A Arábia Saudita não é amiga dos Estados Unidos

Histórico da "amizade" ao longo das últimas décadas indica direção contrária

COLBERT , I. KING, THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

02 de junho de 2015 | 02h06

Na coluna escrita por meu colega Charles Krauthammer e publicada pelo Washington Post no dia 21, o ex-diretor do serviço saudita de espionagem, príncipe Turki al-Faisal, é citado com aprovação ao se queixar: "Fomos os melhores amigos dos Estados Unidos no mundo árabe por 50 anos". Reparem no pretérito perfeito.

Se minha aritmética estiver correta, isso significa que o início da amizade entre sauditas e americanos celebrada por Turki teria sido em 1965. Mas "melhores amigos"? Como teria dito Oscar Wilde, "amigos de verdade nos esfaqueiam pela frente".

Os Estados Unidos estavam com as costas voltadas em 1973 quando produtores de petróleo liderados pela Arábia Saudita impuseram um embargo contra os americanos em razão do apoio militar do país a Israel na guerra contra Egito e Síria.

Os "melhores amigos" dos Estados Unidos instigaram uma alta acentuada no preço do petróleo, que dobrou e então quadruplicou. Os grandes amigos americanos do Oriente Médio observaram enquanto longas filas se formavam nos postos de gasolina dos Estados Unidos e o custo ao consumidor atingia patamares altíssimos. A monarquia saudita não demonstrou arrependimentos quando a dor infligida à economia americana se fez sentir.

Isso porque, na sua dedicação, os sauditas decidiram ensinar ao "melhor amigo" uma lição: eles poderiam puxar os americanos pela corrente sempre que desejassem.

A Casa Branca de Nixon entendeu o recado. Começou a negociar com os produtores de petróleo controlados pelos sauditas para trazer um fim ao embargo e começou a pressionar Israel a retirar suas forças das Colinas do Golã e do Sinai.

A manipulação dos preços do petróleo foi uma arma útil para os sauditas. George W. Bush sabe disso. Com o petróleo acima da marca de US$ 127 por barril em maio de 2008, Bush, então presidente, apelou à Arábia Saudita para que aumentasse a produção para reduzir o preço. Os sauditas se negaram a fazê-lo. Foi a segunda vez que o fizeram. A primeira havia sido em janeiro, quando Bush fez a mesma solicitação, sem ser atendido.

E o que os "melhores amigos" dos Estados Unidos fizeram nas quatro décadas mais recentes com toda essa fortuna em petrodólares, antes estimada em US$ 116 bilhões anuais, de acordo com reportagem da PBS Frontline? Além de gastar feito loucos com aeroportos, hotéis, estradas, hospitais e escolas - projetos domésticos e de infraestrutura extremamente necessários -, os sauditas deram outros canais para seus bilhões, como as caridades religiosas que financiaram redes de madrassas - escolas religiosas embebidas na seita islâmica do wahabismo, antiocidental, estabelecendo os alicerces para a criação da Al-Qaeda.

Afeganistão. Todos esses bilhões fizeram pouco para eliminar a repressão às mulheres sauditas ou acabar com os ensinamentos incendiários envolvendo os cristãos e judeus. De onde vieram o dinheiro e as armas que ajudaram a criar o Taleban? Isso mesmo, da monarquia saudita.

Na verdade, após o Taleban assumir o controle da capital afegã, Cabul, em setembro de1996, a Arábia Saudita foi um dos três países que estabeleceram relações diplomáticas com o grupo. Esse relacionamento chegou ao fim em setembro de 2001, no entanto, quando os sauditas concluíram que o Taleban não tinha objetivos dignos, atraindo e treinando muçulmanos - entre eles, cidadãos sauditas - "para cometer atos criminosos" contra a lei islâmica.

Durante os 50 anos de grande amizade celebrados por Turki, os sauditas, quando irritados, jamais hesitaram em esnobar publicamente os presidentes americanos. A decisão do rei Salman de ignorar a cúpula árabe organizada pelo presidente Barack Obama em Camp David no início de maio foi apenas a mais recente dessas ausências.

Em 2001, o então príncipe herdeiro Abdullah, que era líder de facto da Arábia Saudita e defensor da Intifada na Palestina, achou que os Estados Unidos não estavam fazendo o bastante para se opor à ação israelense nos territórios palestinos. Assim, quando foi convidado a visitar a Casa Branca para se reunir com Bush, recém-eleito, em maio de 2001, Abdullah preferiu ficar em casa, anunciando: "Queremos que (os Estados Unidos) estudem a própria consciência".

Alguns meses mais tarde, Abdullah mandou uma carta furiosa a Bush alertando que "chega um momento em que povos e países seguem por caminhos diferentes. Estamos numa encruzilhada. É chegado o momento de Estados Unidos e Arábia Saudita cuidarem separadamente dos próprios interesses". Lembra-se disso, príncipe Turki?

Cizânia. Hoje, os sauditas estão numa situação difícil, mas os Estados Unidos não são o motivo. O conflito maior do mundo islâmico, que coloca os governos sunitas da Arábia Saudita e dos países do Golfo Pérsico contra os rivais xiitas no Irã, é obra dos próprios muçulmanos. Os americanos não podem salvá-los de si mesmos.

Ainda assim, houve resultados positivos na chantagem feita pelos sauditas utilizando o petróleo. Isso fez os americanos despertarem para a vulnerabilidade decorrente da dependência no petróleo estrangeiro. Os choques causados pelo "melhor amigo" no preço do recurso obrigaram sucessivos presidentes americanos, começando com Richard Nixon, a dar início a esforços no sentido de melhorar padrões de eficiência de combustível, incrementando as medidas de preservação e dobrando a aposta nas fontes alternativas.

Agora, a produção de energia a partir do xisto leva os Estados Unidos a avançar muitas posições enquanto produtores, tornando o país muito menos dependente em relação ao reino saudita do que em 1973, quando Washington foi apanhada de surpresa.

E qual foi a reação dos "melhores amigos" diante do quadro? Os sauditas têm aumentado a produção de petróleo para fazer os preços caírem, preservando sua fatia do mercado e, com isso, prejudicando o desenvolvimento do petróleo de xisto nos Estados Unidos.

De fato, grandes amigos dos americanos, os sauditas. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

É COLUNISTA E GANHADOR DO PRÊMIO PULITZER

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