T. Mughal / EFE
T. Mughal / EFE

A ascensão, a queda e a nova ascensão de Imran Khan, o novo líder do Paquistão

Ex-atleta está perto de ser primeiro-ministro com apoio do Exército, críticas aos EUA, e enormes desafios para tentar consertar os problemas no país

Jeffrey Gettleman / The New York Timnes, O Estado de S.Paulo

27 Julho 2018 | 20h02

LAHORE, Paquistão – Imran Khan, o astro carismático de críquete que tem criticado ferozmente a política de contraterrorismo dos Estados Unidos numa região atormentada pelo extremismo, parece destinado a se tornar o próximo primeiro ministro do Paquistão. Resultados preliminares mostram seu partido bem à frente em uma eleição que os críticos afirmam ter sido extremamente manchada. Khan dirigiu-se à nação pela TV explicando o que pretende fazer como primeiro ministro.

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Afirmou que vai combater a corrupção nos altos escalões, melhorar as relações com a China, buscar um relacionamento que seja “mutuamente benéfico” com os Estados Unidos e criar um Estado social como fez o profeta Maomé séculos atrás. “Vamos governar o Paquistão de uma maneira jamais vista antes” disse ele. E disse também que jamais viverá na mansão do primeiro ministro. Em um país de tantos pobres, “seria embaraçoso” viver numa casa como essa, afirmou.

Há anos Khan tenta, mas sem conseguir, assumir as rédeas desta república islâmica que possui armas nucleares, mas luta com a pobreza, a estagnação econômica e a instabilidade e está cada vez mais dividida entre seus dois maiores aliados: a China e os Estados Unidos. Mas desta vez Khan encontrou um poderoso aliado no Exército paquistanês.

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Segundo grupos de direitos humanos, nos últimos meses oficiais da inteligência e do Exército pressionaram, ameaçaram e chantagearam políticos de partidos rivais, diluindo os concorrentes de Khan. A ascensão de Khan introduz um elemento de volatilidade nas relações com os Estados Unidos sob o governo do presidente Donald Trump, que acusou o Paquistão de mentir sobre o Taleban, a Al-Qaeda e outros militantes instalados no Paquistão e Afeganistão.

Khan rejeitou a afirmação e acusou os Estados Unidos de imprudência e assassinato ao realizar ataques com drones contra extremistas suspeitos no seu país, afirmando que pretende pôr um fim nisto. Amigos e inimigos descrevem Khan, 65 anos, como uma pessoa implacável, fascinante, presunçosa e muito imprevisível.

Quando jovem, sua bela aparência, suas proezas no críquete e o sucesso com as mulheres despertaram fascínio na Inglaterra onde ele viveu durante algum tempo. Em 1982, ele posou para um jornal londrino reclinado sobre uma cama, apenas de cueca.

Uma transformação complexa e misteriosa teve início logo depois. Em 1992, Khan foi capitão da equipe de críquete do Paquistão que venceu a Inglaterra numa Copa do Mundo. Este foi um momento de enorme orgulho para os paquistaneses e Khan estava no centro dele. Ele então começou a se afastar dos clubes, das festas e das namoradas. E iniciou uma cruzada para construir um hospital do câncer para os pobres; sua mãe morreu em conseqüência de um câncer e os dois eram muito próximos. 

Ele se voltou para o islamismo e a seita Sufi, que, disse, o ajudaram a encontrar um sentido para sua vida. Mais tarde, ingressou na política. O Paquistão no final dos anos 1990 estava um caos: seus maquiavélicos serviços de espionagem estavam trabalhando com os Estados Unidos e ao mesmo tempo apoiando o Taleban e Osama Bin Laden. E o país empobrecido, agitado e dividido, como ainda está hoje.

“O principal problema do Paquistão não é o extremismo”, afirmou ele em uma entrevista para o The New York Times. “Somos um fracasso em termos de governança. E em qualquer país do Terceiro Mundo no momento em que a governança entra em colapso aparecem as máfias Ele se fixou no problema da corrupção, afirmando repetidamente que algumas dinastias políticas se enriqueceram vergonhosamente enquanto o governo enfraquecia e o país se tornava cada vez mais pobre.

Mas seus brados por reformas não foram levados a sério no começo. O seu partido Movimento pela Justiça que fundou em 1996 conquistou no início somente um assento no Parlamento - e ele foi ridicularizado por um jornal paquistanês. 

Sua vida pessoal também teve altos e baixos, atraindo sempre uma enorme atenção, especialmente depois que se casou com a herdeira britânica milionária Jemima Goldsmith. Ela se converteu ao islamismo, eles tiveram dois filhos e tentaram viver no Paquistão. Mas o casamento não durou muito e o casal se separou. Khan casou-se duas vezes mais, a última vez com sua guia espiritual, o que também causou estranheza em todo o Paquistão.

Mas Khan é um especialista em não permitir que revistas de fofocas o distraiam e continuou seu combate à corrupção. E há dois anos recebeu um presente do Panama Papers. Esses arquivos, com uma avalanche de milhões de documentos confidenciais vazados de um escritório de advocacia no Panamá, incluíam muitas informações incriminando o primeiro ministro do Paquistão na época, Nawaz Sharif. Provas começaram a surgir de que Sharif havia roubado milhões de dólares dos cofres públicos no Paquistão para comprar apartamentos caríssimos em Londres, no nome de seus filhos.

Khan pediu a renúncia do primeiro ministro. A Suprema Corte do país destituiu Sharif e há duas semanas, pouco antes da eleição, ele e sua filha foram presos. Poucas pessoas discordam do fato de que a corrupção é descontrolada no Paquistão. Mas muitos observadores acham que a queda de Sharif foi mais seletiva, possivelmente mais sinistra.

A suspeita generalizada é de que os poderosos serviços de inteligência e o Exército pressionaram o Judiciário para destituir Sharif, abrindo caminho para Khan assumir o poder. Sharif entrou muitas vezes em choque com os comandantes militares, mesmo com aqueles que ele havia escolhido. 

Khan, por seu lado, era uma pessoa com a qual os militares acreditavam que poderiam trabalhar. Segundo analistas, ele compartilha da sua visão de mundo em que o Paquistão seria menos servil aos Estados Unidos e de um diálogo maior com o Taleban e outros grupos extremistas.





 

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