A ascensão do popularismo

No dia em que um líder recrutar seu povo pela verdade, em vez de um público virtual, terá amigos e seguidores reais

THOMAS L. FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2012 | 03h04

Durante minha viagem pela Europa na semana passada, tive a impressão de que boa parte dos diálogos terminava com alguma forma de enunciação da seguinte pergunta: por que temos a sensação de que é cada vez menor o número de líderes capazes de inspirar seu povo a enfrentar os desafios de nossa época? Há muitas explicações para esse déficit mundial de liderança, mas prefiro me concentrar em duas: uma tem a ver com a questão da gerações e a outra, com a tecnologia.

Vamos começar pela tecnologia. Em 1965, o cofundador da Intel, Gordon Moore, apresentou a ideia da Lei de Moore, segundo a qual o poder de processamento que poderia ser colocado num único microchip dobraria de capacidade a cada 18 ou 24 meses. Desde então, o princípio tem se mostrado sólido. Ao observar os líderes da Europa, do mundo árabe e dos EUA lutando para administrar suas crises, começo a me perguntar se não haveria uma correspondente política à Lei de Moore: a qualidade da liderança política diminui a cada 100 milhões de novos usuários do Facebook e do Twitter.

A interligação do mundo por meio das mídias sociais e dos celulares com acesso à internet está mudando a natureza do diálogo entre líderes e liderados em toda parte. Estamos passando de conversas que costumavam ser de mão única - de cima para baixo - para conversas predominantemente de mão dupla - de baixo para cima e de cima para baixo. Isto traz muitas vantagens: uma maior participação, mais inovação e transparência. Mas será que podemos chegar ao ponto de um excesso de participação - líderes que dão ouvidos a tantas vozes ao mesmo tempo e acompanham tantas tendências a ponto de se tornarem prisioneiros delas? Esta frase estava num artigo publicado no Politico: "As campanhas de Obama e Romney passam o dia todo se atacando no Twitter, denunciando enquanto isso a ausência de propostas sérias para um momento de seriedade. Mas, na maioria das vezes em que tiveram de abordar temas grandiosos, preferiram se apequenar".

Na semana passada, ouvi em Londres um termo novo: "popularismo". Trata-se da ideologia suprema de nossos dias. Acompanhe as pesquisas, leia os blogs, contabilize os canais do Twitter e postagens do Facebook e vá precisamente aonde as pessoas estão, e não aonde acha que elas deveriam ir. Se todos estão "seguindo", quem está liderando? E temos também o fator da exposição. Qualquer pessoa armada com um celular é hoje um paparazzo; qualquer dono de uma conta no Twitter é um repórter; todos aqueles que acessam o YouTube são cineastas. Quando todos são paparazzi, repórteres e cineastas, todos os demais se tornam figuras públicas. E, para aqueles que são figuras públicas - os políticos, por exemplo -, o escrutínio pode se tornar tão desagradável a ponto de transformar a vida pública em algo que deve ser evitado a todo custo.

Praticamente todos os líderes de hoje precisam pedir aos seus povos que compartilhem os fardos, e não apenas os benefícios, e também que estudem e trabalhem com mais afinco simplesmente para acompanhar o ritmo. Isso exige uma liderança extraordinária que precisa começar a contar a verdade às pessoas.

Dov Seidman, autor do livro How e dono da LRN, empresa que orienta os diretores executivos nas questões de liderança, há muito defende que "nada inspira mais as pessoas do que a verdade". A maioria dos líderes acredita que dizer a verdade torna vulnerável sua posição de liderança - seja em relação ao público ou aos adversários. Eles estão enganados.

"O mais importante em dizer a verdade é o fato de isso ligar o líder às pessoas", explica Seidman. "Afinal, quando confiamos a verdade às pessoas, elas devolvem esta confiança." Não é isso que estamos vendo hoje nos líderes dos EUA, do mundo árabe e da Europa. Seria de se imaginar que ao menos um deles aproveitasse a oportunidade de recrutar seu povo pela verdade: a respeito de onde estão, do que são capazes de fazer, do plano que precisam para chegar lá e da contribuição que cada um precisa fazer para embarcar neste caminho melhor. Em vez de um público virtual, o líder que fizer isso terá "amigos" e "seguidores" de verdade. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

* É COLUNISTA, GANHADOR DO PULITZER

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