A Ásia precisa estar no clube

Se os países asiáticos não forem incluídos nas instituições internacionais, criarão suas próprias

Fareed Zakaria, The Washington Post,

27 de abril de 2014 | 02h02

A política externa chama a atenção quando se trata de administrar uma crise. Uma revolta de rua eclode no Egito, na Líbia ou na Ucrânia e todo o mundo pergunta como o presidente dos EUA deveria responder. Esse é um elemento importante do papel dos americanos no mundo, mas é essencialmente reativo e tático. O desafio maior é criar uma estratégia de longo prazo que sobreviva às crises do momento.

Barack Obama tentou fazer isso com sua política para a Ásia - e sua viagem à região esta semana faz parte disso. Mas o progresso tem sido hesitante e incompleto.

Entretanto, a despeito de todos os seus problemas, a verdadeira ameaça a uma estratégia séria para a Ásia não vem do governo, mas do Congresso e da opinião pública dos EUA. Aliás, as dificuldades na execução do "pivô" trazem a maior questão: será que os americanos têm hoje uma grande estratégia?

A atitude de Obama é sábia e, de muitas maneiras, uma continuação da política externa americana desde a presidência de Bill Clinton. Na linha de frente diplomática, ela se apoia em dois elementos - dissuasão e engajamento. Todos os países da Ásia - e também os EUA - procuram criar laços econômicos mais fortes e mais profundos com a China e querem garantir que o país não se transforme num agressor regional expansionista. Conseguir o equilíbrio entre os elementos dessa política é difícil de fazer e fácil de criticar. O governo Obama tem manejado isso com habilidade, mantendo um relacionamento estreito com a China sem deixar de estabelecer marcadores claros para deter uma expansão territorial chinesa.

É justo dizer que Obama não deu suficiente atenção e energia para sua própria estratégia. Duas viagens à região foram canceladas. Ele não visita a China desde seu primeiro ano no cargo. Sua equipe do segundo mandato está visivelmente carente de especialistas em Ásia. Isto é um erro. O sucesso na Ásia poderia ser a realização mais substancial no tempo que lhe resta na presidência.

Acordo. Há, porém, um importante aspecto construtivo na política para a Ásia. No centro dela está a Parceria Trans-Pacífico (TPP, na sigla em inglês), que seria não só o maior acordo comercial em décadas - envolvendo a maioria das grandes potências da Ásia e, talvez, eventualmente, a China -, mas reforçaria as normas ao estilo americano sobre um comércio mundial livre e aberto. O presidente, porém, ainda não conseguiu a "autorização rápida" para negociar qualquer acordo comercial.

O Partido Democrata, que já foi o maior defensor do livre-comércio, há muito virou as costas para ele. Nos últimos anos, o apoio republicano ao comércio também se enfraqueceu. O resultado é que a TPP está em perigo. A estratégia militar dos EUA na Ásia exigirá orçamentos significativos que estão sob pressão de ambos os partidos. O apoio público a qualquer tipo de política externa generosa e ambiciosa é muito baixo.

O obstáculo mais preocupante para uma estratégia americana séria poderia parecer uma questão altamente técnica. O governo propôs uma reforma do FMI, que os republicanos do Congresso estão bloqueando. Mas reformar essa instituição é fundamental para o futuro papel global dos EUA. O conselho diretor do FMI é dominado por americanos e europeus.

Agora que países asiáticos se tornaram uma parte maior da economia global, Obama propôs ampliar seus votos, o que tiraria poder principalmente da Europa, mas não dos EUA. No entanto, os republicanos barraram esse plano por três anos e não mostram sinais de que estão dispostos a aprová-lo.

A questão uniu países asiáticos que veem aí um sinal de que o Ocidente jamais lhes permitirá exercer poder real nas instituições globais. Eles têm razão. Após a 2ª Guerra, os EUA enfrentaram o comunismo, mas também construíram uma ordem mundial estável com a criação de instituições que estabeleceram regras e normas globais e dividiram o poder - da própria ONU ao FMI e ao Banco Mundial.

A tarefa urgente é expandir essas instituições para incluir as potências ascendentes da Ásia. Se Washington não fizer isso, fortalecerá vozes, especialmente na China, que dizem que o país não deve tentar se integrar à estrutura ocidental de regras internacionais - porque será sempre um membro de segunda classe - e deve antes esperar o momento certo, criar as próprias instituições e jogar segundo as próprias regras. Quando isso ocorrer, todos lamentaremos não ter deixado esses países entrarem no clube quando tivemos a chance. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

* É COLUNISTA

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