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A aposta de Putin na Ucrânia

A guerra econômica teria consequências devastadoras, tanto para russos como para europeus

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2021 | 05h00

Cerca de 110 mil soldados russos se concentram na fronteira com a Ucrânia, segundo a CIA. O presidente russo, Vladimir Putin, afirma que a instalação de mais baterias de defesa antimíssil pela Otan no flanco ocidental da Rússia equivaleria a cruzar “a linha vermelha”

A mobilização das tropas russas é exatamente o tipo de ameaça que costuma levar a aliança atlântica a reforçar a defesa. Entramos numa dinâmica que levará à guerra? Não é do interesse da Ucrânia nem do Ocidente. As intenções de Putin, como sempre, não estão claras, e guerras muitas vezes se movem pela inércia.

O equipamento deslocado pelos russos para a fronteira sugere que o efetivo deve atingir 175 mil militares em janeiro, ainda segundo a CIA. Para o ministro da Defesa da Ucrânia, Oleksiy Reznikov, os russos estarão “prontos para a escalada” no fim de janeiro. A Rússia afirma que há 125 mil militares do lado ucraniano da fronteira. 

Em 2014, quando eu cobri a crise que levou à queda do então presidente Viktor Yanukovich, à anexação da Crimeia pela Rússia e à ocupação de áreas do leste da Ucrânia por separatistas russos étnicos apoiados pelo Kremlin, havia 6 mil militares ucranianos operacionais. Agora, são 250 mil.

Mesmo assim, a Ucrânia não é páreo para o poderio russo. Reznikov diz que os militares ucranianos, visitados pelo presidente Volodymyr Zelensky no dia 6, não precisam da ajuda de soldados estrangeiros, mas de armamento e inteligência militar. O que cruzaria a linha vermelha de Putin.

Ele sente que a Otan está privando a Rússia de todos os territórios-tampão que a protegiam da Europa. A Otan foi criada em 1949 para defender os países da Europa Ocidental da chamada “cortina de ferro”, os satélites soviéticos no Leste Europeu. Em resposta à adesão da Alemanha Ocidental, a União Soviética criou o Pacto de Varsóvia, em 1955. Com o fim da URSS, eles vieram para o guarda-chuva da Otan.

GUERRA ECONÔMICA

Em 1999, entraram a República Checa, Hungria e Polônia; em 2004, Bulgária, Estônia, Letônia, Lituânia, Romênia, Eslováquia e Eslovênia; em 2009, Albânia e Croácia; em 2017, Montenegro e, em 2020, Macedônia do Norte. Se a Rússia atacar qualquer desses países, a Otan é obrigada a defendê-los.

Não é o caso da Ucrânia, que não é membro efetivo e sim parceira. Mas os EUA podem excluir a Rússia do sistema swift de transferências bancárias. A Alemanha já parece ter concordado em suspender o início das operações do gasoduto Nordstream 2.

Seria uma guerra econômica de consequências devastadoras - não só para os russos, mas para os europeus também, que têm muitos negócios com a Rússia e dependem de seu gás.  

É  COLUNISTA DO ESTADÃO E ANALISTA DE ASSUNTOS INTERNACIONAIS

 

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