, não consigo!”

Outros gritos de angústia foram ouvidos na escola durante toda a noite, vindos de uma multidão caótica. Pais subiam em árvores e equipamentos tentando se posicionar melhor para acompanhar o resgate, agarrando-se à esperança de que os filhos tivessem sobrevivido. E muitos sobreviveram, conseguindo deixar o prédio antes que as paredes desabassem sobre eles. Pedestres que correram para a escola logo após o terremoto também puxaram crianças de escombros e buracos. 

Quando o dia se foi e a noite caiu, mais e mais corpos sem vida foram retirados das ruínas, os nomes registrados por um exército de voluntários que organizavam listas de mortos. Nesta quarta-feira, 25 crianças ainda estavam desaparecidas. Pelo menos cinco tinham sido localizadas nos escombros e os socorristas lutavam para retirá-las. “Ver um pai carregando o próprio filho morto é algo de que nunca vou esquecer”, disse Elena Villaseñero, voluntária cuja casa ficou severamente danificada. 

O número de mortos no país subiu para 230 em menos de 36 horas após o terremoto. A subida dos números é acompanhada por uma nação já enlutada. Apenas duas semanas antes, o maior terremoto que atingiu o México em um século matou 98 pessoas no sul do país, numa sinistra antecipação do que viria. 

Em nenhuma outra parte o sofrimento era tão palpável quanto na escola destruída, onde havia um cheiro de gás, suor e terra. Pessoas gritavam mensagens em megafones. No início, apenas os faróis dos veículos de socorro iluminavam a cena do resgate. Mais tarde, foi instalado um gerador para os holofotes.

Não estava ainda claro hoje quantos dos 400 estudantes matriculados se encontravam na escola na hora em que o terremoto a transformou em ruínas. Mais de 60 alunos feridos foram socorridos em hospitais da região. Outros foram levados por pais traumatizados.

Segundo o site da Enrique Rébsamen, uma escola privada, ao menos três famílias conseguiram se comunicar com os filhos presos no prédio por meio do WhatsApp, pedindo detalhes como a distância da porta de entrada em que eles estavam, para ajudar nos esforços de busca. Onze crianças e uma professora tinham sido resgatados com vida.

Sentado numa escrivaninha improvisada, um dos muitos voluntários atualizava uma lista de mortos e feridos. A relação incluía pelo menos cinco adultos. Moradores vestiram coletes vermelhos e formaram correntes humanas para remover blocos de concreto da escola destroçada. Pilhas gigantes de garrafas de água, remédios, cobertores e até potes de alimentos infantis trazidos pelos vizinhos se amontoavam.

A solidariedade pós-terremoto repetiu-se em prédios desabados na região central do país. Estranhos passaram horas removendo ruínas, enquanto médicos, enfermeiros e trabalhadores da construção se enfiavam no interior de edifícios destruídos. Estudantes e até crianças distribuíam água e alimentos. 

Na escola, alguém gritava por remédios: “Precisamos de clonazepam, insulina, anestésicos, anti-histamínicos e balões de oxigênio”. Trabalhadores usavam capacetes e máscaras. Tratores e escavadeiras entravam e saíam da área do desastre. Voluntários pediam mamadeiras para alimentar as crianças ainda presas nos escombros. 

A grande protagonista dos trabalhos de resgate na escola é a garotinha Frida, de 7 anos. Sua presença foi detectada por um scanner térmico. Equipes de socorro também registraram movimento entre as lajes, que viraram um sanduíche de concreto. Hoje, ela pediu água, que foi levada por uma mangueira entre as ruínas. 

Hoje, depois de horas escavando com as mãos, Florentino Rodríguez García teve um clarão de esperança: seu neto de 9 anos, José Eduardo Huerta Rodríguez, aparentemente, estava são e salvo. Um paramédico disse a Florentino que o garoto havia sido levado para um hospital com escoriações. Após horas de busca, Florentino não descobriu o paradeiro do neto. 

Ele voltou à escola e foi abordado por uma enfermeira. Ela o tomou pela mão e disse que paramédico havia se enganado. José Eduardo ainda estava preso nos escombros. “Por favor, não me diga isso”, gritou histericamente Florentino. “Disseram que ele estava fora. Isso não pode ser verdade.” 

Em seguida, misturou-se à multidão de pais angustiados que esperavam fora da escola e esperou. Então, uma hora mais tarde, outro braço se levantou. Novo silêncio. “José Eduardo Huerta Rodríguez”, foi o nome anunciado. A multidão ecoou, cantando. O garoto havia sido resgatado. / COM AP

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