Jakub Kaminski/EFE
Jakub Kaminski/EFE

À beira da guerra civil, Ucrânia deposita sua esperança nas urnas

Bilionário Petro Poroshenko deve vencer ex-primeira-ministra Yulia Tymoshenko

Andrei Netto, Enviado especial / Donetsk, Ucrânia

24 Maio 2014 | 22h02

À beira da guerra civil, à mercê de movimentos separatistas e da falência econômica, 36 milhões de eleitores devem definir neste domingo, 25, o futuro presidente da Ucrânia - o quinto da história e o primeiro desde o início da crise política que derrubou Viktor Yanukovich, em fevereiro.

Em uma nação minada pela ação de milícias armadas pró e anti-Rússia, o bilionário Petro Poroshenko, dono de um império da indústria alimentícia, deve vencer a ex-premiê Yulia Tymoshenko. Sua missão mais difícil, porém, virá a seguir: afirmar sua legitimidade e vencer a turbulência que ameaça implodir o país.

Embora não fosse protagonista até aqui, Poroshenko, de 48 anos, é parte do establishment político da Ucrânia há mais de 15 anos. Em 1998, ele foi eleito para a Rada, o Parlamento unicameral, e a partir de então participou de todos os governos eleitos. Fiel ao então presidente Leonid Kuchma, migrou de partidos, deixando a centro-esquerda pela direita ao longo dos anos 1990. Com a chegada de Viktor Yushchenko à presidência, foi secretário do Conselho Nacional de Defesa e ministro das Relações Exteriores, quando apoiou a integração da Ucrânia à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Em 2012, virou a casaca e aceitou a nomeação de Yanukovich ao posto de ministro do Comércio e Desenvolvimento Econômico.

O rompimento definitivo com o presidente veio com o início do movimento EuroMaidan, na Praça da Independência, em Kiev, em novembro, quando Poroshenko se transformou em um dos porta-vozes da rebelião, ao lado do ex-campeão mundial de boxe Vitali Klitschko, de quem recebeu apoio na atual campanha.

Pouco carismático, Poroshenko impressiona os ucranianos mais pelo sucesso como homem de negócios do que por sua liderança política. De acordo com a revista Forbes, o oligarca nascido na cidade de Bolhrad, na região de maioria russa de Odessa, soma uma fortuna de US$ 1,6 bilhão, construída a partir de uma holding do ramo alimentício, o Roshen, mas também investindo na produção de automóveis e ônibus, em um estaleiro, um canal de TV e uma revista - a Korrespondent.

"Os políticos ucranianos não são apenas populistas, são muito populistas. E Poroshenko é mais um deles", disse ao Estado o cientista político Yuri Koval, professor da Universidade Nacional de Donetsk. "Poroshenko lidera as pesquisas e deve vencer. Mas ele pode ser um líder nacional ou transformar-se em mais um Yanukovich."

Em uma eleição ameaçada pelo risco de fragmentação do país, sua campanha eleitoral é marcada pela ausência de propostas concretas. Suas maiores promessas são reforçar as Forças Armadas e encerrar a crise com a Rússia "em três meses".

Mas seus projetos de luta contra a corrupção, de redução da influência das oligarquias no governo, de modernização do país, de reindustrialização, de reforma do Estado e retomada do crescimento, são desconhecidos do eleitorado. Com a Ucrânia em bancarrota e precisando de US$ 35 bilhões em empréstimos internacionais para evitar a moratória, o maior compromisso de Poroshenko no campo econômico é elevar o salário mínimo a 7 mil grívnias, ou cerca de R$ 1,3 mil. A explicação de como financiará a medida é vaga: "Se eu fiz para 45 mil empregados, posso fazer para 45 milhões de ucranianos", repete.

Com um discurso vazio e pouco empolgante, seu favoritismo entre os 21 candidatos, explica Koval, tem relação direta com a alta rejeição a sua maior opositora, Yulia Tymoshenko. Mesmo perseguida por Yanukovich, a ex-premiê não é vista aos olhos da população como uma mártir, como ocorre no exterior. Sua impopularidade aumentou nessa semana após uma declaração que atesta a falta de cultura democrática nos meios políticos. "Se o país escolher outro presidente, creio que nós deveremos viver um terceiro ciclo de revolução, porque não vejo nenhuma esperança de mudança", afirmou.

Ao golpismo de Tymoshenko se soma a falta de apoio aos candidatos pró-Rússia, o ex-ministro da Economia Serhiy Tigipko e o ex-governador de Kharkiv Mykhailo Dobkin.

Mas o maior fator de risco à legitimidade das eleições de hoje é mesmo a ameaça das milícias separatistas. Na sexta-feira, um grupo destruiu na frente das câmeras urnas levadas a Donetsk para as eleições. O gesto foi possível porque o leste da Ucrânia é uma região sitiada, tanto por militares, quanto por paramilitares. Numa mesma estrada, a menos de 30 quilômetros de distância, há postos de controle pró-Kiev e pró-Moscou, em um face a face que multiplica confrontos. Ao longo da semana, mais de 20 soldados e 20 separatistas morreram em choques em Donetsk e Luhansk.

Para enfrentar a falta de segurança e o risco de choques entre milícias separatistas e radicais de extrema direita, a população civil não pode contar nem com a polícia. Na quarta-feira, a reportagem do Estado flagrou em uma das entradas de Donetsk policiais participando de uma barreira montada por separatistas. Na sexta-feira, outros policiais foram revistados e tiveram de apresentar documentos em uma barreira das milícias. "Estamos em guerra", justificou o líder separatista que comandava o posto de controle.

Entre a população civil é nítido o desejo de que a crise política seja superada e o país retome a normalidade. Essa é uma das razões pelas quais o Ministério do Interior, organizador da eleição, espera ao menos 70% de participação. Mas a instabilidade e os combates assustam a população. "Não vou votar porque não me sinto seguro", diz o universitário de origem georgiana Dimma Teshelashvili.

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