A batalha de um homem só

Nos anos 70, ocorreu um extraordinário fenômeno de confusão política e delírio intelectual que levou um setor importante da intelligentsia francesa a apoiar e mitificar Mao e sua Revolução Cultural enquanto, na China, a guarda vermelha fazia passar pelas forcas caudinas professores, pesquisadores, cientistas, artistas, jornalistas, escritores, promotores culturais, dos quais grande número foi assassinado ou preferiu suicidar, após redigir autocríticas arrancadas com torturas. No clima de exacerbação histérica pelo qual a China passou, alentada por Mao, foram destruídas obras de arte e monumentos históricos, atropelos iníquos foram cometidos contra supostos traidores e contrarrevolucionários, e a sociedade milenar viveu uma orgia de violência e histeria coletiva que teve como resultado cerca de 20 milhões de mortos.

Mario Vargas Llosa, O Estado de S. Paulo

30 de maio de 2015 | 19h49

No recém-publicado O guarda-chuva de Simon Leys, Pierre Boncenne descreve como, enquanto tudo isso ocorria no gigante asiático, na França, eminentes intelectuais como Jean Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Roland Barthes, Michel Foucault, Alain Peyrefitte e a equipe de colaboradores da revista Tel Quel, dirigida por Philippe Sollers, apresentavam a “revolução cultural” como um movimento purificador, que colocaria fim ao stalinismo e expurgaria o comunismo da burocratização e do dogmatismo, instalando a sociedade comunista livre e sem classes.

Um sinólogo belga chamado Pierre Ryckmans, que assinaria seus livros com o pseudônimo de Simon Leys, até então desinteressado na política – tinha se dedicado ao estudo de poetas e pintores clássicos da China e à tradução de Confúcio –, horrorizado com a fraude dentro da qual sofisticados intelectuais franceses endeusavam o cataclisma pelo qual a China padecia sob o comando do Grande Timoneiro, decidiu enfrentar esse grotesco mal-entendido e publicou uma série de ensaios: Les Habits neufs du président Mao, Ombres chinoises, Images brisées, La Fôret en feu, entre outros. 

Eles revelam a verdade do que ocorria na China e enfrentando com grande coragem e conhecimento direto do tema o endeusamento que faziam da Revolução Cultural, empurrados por uma mistura frivolidade e ignorância, não isenta de certa estupidez, muitos dos ícones culturais da terra de Montaigne e Molière.

Críticas. Os ataques que Simon Leys recebeu por se atrever a ir contra a corrente e desafiar a moda ideológica que imperava em boa parte do Ocidente, documentados por Pierre Boncenne em seu fascinante livro, fazem-nos sentir vergonha alheia. 

Nas páginas de publicações tão importantes quanto Le Nouveau Observateur e Le Monde, escritores de direita e esquerda o cobriram de impropérios – entre os quais, certamente, não faltou a acusação de ser um agente a serviço dos americanos – e, em algo que deve ter ofendido seus sentimentos católicos, revistas franciscanas e lazaristas se negaram a publicar suas cartas e artigos explicando por que era ignominioso que conservadores como Valéry Giscard d’Estaign e Jean d’Ormesson e progressistas como Jean-Luc Godard, Alain Badiou e Maria Antonietta Macciocchi, considerassem Mao um “gênio indiscutível do século 20” e “o novo Prometeu”. 

A frase de George Orwell nunca foi mais verdadeira que naqueles anos: “O ataque consciente e deliberado contra a honestidade intelectual parte sobretudo dos próprios intelectuais”. Poucos foram os intelectuais franceses da época que, como Jean-François Rével, mantiveram a cabeça fria, defendendo Simon Leys e negando-se a participar daquela farsa que enxergava a salvação da humanidade no festim genocida da Revolução Cultural chinesa.O perfil de Simon Leys que emerge do livro de Pierre Boncenne é o de um homem fundamentalmente decente que, contrariando sua principal vocação – de estudioso da grande tradição literária e artística da China, fascinado pelas lições de Confúcio – se vê levado a mergulhar no debate político dentro do qual, por sua limpeza moral, precisa enfrentar praticamente sozinho uma corrente coletiva encabeçada por iminências intelectuais, para dissipar um emaranhado de mentiras que os grandes malabaristas da correção política tinham transformado em axiomas irrefutáveis. 

Acabaria saindo vitorioso daquele combate desigual, e o mundo ocidental terminaria por aceitar que, longe de ser o sobressalto libertador que devolveria ao socialismo a pureza ideológica e o apoio militante de todos os oprimidos, a Revolução Cultural foi uma loucura coletiva inspirada por um velho déspota que se valia dela para livrar-se de seus adversários dentro do próprio Partido Comunista e consolidar seu poder absoluto.

Resultados. O que restou de tudo isso? Milhões de mortos, inocentes de todo tipo sacrificados por jovens histéricos que viam inimigos do proletariado por toda parte, e uma China que, como antítese daquilo em que a guarda vermelha queria fazer dela, é hoje uma sólida potência capitalista autoritária que levou o culto ao dinheiro e ao lucro a extremos vertiginosos.

O livro de Pierre Boncenne ajuda a entender por que a vida intelectual da nossa época foi empobrecendo e se tornando cada vez mais marginal em relação à sociedade, sobre a qual ela agora exerce influência praticamente nula e que, confinada aos guetos universitários, se dedica a monólogos ou delírios, perdendo-se com frequência em construções lógicas pretensiosas desprovidas de raízes na problemática real, expulsas da história à qual tanto recorreram no passado para justificar alienações delirantes como esse fascínio com a Revolução Cultural.

Não devemos nos alegrar com a falta de prestígio dos intelectuais nem sua escassa influência na vida contemporânea. Pois o significado disso foi a desvalorização das ideias e de valores indispensáveis como aqueles que estabelecem uma fronteira clara entre verdade e mentira, noções que hoje se tornaram confusas na vida política, cultural e artística, algo perigosíssimo, pois o colapso das ideias e dos valores, somado à revolução tecnológica de nossa era, faz com que a sociedade totalitária imaginada por Orwell e Zamiatin seja nos dias de hoje uma realidade possível. 

Uma cultura na qual as ideias importam pouco condena a sociedade ao desaparecimento do espírito crítico, essa vigilância permanente do poder sem a qual toda democracia corre o risco de desmoronar.

É preciso agradecer a Pierre Boncenne, que escreveu essa reivindicação de Simon Leys, exemplo de intelectual honesto que nunca perdeu a vontade de defender a verdade e diferenciá-la das mentiras que poderiam desnaturalizá-la e aboli-la. Já no livro que dedicou a Revel, Boncenne tinha demonstrado seu rigor e lucidez, que agora ele confirma com o presente ensaio. /TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

*Mario Vargas Llosa é escritor peruano e Prêmio Nobel de Literatura

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