A arte do poder inteligente

Estratégia da política externa americana deve envolver um engajamento multilateral para disseminar a democracia, os direitos humanos e combater o terrorismo

É SECRETÁRIA DE ESTADO DOS EUA, HILLARY, CLINTON, NEW STATESMAN , É SECRETÁRIA DE ESTADO DOS EUA, HILLARY, CLINTON, NEW STATESMAN , O Estado de S.Paulo

29 de julho de 2012 | 03h05

Viajei para Pequim em maio, para participar do Diálogo Econômico e Estratégico EUA-China. A pauta estava lotada, mas naqueles dias as atenções estavam voltadas para um dissidente cego do movimento de defesa dos direitos humanos, que buscara refúgio na embaixada americana. De repente, uma viagem já delicada tornou-se um teste enorme para as relações entre EUA e China.

Ao longo do tempo, a ascensão de novas potências deu-se, em geral, em termos de um jogo de soma zero. Portanto, não surpreende que a emergência de países como China, Índia e Brasil tenha levantado interrogações sobre o futuro da ordem global que EUA, Grã-Bretanha e nossos aliados ajudaram a construir e a defender.

Nesse contexto, aqueles breves dias de maio assumiram um significado maior: poderiam EUA e China dar uma nova resposta à velha pergunta sobre o que ocorre quando uma potência estável e uma potência em ascensão se encontram?

Quando fui nomeada secretária de Estado, no início de 2009, faziam-se indagações sobre o futuro da liderança global dos EUA. O país enfrentava duas longas e dispendiosas guerras, uma economia em queda livre, alianças desgastadas e um sistema internacional prestes a ceder sob o peso de novas ameaças. Nos últimos três anos, muita coisa mudou.

Sob o governo do presidente Barack Obama, os EUA encerraram a guerra no Iraque e começaram a transição no Afeganistão. Revitalizamos a diplomacia, fortalecemos alianças e retomamos a colaboração com instituições multilaterais. Embora a recuperação econômica não seja tão vigorosa como todos gostaríamos, nos afastamos da beira do precipício e caminhamos na direção certa.

Hoje, novas potências desempenham um papel maior no cenário mundial. No entanto, não estamos em 1912, quando os atritos entre a Grã-Bretanha, em declínio, e a Alemanha, em ascensão, prepararam o terreno para o conflito global. Estamos em 2012 e os EUA trabalham com novas potências e parceiros para adequar o sistema internacional aos tempos modernos, para evitar um conflito global e promover a prosperidade.

As grandes potências estão em paz e nenhum império totalitário ameaça o mundo, como na 2.ª Guerra e na Guerra Fria. Contudo, enfrentamos desafios diferentes - a crise financeira, a crescente desigualdade, a mudança climática, a proliferação nuclear e o terrorismo - que nenhuma fronteira consegue conter e desafiam as soluções unilaterais.

Ao mesmo tempo, mudanças políticas e tecnológicas permitem que um número gigantesco de pessoas influencie os acontecimentos como jamais se viu antes. E novos participantes, as potências econômicas emergentes e os agentes não estatais, como corporações e cartéis, redesenham a paisagem internacional.

Portanto, a geometria do poder global está se tornando mais difusa, ainda que os desafios sejam mais complexos e multifacetados. Isso significa que a criação de coalizões para uma ação comum tornou-se mais complicada e crucial.

No entanto, em meio a todas essas mudanças permanecem duas constantes. Primeiro, à medida que o mundo se torna mais interconectado e interdependente, faz-se necessária uma ordem internacional justa, aberta e sustentável para promover a paz e a prosperidade. Em segundo lugar, essa ordem depende da liderança diplomática, militar e econômica dos EUA, que há décadas assumiram o compromisso de garantir a paz e a prosperidade.

Hoje, os EUA lideram de uma maneira nova, que se coaduna com o novo tempo. Evidentemente, nas obrigações cotidianas da política externa, nos defrontamos com as crises do momento, mas também priorizamos nossos investimentos no longo prazo em áreas que apresentam as maiores oportunidades e resultados, assim como nas áreas que apresentam as maiores ameaças.

Para os EUA, as alianças históricas que firmamos na Europa e no Leste da Ásia continuam fundamentais para a nossa liderança global. A Grã-Bretanha e outros aliados são os parceiros aos quais recorremos em primeiro lugar nos momentos mais difíceis e com os quais trabalhamos em todas as áreas, desde a tentativa de evitar que o Irã obtenha armas nucleares até a proteção de civis na Líbia e a luta para chegarmos a uma geração livre da aids.

Trabalhamos juntos durante décadas para estabelecer a ordem global e defender seus princípios básicos. O futuro dela depende do vigor da nossa parceria. Entretanto, por mais que nossas alianças sejam firmes, também reconhecemos a necessidade de colaborar com novos parceiros. Isso em razão do rápido surgimento de novos centros de influência - e não apenas Índia e China, mas também Turquia, México, Brasil, Indonésia e África do Sul, bem como a Rússia. Alguns são democracias que compartilham de nossos valores. Outros baseiam-se em sistemas políticos e perspectivas diferentes. Nem sempre é fácil coadunar nossos interesses. Percebemos como isso é difícil na Síria.

Tivemos sucessos ao manter uma pressão sobre Irã e Coreia do Norte. E vimos o valor do envolvimento multilateral, como o G-20, nos quais é possível formular normas e compartilhá-las. Consideramos um teste crucial para nossa diplomacia a colaboração com esses novos atores, encorajando-os a aceitar a responsabilidade que vem da influência e garantindo sua plena integração na ordem internacional.

Um enfoque de soma zero só levará a resultados de soma negativa. Portanto, precisamos encontrar áreas nas quais possamos trabalhar juntos e fortalecer os mecanismos diplomáticos que constroem a confiança e ajudam a administrar nossas diferenças. Nosso objetivo é integrar relações bilaterais cada vez mais amplas em uma vigorosa ordem internacional. Fortalecer e desenvolver instituições regionais e globais eficientes que mobilizem a ação comum e solucionem disputas pacificamente. Construir o consenso em torno de normas que ajudem a administrar as relações entre os povos, os mercados e as nações. E, por fim, estabelecer acordos de segurança que proporcionem estabilidade e permitam construir a confiança.

Para que isso ocorra, precisamos trabalhar com as potências emergentes e renovar a arquitetura global para que ela reflita melhor a dinâmica do mundo. Por exemplo, estamos reunindo novos grupos de nações para tratar de questões específicas, como o Fórum Global sobre Contraterrorismo, que foi lançado em setembro, ou a nova Coalizão do Clima e do Ar Limpo, sobre os poluentes de breve duração que representam 30% do aquecimento global.

Reconhecemos que algumas normas e instituições internacionais criadas no passado precisam ser reformadas. Mas, ao mesmo tempo, é preciso defender certos princípios sobre os quais se baseia a ordem internacional: as liberdades fundamentais e os direitos humanos; um sistema econômico justo, transparente, livre e aberto; a solução pacífica das disputas; e o respeito pela integridade territorial dos países.

O sistema internacional com base nesses princípios contribuiu para alimentar, e não para frustrar, a ascensão de potências emergentes. Essas nações se beneficiaram com a segurança que ele proporciona, com os mercados que ele abre e com a confiança que ele estimula. Assim, elas apostam no sucesso do sistema. À medida que seu vigor e sua capacidade aumentarem, elas procurarão atender às crescentes esperanças do mundo, arcando com uma parcela dos desafios comuns no exterior e do seu povo na solução de seus problemas internos.

Para compreender quão frutífero é o envolvimento das potências emergentes, basta analisar a Cúpula do Leste da Ásia. Nela, líderes de todas as principais nações da região se reuniram para tratar os desafios e buscar soluções, seja a respeito da não proliferação, da resposta aos desastres ou da segurança marítima. Até 2011, os EUA não eram um membro pleno. Mas, em novembro, ingressamos oficialmente e nos comprometemos a ajudar a cúpula a se tornar o principal fórum regional para assuntos políticos e de segurança.

Uma das prioridades da agenda foi o Mar do Sul da China, que permite a comunicação de muitas nações da Ásia-Pacífico, algumas das quais têm reivindicações sobre essas águas e ilhas. A metade da frota mercante mundial utiliza o Mar do Sul da China. Portanto, há muitas coisas em jogo no que se refere à segurança marítima e à liberdade de passagem pelas rotas marítimas.

Tentar solucionar disputas dessa complexidade bilateralmente seria a receita certa para o confronto. Por isso, quando Obama e seus colegas se reuniram na Cúpula do Leste da Ásia, convocaram uma discussão com todos os principais representantes da região num contexto que lhes permitiria apresentar uma solução regional abrangente. O reaparecimento das tensões no Mar do Sul da China só contribuiu para ressaltar a importância da busca da estratégia multilateral.

Nos últimos três anos, a prioridade do governo Obama tem sido se associar a instituições regionais, como a Cúpula do Leste da Ásia, e com elementos regionais cada vez mais eficientes, como a Liga Árabe e a União Africana. Poucos anos atrás, algumas dessas instituições careciam de capacidade e credibilidade. Mas a situação começa a mudar e isso representa uma oportunidade para que as nações se unam e promovam a estabilidade e a segurança regional em pontos inflamáveis do globo, como o Mar do Sul da China e o Chifre da África.

As dificuldades na zona do euro devem nos lembrar de que uma coordenação e integração regional não são um desafio simples. A experiência da Europa, porém, também mostra os benefícios que ela proporciona. Um continente dilacerado por séculos de conflitos conseguiu paz e prosperidade sem precedentes graças à abertura de suas fronteiras, integrando suas economias e coordenando suas políticas. Esse projeto não está completo e, nesses dias difíceis, é essencial continuar trabalhando por uma Europa íntegra, livre, democrática e em paz.

Todas as estratégias para tratar da questão da emergência de novas potências e das demandas de um panorama internacional em mudança refletem uma lição fundamental sobre o que é preciso para liderar e solucionar problemas no mundo de hoje. Não é mais suficiente ser forte. As grandes potências também precisam ser convincentes. O teste da nossa liderança, daqui para frente, será nossa capacidade de mobilizar povos e nações para colaborarem na solução de problemas comuns e na defesa dos valores e das aspirações de que compartilhamos.

Para tanto, temos de aumentar nossos instrumentos de política externa, integrar cada recurso, cada parceiro e mudar a maneira de fazer negócio. Defino esse enfoque como o poder inteligente. Por exemplo, países como China, Índia e Brasil estão ganhando influência não em razão de seus exércitos, mas por causa do crescimento econômico. Aprendemos que nossa segurança, hoje, depende de decisões que não são tomadas apenas em negociações diplomáticas e no campo de batalha, mas também nos mercados financeiros e nas indústrias.

Portanto, os EUA estabeleceram como prioridade a necessidade de controlar de maneira mais eficiente os instrumentos da economia global para defender seus objetivos estratégicos no exterior. Isso exige o uso de alavancas financeiras inovadoras para aumentar a pressão sobre o programa nuclear do Irã ou a constituição de novas parcerias público-privadas que permitam explorar a energia e a experiência corporativa ao tratarmos de desafios como mudança climática e segurança alimentar. Também procuramos impulsionar a economia interna por meio de uma maior ênfase na sua gestão e no que chamo de diplomacia do emprego.

Outro exemplo: uma característica que define nossa era é que as pessoas, principalmente os jovens que se dotaram de novos poderes graças às tecnologias, se tornaram uma força estratégica. Todos os governos, até os regimes autoritários, aprenderam que não podem ignorar as necessidades e as aspirações dos seus cidadãos. Como vimos no Oriente Médio e no Norte da África, isso tem implicações para a estabilidade regional e global.

Portanto, estamos explorando novas maneiras de avançar além das tradicionais relações de governo a governo e de nos envolvermos diretamente com as pessoas ao redor do mundo. Isso significa o uso de tecnologias, como Twitter e SMS, para que seja possível dialogar com todos, sejam eles defensores da sociedade civil na Rússia, camponeses no Quênia ou estudantes da Colômbia. Também significa elaborar uma agenda abrangente para apoiar as transições democráticas em países como Tunísia, Egito e Líbia, e defender os direitos universais de todos os povos. No mundo de hoje, essa é a marca da liderança dos EUA e um imperativo estratégico.

Minha experiência como secretária de Estado consolidou o vínculo entre a defesa da dignidade humana no exterior e a garantia da segurança nacional no meu país. Não é por coincidência que muitos lugares onde vimos a maior instabilidade e os maiores conflitos são os locais onde as mulheres sofrem abusos e seus direitos lhes são negados, onde os jovens são ignorados, as minorias são perseguidas e a sociedade civil sofre restrições. Basta lembrar que o Taleban queimou escolas femininas no Afeganistão ou que o estupro em massa é considerado uma arma na guerra no Congo. Esses abusos não são apenas sintomas da instabilidade, eles fomentam a instabilidade.

Pela mesma razão, também não é por coincidência que muitos dos nossos aliados mais próximos são países que abraçam o pluralismo e a tolerância, a igualdade de direitos e de oportunidades. Esses não são apenas valores ocidentais, mas universais. Portanto, é nosso interesse ajudar os que foram historicamente excluídos de participar plenamente da vida política e econômica de seus países. É nosso interesse apoiar os cidadãos que atuam em nome da mudança democrática, estejam eles em Túnis ou em Rangum.

Particularmente, é crucial dar às mulheres e às jovens em todo o mundo a possibilidade de decidirem por si, para que elas aproveitem as oportunidades na promoção da paz, da democracia e do desenvolvimento sustentado. Sabemos que, quando elas têm a chance de contribuir, são capazes de impulsionar o progresso econômico, político e social, não apenas para si mesmas, mas para sociedades inteiras. Segundo estudo da Goldman Sachs, a redução das barreiras à participação das mulheres no trabalho aumentaria o PIB dos EUA em 9%, o da zona do euro em 13% e o do Japão em 16%. Não podemos ignorar esses dados. Por isso, estabelecemos como marco histórico da política externa do nosso país o aumento das oportunidades para as mulheres.

Lançamos iniciativas ambiciosas para aumentar a participação delas na economia, abrindo acesso ao crédito e a mercados. Tentamos também ampliar o papel da mulher na solução de conflitos e na manutenção da segurança e direcionar os programas de saúde globais para as necessidades das mães, que são o alicerce de toda comunidade.

O fio condutor de todos os nossos esforços é o compromisso de adequar a liderança global dos EUA às necessidades do mundo em transformação. Mas, mesmo que busquemos novas parcerias e novas soluções para os problemas, sempre haverá épocas em que os EUA terão de agir sozinhos, como para capturar Osama Bin Laden. Essas ocasiões serão raras e só recorreremos a elas em caso extremo, mas assumiremos nossas responsabilidades na qualidade de líderes globais e nossas responsabilidades para com o povo americano.

Tudo isso estava presente na minha cabeça ao chegar a Pequim naquele dia de maio. No fim, a relação com a China mostrou-se mais durável e dinâmica do que muitos temiam. Ambos os países se mantiveram focados na nossa pauta comum e envolvidos numa ampla gama de questões cruciais, da cibersegurança à Coreia do Norte e ao Mar do Sul da China. Hoje, aquele dissidente cego estuda Direito em Nova York.

Os EUA e os nossos aliados viveram dez longos anos de guerras, terrorismo e recessão. Os dias atuais continuam sendo difíceis. Mas, nas minhas viagens pelo mundo, tenho visto que a nossa liderança ainda é respeitada e exigida. Indubitavelmente, por causa do nosso poderio militar e material, mas também pelo nosso compromisso com a lealdade, a justiça, a liberdade e a democracia.

Não existe nenhum precedente na história do papel que desempenhamos ou da responsabilidade que assumimos. E não há nenhuma alternativa. É isso que torna a liderança dos EUA tão excepcional e é por isso que tenho fé que continuaremos a servir e a defender uma ordem global pacífica e próspera em um futuro muito distante. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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