A ascensão do 'putinismo'

Vários governos vêm adotando elementos como nacionalismo e conservadorismo social

Fareed Zakaria, The Washington Post

02 de agosto de 2014 | 02h02

Quando a Guerra Fria terminou, a Hungria ocupou um lugar especial na história das revoluções de 1989. Ela foi a primeira nação da órbita soviética a abandonar o comunismo e abraçar a democracia liberal. Hoje ela é novamente uma precursora, tornando-se a primeira nação europeia a denunciar e se distanciar da democracia liberal. Ela está adotando um novo sistema e conjunto de valores que são mais bem exemplificados pela Rússia de Vladimir Putin, mas estão encontrando eco também em outros países.

Em um importante discurso no fim de semana passado, o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban, explicou que seu país está determinado a construir um novo modelo político - uma democracia iliberal. Isso chamou minha atenção porque, em 1997, escrevei um ensaio para Foreign Affairs usando a mesma expressão para descrever uma tendência perigosa.

Governos democráticos, em geral populares, estavam usando seus mandatos para solapar direitos individuais, a separação de poderes e o estado de direito. Mas eu não imaginava que um líder nacional - ainda mais da Europa - usaria o termo como um emblema.

"O assunto mais popular do pensamento atual é tentar compreender como sistemas que não são ocidentais, nem liberais, nem democracias liberais e, talvez, nem sequer democracias, podem mesmo assim garantir o êxito de suas nações", disse Orban. Para ele, o mundo mudou fundamentalmente em 2008 com o que ele chama de "o grande colapso financeiro ocidental".

Desde então, argumenta, o poder americano vem declinando e os valores liberais de hoje incorporam "corrupção, sexo e violência". A Europa ocidental tornou-se uma terra de "aproveitadores vivendo à custa de sistemas de bem-estar social". Os modelos iliberais do futuro, ele explica, são Rússia, Turquia, China, Cingapura e Índia.

Deixando de lado essa lista bizarra (Índia?), as ações de Orban nos últimos anos demonstram que seu modelo tem sido a Rússia de Putin. Orban decretou e adotou na Hungria uma versão do que pode ser melhor descrito como "putinismo". Para compreendê-lo, precisamos voltar a seu fundador.

Quando chegou ao poder em 2000, Putin parecia um gestor duro, astuto e competente, alguém determinado a trazer estabilidade para a Rússia - que cambaleava em meio a um caos interno, a estagnação econômica e calote da dívida em 1998. Ele procurou integrar a Rússia no mundo e procurou manter boas relações com o Ocidente, tendo pedido a Washington para a Rússia ingressar na Organização Mundial do Comércio e mesmo na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Seu governo incluía tecnocratas que eram liberais ocidentais, versados em livre mercado e comércio aberto.

Mas, com o tempo, Putin estabeleceu a ordem no país e presidiu uma economia em forte expansão enquanto os preços do petróleo quadruplicavam sob sua vigilância. Ele começou a criar um sistema repressivo de controle político, econômico e social para conservar o poder. Ao enfrentar a oposição, particularmente nas eleições parlamentares de 2011, Putin reconheceu que precisava de mais do que força bruta pura para derrotar seus adversários. Ele precisava de uma ideologia de poder e começou a articular uma, sancionando leis e usando seu cargo para conferir aderência a um conjunto de valores.

Hostilidade. Os elementos cruciais do putinismo são nacionalismo, religião, conservadorismo social, capitalismo de Estado e dominação da mídia pelo governo. Eles são de uma maneira ou de outra diferentes e hostis aos valores ocidentais modernos de direitos individuais, tolerância, cosmopolitismo e internacionalismo. Seria um erro acreditar que criaram sua popularidade - ele já era popular antes -, mas eles a sustentam.

Orban seguiu as pegadas de Putin, minando a independência do Judiciário, limitando direitos individuais, falando em termos nacionalistas sobre húngaros étnicos e amordaçando a imprensa. Os métodos de controle são geralmente mais sofisticados do que a censura tradicional. A Hungria anunciou recentemente um imposto de 40% sobre as receitas da única grande rede de televisão independente do país, o que poderá resultar na sua falência.

Correndo o olhar pelo mundo notam-se outros que adotaram elementos centrais do putinismo. O premiê turco, Recep Tayyip Erdogan, afastou-se de sua agenda reformista para uma socialmente mais conservadora, islamista e fortemente nacionalista. Ele também usou truques para levar a mídia à subserviência. Muitos líderes de extrema direita da Europa - Marine Le Pen na França, Geert Wilders na Holanda e mesmo Nigel Farage na Grã-Bretanha - são francos admiradores de Putin e do que ele defende.

O sucesso do putinismo dependerá em muito do sucesso de Putin e da Rússia sob o seu comando. Se triunfar na Ucrânia, transformando-a num país mutilado que acabará mendigando em Moscou, ele parecerá um vencedor. Se, ao contrário, a Ucrânia obtiver sucesso fora da órbita da Rússia, Putin poderá se ver presidindo um petro-Estado siberiano globalmente isolado. / Tradução de Celso Paciornik 

*É jornalista e escritor

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