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Issa Goraieb
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A arte segundo o Hezbollah

Tão minúsculo e, contudo, tão tragicamente fragmentado. Como se não bastassem os conflitos religiosos para perverter e envenenar a vida pública no Líbano, as convulsões enfrentadas atualmente pelos países do Oriente Médio aprofundaram os fossos que dividem internamente esse território de meros 10.502 quilômetros quadrados.

ISSA GORAIEB, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2014 | 02h01

No Líbano, aliás, as pessoas são, frequentemente, a favor ou contra o Ocidente e sua influência, a favor da Arábia Saudita ou, pelo contrário, do Irã, a favor ou contra o regime de Bashar Assad em Damasco, às voltas com uma rebelião generalizada, e chegam a demonstrar isso da maneira mais direta, fornecendo ajuda, no terreno, a um ou outro protagonista do conflito sangrento na Síria.

Mesmo o futuro dos 26 soldados e policiais libaneses que são mantidos como reféns há quatro meses pelos terroristas do grupo fundamentalista sunita Estado Islâmico (EI) está sujeito a uma vida polêmica entre as forças políticas libanesas que assediam o governo do país - e divergem até sobre o princípio de uma troca de prisioneiros com os sequestradores extremistas.

Sem alternativa. A cultura nacional libanesa teria alguma chance de escapar de tamanha desunião no país? Infelizmente, não, como vêm lembrar os recentíssimos desaparecimentos, ocorridos com intervalo de poucas horas, desses dois verdadeiros ícones nacionais que eram a cantora e atriz Sabah e o poeta Said Akl.

Cobertos de homenagens póstumas por uma parte dos libaneses, esses dois personagens extraordinários somente tiveram direito à indiferença - e até mesmo ao desprezo, por outra parte.

Foi particularmente visível a cisão em torno do desaparecimento, aos 102 anos, de Said Akl. Esse nativo da cidade de Zahlé, onde foi enterrado com grande pompa, era incontestavelmente o mais ilustre dos poetas libaneses contemporâneos. O artista se sobressaía tanto na poesia improvisada e declamada em linguagem popular (zajal, em árabe) quanto na poesia clássica - e seu renome se estendia aos quatro cantos do mundo árabe.

Já o ideólogo Said Akl era vivamente controvertido. Nacionalista ferrenho, ele negava a pertinência árabe do Líbano, ao qual só admitia, de fato, as origens fenícias do país. Ele até preconizava o abandono dos caracteres árabes no idioma libanês escrito, em favor dos caracteres da escrita latina.

Said Akl chegou a aplaudir publicamente a invasão israelense ao território libanês de 1982 no sentido de que a operação de Israel poderia vir a livrar o Líbano do Estado dentro do Estado que ali havia instalado o palestino Yasser Arafat.

Visões assim extremadas não eram raras durante a guerra civil libanesa (1975-1990), que deu livre curso para todo tipo de paixões. Apesar da passagem dos anos, elas não foram totalmente esquecidas.

Agora, embora o percurso desse poeta, um latinista e professor de matemática apaixonado por teologia, tenha sido objeto, ao longo da última semana, de numerosos artigos publicados e programas de televisão, o desaparecimento de Said Akl foi completamente ignorado pelos meios de comunicação ligados ao Hezbollah que, apoiado pelo Irã, trava uma guerra eterna contra Israel.

Rusgas. Não é somente a política no Líbano, porém, que serve de pretexto para a negação do mérito artístico. Nascida Jeannette Feghali numa família modesta da aldeia montanhosa de Bdédun, Sabah ("manhã", em árabe) era, com a egípcia Om Kalsum e a libanesa Fairuz, uma das divas mais cultuadas da música árabe.

Sabah possuía cerca de 3 mil sucessos em seu currículo e seu repertório ia do lamento popular (mawal) à opereta, passando pela canção leve. Ela participou de mais de 80 produções do cinema egípcio.

Quando tornou-se septuagenária, depois de muitas plásticas, pesadamente maquiada e usando trajes de contos de fada, ela continuava subindo nos palcos e aparecendo na televisão, no equivalente local do programa Star Academy.

Sabah encarnava a generosidade. Ganhou muito dinheiro e o gastou sem contar, cercando de atenções seus amigos e ajudando desvalidos. Terminou seus dias quase sem um centavo, sem casa, alojada num hotel de terceira classe.

Perseverança. Mesmo assim, Sabah continuou encarnando a alegria de viver. Tanto que exigiu, em seu testamento, que seu enterro fosse uma festa. E assim foi feito: suas canções entoadas por uma enorme multidão de fãs, fanfarras e fogos de artifício a acompanharam em sua última viagem.

Sabah, que foi casada oito vezes e, até o fim, colecionou aventuras sentimentais, teria sido, à sua maneira, uma pioneira da libertação da mulher árabe. Por motivos como esse, sua morte, aos 87 anos, foi ostensivamente ignorada pelos meios conservadores e puritanos.

À sua frente, de novo, o Hezbollah, cujos veículos de mídia travam uma campanha incansável por um modelo de sociedade militante, resistente, refratária ao que o movimento qualifica de decadência ocidental. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É JORNALISTA DO JORNAL

'L'ORIENT-LE JOUR', DE BEIRUTE, E COLUNISTA DO 'ESTADO'

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