A batalha semântica e a definição de terror

Cada vez mais o termo assume o significado de covardia, injustiça e brutalidade; atualmente a qualificação é rejeitada até mesmo pelos mais notórios terroristas

Scott Shane, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2010 | 00h00

THE NEW YORK TIMES

Palavras podem também ser armas. Após cada novo relato de violência política, seja apenas planejada ou de fato perpetrada, surge um debate léxico: o caso deveria ser classificado como "terrorismo"? Quando os primeiros relatos do surto homicida do major Nidal Malik Hasan em Fort Hood, Texas, em novembro, mencionaram seus problemas pessoais e deixaram de empregar o termo "t...", ativistas de direita protestaram: tratava-se de um muçulmano radical terrorista, disseram eles, e somente uma perversão completa do politicamente correto poderia afirmar o contrário.

Quando A. Joseph Stack jogou seu avião contra um prédio de escritórios da receita federal em Austin, Texas, em fevereiro, matando a si e a um funcionário do governo, foi a esquerda que fez a denúncia linguística: se tal ato público de violência não pode ser chamado de terrorismo, então o que se enquadraria nesta categoria? Na semana passada, a detenção de nove membros da seita cristã Hutaree em Michigan acusados de planejar o assassinato de policiais trouxe de volta esta dúvida.

Seriam os detidos terroristas? Seriam cristãos? Ou apenas um bando de malucos? Se os envolvidos fossem muçulmanos, disseram comentaristas, não haveria nenhuma hesitação em qualificar o ocorrido de terrorismo islâmico.

As brigas entre esquerda e direita são tentativas de tirar proveito político dos casos de violência. Segundo a lógica da direita, se o major Hasan fosse chamado de terrorista islâmico, então a sensibilidade excessiva aos direitos dos muçulmanos não se justificaria e as duras medidas de segurança da escola Dick Cheney se provariam necessárias. A esquerda sugere que se os membros da Hutaree são cristãos de direita que temem o governo, então talvez haja motivo para temer o extremismo de outros cristãos conservadores anti-governo, sejam membros do movimento político Tea Party ou apenas republicanos.

"O uso do termo "terrorismo" deslegitima o oponente", disse Martha Crenshaw, pesquisadora de Stanford. A palavra latina na origem do termo, "terrere", significa "provocar tremores de medo", e uma noção essencial à maioria das definições do terrorismo é a ideia de que ele busca assustar o inimigo, além de inspirar os aliados.

Com o tempo o termo "terrorismo" assumiu conotações de covardia, injustiça e especial brutalidade, independentemente da causa mais ampla à qual o ato afirme servir. Atualmente, até os mais descarados terroristas costumam recusar o rótulo. Em mensagem de áudio recente, Osama bin Laden descreveu Khalid Sheik Mohammed, planejador dos ataques do 11 de Setembro, como "guerreiro santo e herói".

Pela definição padronizada, o major Hasan poderia ser considerado um terrorista. Fossem quais fossem seus problemas emocionais, ele parece ter enxergado os assassinatos como parte de uma campanha mais ampla dos muçulmanos que lutam contra aquilo que percebem como agressão americana.

Da mesma maneira, apesar de Joe Stack certamente ter tido suas críticas pessoais à receita federal, o manifesto de 6 páginas que deixou sugere que ele morreu pela causa da liberdade num golpe contra o "sr. Grande Irmão do Fisco".

É verdade que ambos parecem ter tido em comum a excentricidade e a sociopatia. Em seu desespero, ao escolher não apenas o suicídio individual, mas um ataque aos outros, e ao associar sua violência a um ponto de vista político, estes dois fizeram por merecer a classificação de terroristas.

O debate a respeito da escolha de palavras produziu a máxima "aquele que para uns é terrorista, para outros é um defensor da liberdade", que já tinha se transformado em clichê nos anos 80. "A frase é de efeito, mas também induz ao equívoco", disse o presidente Ronald Reagan em 1986.

"Os defensores da liberdade não precisam aterrorizar uma população com o objetivo de submetê-la aos seus desígnios. Os defensores da liberdade têm como alvo as forças militares e os instrumentos organizados de repressão que mantêm no poder regimes ditatoriais. Os defensores da liberdade buscam libertar seus cidadãos da opressão e estabelecer uma forma de governo que represente a vontade do povo." Mas distinguir entre estes pontos de vista nem sempre é fácil: o major Hasan escolheu como alvo as forças militares; Stack certamente considerava o Fisco um "instrumento organizado de repressão".

Pensando nos fins e não nos meios, na disputa com a União Soviética, Reagan armou e promoveu a luta dos "defensores da liberdade" no Afeganistão e seus aliados árabes. Alguns evoluíram e se tornaram os terroristas da Al-Qaeda e do Taleban.

Retrospectivamente, aquele pronunciamento soa ingênuo também sob outro aspecto. "A história deve registrar que 1986 foi o ano no qual o mundo, finalmente, superou a praga do terrorismo", declarou Reagan. É improvável que Obama se arrisque a fazer uma previsão deste tipo num futuro próximo. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

O AUTOR É COMENTARISTA POLÍTICO

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