A ânsia de expurgo da Coreia do Norte

Execução do tio de Kim Jong-un mostra que não há sinais de interesse em reformas dentro do regime autoritário do líder

CHRISTOPHER R. , HILL, PROJECT SYNDICATE, O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2013 | 02h03

Não é possível prever exatamente quando e como o regime norte-coreano terminará. Seu fim poderá chegar por um golpe militar ou palaciano; um levante operário ou camponês; um colapso econômico ou algo que simplesmente reflita a banalidade do lugar todo. Mas um elemento do fim da dinastia Kim é certo: a China terá abandonado o regime. É sempre difícil avaliar o que está se passando na Coreia do Norte, que parece achar que a opacidade é um benefício para sua segurança nacional - levando observadores estrangeiros a especular até sobre questões mundanas como a data precisa de nascimento do líder atual, Kim Jong-un.

Não houve nada de opaco, contudo, no súbito expurgo e rápida execução, no início deste mês, de Jang Song-thaek - ou Tio Jang, como a mídia dera de chamar o antigo regente não tão avuncular de Kim. O superburocrata de 67 anos foi retirado de seu assento na primeira fila de uma reunião do Politburo por dois guardas de segurança e escoltado para fora do recinto. Dias depois, foi julgado, condenado e executado - um modelo de eficiência judicial. "Mate a galinha para assustar o macaco", diz um velho provérbio asiático.

Mas por que se importar com a galinha quando se pode simplesmente matar o macaco? Depois de Jang ter sido banido por duas vezes, seu surgimento como tutor do jovem rei pareceu confirmar seu status como o Talleyrand norte-coreano capaz de sobreviver a tudo e a todos. Mas ele foi consideravelmente menos visível durante o segundo ano de seu jovem encargo no poder. Depois de estar ao lado de Kim durante cada cerimônia de corte de faixa em 2012, ele não foi visto em lugar algum em 2013.

Os motivos para Kim expurgar Jang talvez possam ser encontrados na obra de Shakespeare. O que está claro é que Kim quer ficar no comando, e não tem paciência para mais ninguém que sugira outra coisa. Aliás, o pecado da lealdade insuficiente - Jang esteve notoriamente ausente durante a primavera, quando Kim ameaçou com guerra seus vizinhos e os EUA - pareceu se agigantar. Na Coreia do Norte, aplaudir sem entusiasmo pode ser uma ofensa capital.

Se alguém pode dar saudade das amenidades do reinado de Kim Jong-il, é seu filho, Kim Jong-un. Há poucas evidências de que o jovem Kim tem o menor interesse em reformas ou em aliviar o sofrimento dos norte-coreanos. Mas Jang não era nenhum reformador. Em vez de se preocupar com o abastecimento alimentar do país, ele seria um dos principais responsáveis pela peregrinação da fortuna da família Kim por um labirinto de contas bancárias em vários continentes.

Ele também ficou bastante conhecido por ajudar Kim Jong-il a criar a nomenklatura da Coreia do Norte - o complexo sistema de favorecimento, parte integrante do comunismo, que assegura a lealdade das autoridades ao regime. E, no entanto, as viagens de Jang à China foram citadas como evidências de seu interesse num modelo chinês de reforma econômica.

Isso parece inverossímil. É bem mais provável que o interesse na China refletisse sua abordagem pragmática das finanças do regime (e, talvez, das suas próprias). Aliás, no momento em que a China começa a enfrentar seus próprios problemas de transparência, ela pode desejar rever alguns de seus negócios escusos com Jang e sua turma. Se ele tivesse sido uma espécie de pensador iluminado, era de se esperar alguns sinais de reforma a esta altura. Afora seu instável mercado privado em Pyongyang e o ocasional mercado de verduras de beira de estrada, são poucos os sinais de que a Coreia do Norte esteja em processo de reforma.

Podem-se encontrar um ou dois hotéis novos, é verdade. Numa visita, no outono de 2008, minha equipe de negociação e eu nos alojamos num hotel moderno, novo em folha, "propriedade de japoneses" (não havia japoneses por ali), assistimos ao debate dos candidatos a vice na eleição presidencial americana pela CNN via satélite, e de noite tomamos cerveja europeia. Na Europa Oriental, nos anos 80, um episódio como esse poderia ser interpretado como o prefácio de uma mudança sistêmica mais profunda; na Coreia do Norte, parece mais uma incursão no reduto da elite mafiosa do país.

O expurgo de Jang não deve dissuadir a comunidade internacional de pressionar pela desnuclearização da Coreia do Norte. Os que parecem mais interessados em desaprovar a negociação do que em desarmar a Coreia do Norte deviam refletir no fato de que seu ultrarrealismo ajudou e incitou um regime dedicado à proposição de que o mundo acabará aceitando seu status nuclear. Na falta de mudanças na Coreia do Norte, os que se recusam a aceitar a legitimidade de seu programa de armas nucleares compreensivelmente pediram ajuda à China. E, embora a China venha adotando uma política mais dura com a Coreia do Norte num ritmo desanimadoramente glacial, está evidente que ela está avançando. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É EX-SECRETÁRIO-ASSISTENTE

DOS EUA PARA O LESTE ASIÁTICO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.