Kiana Hayeri/The New York Times
Kiana Hayeri/The New York Times

A batalha é diária para as mulheres afegãs que estão nas forças de segurança

Afegãs enfrentam insultos, assédios, ameaças e temem retrocesso alcançado nos últimos 20 anos

Mujib Mashal / The New York Times, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2020 | 03h00

KHOST, AFEGANISTÃO – Motivada, instruída e recém-formada na academia de polícia na Turquia, a segundo-tenente Zala Zazai tinha as melhores qualificações para o emprego que aceitou no Afeganistão, em junho. Mas quando ela começou, tudo isso não teve muita importância.

Nas redes sociais, ela foi chamada de prostituta, alguns homens escreveram que a sua presença na polícia iria corromper a Província de Khost, para onde ela foi enviada. Seus colegas na sede da polícia – onde era a única mulher em uma força de cerca de 500 homens – tentaram intimidá-la, obrigando-a a usar o véu conservador na cabeça e roupas tradicionais em lugar do seu uniforme, e a esconder-se nos lugares menos frequentados da delegacia, longe do público, contou. Lojistas foram até as portas da delegacia sem nada para fazer, senão para dar uma espiada na novidade.

Depois do seu primeiro dia de trabalho, Zala, de 21 anos, chegou em casa enojada e assustada. Sentia-se tão pouco segura que pediu à mãe, Spesalai, que a acompanhasse desde Cabul, para ficar com ela em um abrigo no interior da sede da polícia. À noite, as duas mulheres trancavam a porta. Durante o dia, Zala Zazai solicitou uma pistola. “Quero ter alguma coisa para me defender”, explicou.

Ajudar as mulheres afegãs, que foram banidas em suas casas pelo Taleban durante o seu governo, nos anos 90, tornou-se um motivo fundamental para o envolvimento ocidental no Afeganistão depois da invasão americana, em 2001. Vinte anos mais tarde, a ascensão de uma geração de mulheres afegãs instruídas, profissionais, é um sinal inegável de mudança.

Agora, com a possibilidade da realização de conversações sobre a divisão do poder entre o Taleban e o governo afegão, muitas mulheres temem que o progresso por elas alcançado esteja em risco. O que aumenta a sua preocupação é a fragilidade dos ganhos conseguidos duas décadas depois, quando todo passo mais mundano continua sendo uma batalha diária.

Mesmo depois de um investimento de mais de US$ 1 bilhão em projetos para as mulheres ganharem autonomia, a realidade diária para as que tentam entrar em cargos masculinos – particularmente no governo e na polícia – continua sombria. As mulheres ainda estão quase totalmente ausentes nas reuniões de alto nível onde são tomadas as decisões relativas à guerra, à paz e à política. O trabalho feminino em empregos de rotina é uma verdadeira barragem de assédio, insultos e abusos.

Na polícia, que durante anos tem sido o foco dos esforços de diversificação, as mulheres ainda constituem apenas 2,8% dos funcionários – e esse é o patamar mais alto em 18 anos. A maioria destas 3,8 mil mulheres se encontra em funções escondidas com pouco contato com a sociedade, admitiram as autoridades.  Apenas 5 do total de cerca de 200 cargos de liderança militares e civis no Ministério do Interior são ocupados por mulheres.

Durante a maior parte dos últimos 20 anos, a tarefa de incluir as mulheres na polícia coube a antigos senhores da guerra e comandantes cujas convicções a respeito das mulheres diferem muito pouco das do Taleban, se é que diferem.

O presidente Ashraf Ghani aumentou o número de embaixadoras, introduziu o cargo de vice-governadoras e ministras, e mandou as vices para os Ministérios da Defesa e do Interior. Mas a sociedade afegã continua profundamente patriarcal e as poucas mulheres que chegaram a tais cargos enfrentam muitas dificuldades.

A estratégia para a inclusão de um número maior de mulheres em posições menos importantes tem sido principalmente o gasto de dinheiro e contentar-se com investimentos modestos. Nos últimos seis anos, o governo afegão e seus aliados ocidentais desembolsaram mais de US$ 100 milhões na construção de instalações para apoiar as mulheres afegãs na polícia.

Na Província de Nangarhar, foram gastos US$ 6 milhões em uma instalação de treinamento para policiais femininas que continua sem uso, três anos depois de concluída.

Após repetidos fracassos, as iniciativas para o recrutamento hoje se reduzem essencialmente a subornar mulheres para que elas ingressem da polícia e ali permaneçam. Os incentivos para uma mulher entrar nas forças de segurança incluem oito benefícios a mais do que seus colegas homens, segundo Hosna Jalil, vice-ministra do Interior. Em diversas ocasiões, as mulheres com idade para se aposentarem tiveram a permissão para falsificar sua identidade e reduzir sua idade a fim de permanecer nas forças de segurança, ela disse.

No entanto, o objetivo de uma presença feminina de 5% na polícia nunca foi atingido. “Todas as províncias para as quais fui enviada, a primeira coisa que eu disse foi: Vocês são uma força que só trabalha para os homens – não para as mulheres ou as crianças, as duas categorias mais vulneráveis que costumam ser deixadas de lado”, disse Hosna.

Não que estejam faltando mulheres qualificadas e dispostas. Ocorre que ingressar na polícia implica suportar abusos e degradação.

Ao longo dos anos, o assédio sexual vem aumentando nessa categoria. Segundo alguns relatos, as mulheres de policiais mortos no cumprimento do dever teriam sido assediadas quando foram buscar os benefícios após a morte do cônjuge. A percepção de que policiais femininas foram assediadas com frequência significou que as mulheres vítimas de violência doméstica e de outros crimes não ousaram procurar uma delegacia.

“Se nós pudéssemos garantir a um pai que a dignidade de sua filha está mais protegida nas forças de segurança porque elas têm autoridade e profissionalismo!” disse Hosna. “Nós não conseguimos criar esta mentalidade.”

Antes que ela começasse o seu trabalho como vice-ministra de Estratégia e Política – contratada por Ghani por ser uma pessoa que veria a situação com um olhar mais jovem em uma instituição considerada há muito corrupta e inepta – ela teve de lutar para ser aceita.

Os generais saíam das reuniões quando descobriam que ela presidia. Os subordinados frequentemente lhe apresentavam informações erradas para comprometê-la.

“Muitas vezes preciso dizer que não sou a chefe do departamento de gênero – sou a vice de política e estratégia do ministro do Interior. Trabalho para essa importante força que é masculina e também feminina”, explicou Hosna. “Posso ter uma perspectiva feminina, mas toda mulher que chega deveria vir por sua capacidade, e não pelo fato de ser mulher”.

Atualmente, apesar dos frequentes ataques sexistas nas redes sociais, Hosna diz que conseguiu adaptar-se como parte de uma equipe de liderança que trabalha para reformar a polícia. Elas passam longas horas em um tranquilo escritório, debruçadas sobre os gráficos de uma estrutura superlotada que elas estão enxugando, e acabaram com trâmites burocráticos desnecessários que criavam as oportunidades para a corrupção. Elas estão tentando fazer com que a polícia adote novas normas de responsabilidade, e cuide melhor das famílias de dezenas de milhares de policiais mortos em décadas de guerra.

Zala, que serve no quartel de Khost, cresceu em Cabul, a capital. Sua mãe, Speselai Zazai, é a chefe de família da casa há sete anos, e apesar da oposição dos parentes homens, ela, sua irmã mais velha, e sua mãe estudaram à noite na universidade que pagaram com o próprio trabalho diurno. Outra irmã segue estudos islâmicos.

Ela e a irmã mais velha, hoje, são policiais. Mas só se dispuseram a dar o primeiro passo quando surgiu a oportunidade de estudar na Turquia por causa da preocupação com o assédio e o abuso nas academias locais.

Nas duas primeiras semanas, Zala passava o dia trabalhando, e à noite ia para a casa de hóspedes do governo onde sua mãe lhe fazia companhia. Ela não tinha enfrentado uma ameaça física direta, contou, mas tinha consciência da realidade, e a falta de uma arma aumentava a sua vulnerabilidade.

Ficou arrasada quando a mãe teve de regressar a Cabul, mas Zala está determinada a fazer uma tentativa em Khost. “Quem sabe Deus vai me ajudar,” ela disse. “Só preciso encontrar a força – porque as coisas não podem continuar assim, as mulheres deveriam reivindicar o seu lugar. Eu sei que se passar um ano aqui, as coisas serão diferentes”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA 

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