A balofa de Ipanema

Como a maioria dos jornalistas, muitas das minhas pautas começam com uma conversa descompromissada. Assim foi quando uma médica, mãe de uma coleguinha da minha filha, comentou recentemente que iria mudar de profissão.

Mac Margolis, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2011 | 00h00

Endocrinologista, ela agora planejava estudar gastroenterologia para poder acompanhar o marido, cirurgião bariátrico - aquele da operação radical que encolhe o estômago para combater a obesidade. Não pensei mais na história até que, semanas depois, ouvi a mesma coisa de uma amiga da minha mulher, cirurgiã oftalmologista, também com planos de operar obesos.

Coincidência ou será um novo boom no mercado de trabalho? A cirurgia bariátrica popularizou-se há 40 anos ou mais nos EUA e na Europa. Nunca, porém, tanta gente recorreu ao bisturi para perder a barriga, e a América Latina está na fila.

Assim como a diplomacia e o poder dos mercados novos, a balança já acusa nos países emergentes. Não alcançamos a gravidade dos EUA, país mais balofo do mundo, com quase 60% da população gorda, mas estamos chegando lá. Neste ano, o Ministério da Saúde mostrou que o excesso de peso agora atinge 47% dos adultos brasileiros.

O gastroenterologista brasileiro Walmir Coutinho teme que a situação esteja fora do controle. A obesidade brasileira já beira os 14% da população. A esse ritmo de engorda, alerta Coutinho, até 2022 o Brasil deve ultrapassar os EUA, onde uma em cada três pessoas é obesa. Quanto mais jovem, pior. Nos últimos 20 anos, a obesidade em crianças cresceu 239% - uma taxa quatro vezes mais rápida que nos EUA.

Os latinos não estão sozinhos. O sobrepeso e sua agravante, a obesidade mórbida, correm soltos em todos os países em desenvolvimento. Veio a reboque do progresso, agravado traiçoeiramente pelos mesmos dotes que impulsionam as sociedades emergentes. É a ascensão da nova classe média, que tem dinheiro no bolso e uma fome represada, geralmente saciada no balcão da franquia local de fast food.

São os carros, as TVs e geladeiras, cujas vendas explodiram nos shoppings onde deslizamos por escadas rolantes - maravilhas de última geração, todas desenhadas para nos poupar esforço e incômodo.

Assim como na terra do Mickey Mouse, a engenharia moderna aboliu o movimento da nossa vida. Chegou com a urbanização, que apertou o ritmo da vida, deletando o almoço caseiro. Bye bye feijão com arroz, alô Pizza Hut e hambúrguer tríplex.

Operar o estômago é uma opção radical, mas pode ser a única saída quando a dieta não basta, enquanto novos medicamentos não chegam e os mais eficazes (como a sibutramina) são proibidos por melindres das autoridades de saúde pública, que temem danos colaterais.

Difícil é imaginar dano maior do que sofrer de hipertensão e diabetes, que encurtam a vida em décadas. Até lá, aos pacientes resta a sala de cirurgia. O próximo Pitanguy será o escultor do estômago?

É COLUNISTA DO "ESTADO", CORRESPONDENTE DA "NEWSWEEK" NO BRASIL E EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COM

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