A audácia de Karzai

Os EUA transformaram o líder afegão no "aliado" insolente e interesseiro que ele se tornou

FOUAD, AJAMI, BLOOMBERG NEWS, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2013 | 02h01

"Queremos que os americanos respeitem nossa soberania e sejam um parceiro honesto. E tragam muito dinheiro." Assim declarou o presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, durante reunião de líderes tribais afegãos loya jirga (ou Grande Conselho). É preciso admitir: nenhum regime já mostrou tão pública desconsideração a seu protetor. Em seus envolvimentos no chamado Terceiro Mundo, os Estados Unidos tiveram o infortúnio de conviver com governantes pouco palatáveis - Fulgêncio Batista, de Cuba, Anastasio Somoza, da Nicarágua, Ngo Dinh Diem, do Vietnã do Sul, Ferdinand Marcos, das Filipinas, e assim por diante.

Durante a Guerra Fria, os EUA ficaram num impasse: era o comunismo ou esses ditadores. Nenhum deles, ouso dizer, falou com tão aberto desprezo dos líderes americanos como fez Karzai.

Se a expedição ao Hindu Kush pretendia ensinar aos afegãos as graças redentoras da democracia, tem sido o orgulho de Karzai ensinar aos americanos os modos nas montanhas afegãs. Eis o que disse Karzai, em 2009, sobre a gorjeta que os iranianos deram a seu regime: "Eles nos dão malas de dinheiro. Somos gratos aos iranianos por isso."

Minha declaração preferida de Karzai foi feita durante uma loya jirga em novembro de 2011. "O leão não gosta se um forasteiro se intromete em sua casa. O leão não gosta se um estrangeiro entra em sua casa. O leão não quer que seus filhos sejam roubados por alguém durante a noite. O leão não deixará que isso aconteça. Eles não deveriam interferir na casa do leão: tratem de guardar os quatro lados da floresta." Esse leão afegão é uma fera peculiar. Ele depende de outras criaturas para matar suas vítimas.

Os EUA transformaram Karzai no "aliado" insolente que ele se tornou. Fizeram aumentar o aluguel das estratégicas montanhas afegãs. Dois presidentes americanos declararam inúmeras vezes a importância do Afeganistão para a "guerra ao terror", primeiro George W. Bush, depois Barack Obama. Este último aumentou a aposta. Ele declarou que a guerra afegã era a boa e necessária, a guerra quintessencial do 11 de Setembro, e fez dessa guerra uma parte fundamental de seu legado.

A loya jirga que Karzai reuniu recentemente surpreendeu o envaidecido senhor da guerra ao aprovar um acordo com os americanos. Ele permaneceu impassível. Disse que deixaria a aprovação de um pacto de segurança a seu sucessor.

O espetáculo de autoridades americanas correndo atrás de Karzai é degradante, para dizer o mínimo. Estamos pedindo a ele o privilégio de proteger seu país nos próximos anos.

Sua truculência não é nenhum mistério. "O presidente Karzai não é um parceiro estratégico adequado", escreveu Karl Eikenberry, embaixador americano no Afeganistão, em 2009. "Ele e boa parte de seu círculo não querem que os EUA saiam e estão bastante contentes de nos ver investir mais. Eles imaginam que nós cobiçamos seu território para uma guerra interminável ao terror e bases militares para serem usadas contra potências nas imediações." Esta conclusão severa tem sido ecoada nos últimos dias pelo ex-chanceler Abdullah Abdullah, um candidato às eleições presidenciais do próximo ano.

"Isso é perigoso", ele disse. "Ele acha que os americanos estão ansiosos para ficar no Afeganistão a qualquer preço. Não é verdade. Ele acha que este é seu duelo pessoal com o governo americano. Não é. É o futuro do Afeganistão que está em jogo."

O ardor que os EUA têm mostrado em fechar este acordo com Karzai contrasta com sua ansiedade para sair do Iraque em 2011. Hoje, seria possível dizer que o Iraque tem uma importância estratégia infinitamente maior que o Afeganistão, e a presença americana no Iraque teria servido aos interesses americanos naquele Oriente Médio mais amplo.

Mas o Iraque não foi a "guerra boa". Nós não regateamos muito em Bagdá. Fizemos aos iraquianos uma oferta para eles recusarem; uma força simbólica que mal conseguiria se defender, quanto mais ajudar os iraquianos.

Sem debate nacional, com o Congresso atolado em disputas, Obama propõe um envolvimento americano no Afeganistão até 2024. A esperança de que esse envolvimento produza um governo decente capaz de derrotar o Taleban é tênue. Devemos abandonar a ilusão de que as forças que treinamos lutarão, que um regime afegão viciado em doações estrangeiras se consolidará quando isso for realmente necessário.

Quando realmente empacotarmos nossos equipamentos, a verdade daquele país se imporá. Os chefes tribais e as aves de rapina pegarão o que puderem e deixarão o lugar à ruína. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

É BOLSISTA SÊNIOR NA HOOVER INSTITUTION DA UNIVERSIDADE HARVARD

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