A Ásia no Oriente Médio

Desafios formidáveis excederam a capacidade imperial dos EUA

Sholomo Ben Ami - Project Syndicate*, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2013 | 02h11

Em 2010, a então secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, anunciou a guinada para o Leste na estratégia global de Washington. A virada dos EUA para a região da Ásia-Pacífico era necessária não só pelas ameaças de segurança representadas pela ascensão da China, mas também como consequência da antiga e dispendiosa obsessão com o Oriente Médio - no outro extremo do continente asiático.

Durante muito tempo, o Oriente Médio impôs desafios formidáveis que, ultimamente, excederam as capacidades imperiais dos EUA. No entanto, a questão real agora é se os EUA estarão capacitados e dispostos a defender suas pretensões globais. Afinal, a Ásia não é um cenário menos exigente do que o Oriente Médio. Aliás, lidar com ela poderá exigir dos EUA conciliar a atuação em duas frentes.

Numa região cheia de disputas territoriais e antigas rivalidades tão ácidas, como o conflito árabe-israelense, os EUA deparam-se com um ambiente geopolítico sem nenhuma arquitetura de segurança e nenhum mecanismo de solução de conflitos. A divisão da Península Coreana, o conflito entre Índia e Paquistão sobre a Caxemira e a questão de Taiwan (que, a partir de 2020, os EUA não terão mais capacidade de defender de um ataque chinês, segundo estudo de 2009 da Rand Corporation) parecem tão intratáveis quanto o conflito israelense-palestino.

Além disso, como o Oriente Médio, o restante da Ásia registra uma corrida armamentista desenfreada que inclui tanto armas convencionais quanto de armas de destruição em massa. Quatro das dez maiores forças militares do planeta estão na Ásia e cinco países asiáticos são potências nucleares estabelecidas.

O Oriente Médio não tem o monopólio do extremismo islâmico, tensão étnica ou terrorismo. Os uigures muçulmanos da China, o conflito hindu-muçulmano na Índia, a limpeza étnica dos rohingya em Mianmar, a insurgência secessionista muçulmana nas Filipinas e o separatismo étnico no sul da Tailândia salientam a tapeçaria complexa de questões não resolvidas no Extremo Oriente.

Além disso, a guinada asiática dos EUA está ocorrendo num momento em que sua credibilidade internacional tem sido fortemente corroída pelo desacerto de sua política doméstica e o desempenho decepcionante no Oriente Médio. O empenho do Japão em restabelecer sua própria capacidade militar é um voto de confiança limitada em seu aliado americano.

A recente hesitação de Barack Obama em agir na Síria deixou muitos na Ásia em dúvida sobre se podem confiar nos EUA não só caso a China afirme pela força suas pretensões marítimas, mas também caso a Coreia do Norte cumpra suas ameaças de atacar o Sul.

De qualquer modo, uma retirada americana do Oriente Médio não é uma receita para conter a ascensão da China no Leste Asiático, já que essas áreas estão cada vez mais interligadas. Enquanto os EUA estão fazendo sua virada para o Extremo Oriente, deixando antigos aliados, como Arábia Saudita e Egito, profundamente ressentidos, a China está fazendo sua virada para o Oeste.

As exportações da China para o Oriente Médio já são mais que o dobro das exportações dos EUA para a região. Suas exportações anuais para a Turquia chegam a US$ 23 bilhões e incluem suprimentos militares, como um sistema de defesa antimísseis que não é compatível com os dos aliados da Turquia na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Se a entrada da China no Oriente Médio persistir no ritmo atual, ela poderá obstruir o fluxo de recursos energéticos para aliados asiáticos dos EUA.

Numa disputa global, competidores de uma superpotência costumam explorar as fraquezas dela. A crise financeira de 2008, que destruiu a mística da proeza econômica do Ocidente, acarretou uma acentuada mudança na estratégia global da China. Os chineses começaram a brincar com a ideia de abandonar sua "ascensão pacífica" em favor do que Hu Jintao, então presidente, definiu, numa conferência de diplomatas chineses, em 2009, como "democratização das relações internacionais" e "multipolaridade global".

Os EUA, como poder hegemônico no Oriente Médio durante muitos anos, não podem resolver nenhum dos principais problemas da região sozinhos. Para sua virada para a Ásia ser crível, eles terão de concordar em ser uma das várias grandes potências na Ásia, uma parceria em igualdade de condições com China, Japão e Índia na configuração do ambiente estratégico da região.

 

(Tradução de Celso Paciornik)

 

* É ex-chanceler israelense

 

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