A ascensão do Donald Trump das Filipinas

Rodrigo Duterte canalizou o voto de protesto, venceu a eleição presidencial e vai comandar um país pobre com uma democracia frágil

Ramon Casiple, Global Viewpoint

14 Maio 2016 | 10h23

No dia 9 de maio, os filipinos elegeram seu 16.º presidente. Com quase 90% dos votos contados de maneira não oficial, Rodrigo Duterte Jr., prefeito da cidade de Davao, no sul do país, teve 38% da preferência popular, 15 pontos porcentuais a mais do que o segundo mais votado.

Duterte presidirá o destino do país por seis anos. Com uma frágil democracia marcada por um fraco sistema partidário, a estabilidade política das Filipinas precisa confiar na força e na popularidade do presidente. A ele caberá fundamentalmente formular as estratégias políticas.

Na qualidade de principal executivo, ele desfrutará de amplos poderes, e será o novo comandante-chefe das Forças Armadas, encarregado de fazer frente a duas rebeliões internas em curso e a grupos terroristas cujo objetivo é acabar com a ordem democrática vigente.

Na economia, ele precisa garantir a continuação do crescimento e distribuir a riqueza para o povo, especialmente entre 25% da população que vive abaixo da linha da pobreza.

O presidente terá de encarar outros desafios, como as mudanças climáticas; a queda vertiginosa dos preços do petróleo; os riscos enfrentados pelos trabalhadores filipinos no exterior, particularmente os que se encontram no Oriente Médio, e a persistente crise financeira global. Por fim, as incursões da China no Mar das Filipinas Ocidentais.

Duterte tem sido comparado a Donald Trump por falar alto e rápido, por suas piadas grosseiras, suas posições por vezes chocantes e a tendência a preferir atalhos legais. Ele é um líder que se tornou bem quisto pelos habitantes de Davao por suas iniciativas práticas em favor da paz e da ordem. Ele teria limpado a cidade da criminalidade depois do assassinato misterioso e controvertido de mais de mil delinquentes. Se eleito, prometeu fazer o mesmo no país em seis meses.

Duterte se candidatou confiando nas próprias credenciais de prefeito de uma das cidades mais progressistas do sul do país e levou para a disputa a reputação conquistada no combate ao crime e as reivindicações da cidade de Mindanao, rica em recursos, mas pobre em comparação com a capital Manila.

Entre os candidatos por ele derrotados estava a senadora Grace Poe, filha adotiva de Fernando Poe, talvez o ator mais famoso do cinema filipino, que morreu depois de perder a controvertida eleição presidencial de 2004.

Nas eleições deste ano, muitos eleitores decidiram que não podiam mais suportar tudo isto. A maioria votou pela mudança – tanto Duterte, mais radical, quanto Poe representavam esta possibilidade de virada. Entretanto, foi Duterte quem levou o voto de protesto. Ele começou a se distanciar dos outros nas últimas semanas de abril e a imprensa passou a chamá-lo de “Fenômeno Duterte”.

Sua preferência pela linguagem obscena e sua atitude de falastrão quase acabaram com sua campanha. Um vídeo em que aparece contando uma piada sobre uma australiana que foi brutalmente estuprada e assassinada em 1980 tornou-se viral. As críticas que se seguiram por parte dos seus adversários, ativistas dos direitos humanos e embaixadores da Austrália e dos EUA o colocaram na defensiva. Sua idoneidade para a presidência foi repentinamente posta em dúvida por muitos eleitores.

Percebendo sua fraqueza, os adversários voltaram a atacá-lo acusando-o de ocultar sua riqueza e de comportamento psicótico. Duterte repudiou tudo isso, mas acabou declarando-se arrependido. Evidentemente, a elite política achará difícil aceitar uma personalidade de fora – na verdade, um anti herói local – e deverá contra-atacar com novos desafios ao seu governo. Entretanto, para melhor ou para pior, ele recebeu dos eleitores a tarefa histórica de definir uma nação filipina ainda em transição. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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