À beira de um abismo

Crise econômica egípcia não começou com Morsi, mas ele ajudou a piorar tudo no país

DANIEL STEINVORTH *,

03 de julho de 2013 | 02h03

A desilusão com Mohamed Morsi, membro da Irmandade Muçulmana e primeiro presidente democraticamente eleito do Egito, é generalizada depois do seu primeiro ano de governo.

Em vez de livrar o país da crise política e econômica em curso, Morsi aprofundou as mazelas. Protestos de massa têm mostrado reiteradamente o quanto se polarizou o país mais populoso do mundo árabe. "Meu país nunca esteve tão dividido, frustrado e radicalizado", disse o escritor Hamed Abdel-Samad.

Há um ano, Morsi venceu um aliado do ditador deposto Hosni Mubarak, mas por uma margem mínima. Muitos egípcios que não tinham simpatia pelos islamistas de Morsi, mas estavam ainda menos interessados num retorno da era Mubarak, deram-lhe uma chance.

Essa generosidade acabou. Segundo uma sondagem recente, somente 28% da população apoia Morsi atualmente. E pouquíssimos egípcios têm saudades do velho regime. "Estávamos melhores no tempo de Mubarak", diz o dono de uma loja de suvenires em Giza, um dos poucos saudosistas. "Tínhamos uma renda regular, o país era seguro e os turistas vinham."

Morsi não deve ser culpado por todos os problemas do país. A economia já ia mal das pernas quando ele assumiu. Mas, como disse o jornalista econômico Saad Hagras, do Cairo, o presidente não tem ideias nem conceitos. Por enquanto, não ofereceu nada além de promessas vagas, como a de restaurar a estabilidade e reativar a economia num prazo de 100 dias.

No ano passado, com uma pequena maioria e baixo comparecimento eleitoral, a Irmandade Muçulmana forçou a aprovação de uma Constituição. Trata-se de um documento que traz a marca clara dos islamistas de Morsi e muitos egípcios discordam visceralmente dela. Para aumentar rapidamente a sua influência, Morsi se atribuiu poderes presidenciais especiais no fim de 2012.

Economia. Os egípcios estão particularmente irados com a situação econômica miserável, pois os preços do pão, da gasolina e do gás natural continuam subindo, apesar dos generosos subsídios. A libra egípcia está em queda livre. Ocorrem frequentes apagões porque o governo não tem dinheiro para importar eletricidade.

Apesar de a taxa de desemprego oficial ser de apenas 12%, Hagras diz que a cifra é relativamente sem valor, porque a maioria dos egípcios trabalha na informalidade. Um em cada dois egípcios vive abaixo da linha da pobreza, com US$ 2 por dia.

A população cresce e o mesmo ocorre com o número de formandos do ensino secundário, mas a maioria não tem empregos nem perspectiva. Para criar empregos em quantidade suficiente, a economia teria de crescer pelo menos 8% ao ano - e não apenas 2%, como tem ocorrido.

O setor de turismo, principal fonte de renda do país, está especialmente abalado. Cerca de 14,7 milhões de turistas visitaram o Egito em 2010, enquanto menos de 10 milhões vieram em 2012. "É um terrível pesadelo", diz Iman Garhi, dono de um hotel às margens do Mar Vermelho. "Para atrair hóspedes, temos de operar com preços de dumping. Mas não consigo ganhar dinheiro desse jeito e não posso pagar meu empréstimo ao banco. Provavelmente, terei de fechar."

A escalada da dívida do país é um dos maiores problemas de Morsi. O presidente vem negociando com o Fundo Monetário Internacional (FMI) há meses um acordo de empréstimo multibilionário. Em troca, o FMI pede medidas para limpar as finanças públicas que incluiriam cortar subsídios aos combustíveis.

Isso afetaria, sobretudo, os pobres. Morsi tem relutado em adotar medidas duras, temendo a perda de sua base social. No entanto, quanto mais ele retarda a reforma, mais difícil ela se torna. "O presidente e a Irmandade Muçulmana ainda não entenderam a gravidade da situação", diz o empresário Salah Higasi. "Eles não estão preocupados com o país, mas sim com a expansão do seu poder. E dependem cegamente de seus financistas dos países do Golfo."

Graças a empréstimos generosos, especialmente da Arábia Saudita e do Catar, Morsi consegue respirar periodicamente. Os Estados irmãos sunitas aprovaram vários bilhões de dólares em empréstimos nos últimos meses. Dia 15, Morsi compareceu a um grande comício num estádio no Cairo transmitido pela TV egípcia. Falando a 20 mil seguidores, o presidente anunciou que estava rompendo relações diplomáticas com o regime do presidente sírio, Bashar Assad.

Talvez porque Damasco seja aliado do Irã, Morsi não se incomodou com o fato de os imãs que falaram depois dele terem começado a fazer uma agitação fanática contra os iranianos e outros xiitas, classificando-os como "impuros" e "infiéis".

Oito dias depois, um desses "infiéis" entrou na vila majoritariamente xiita de Abu Musallam, perto do Cairo, onde ele e um grupo de colegas xiitas planejavam celebrar um feriado islâmico. Quando os homens e os adolescentes de Abu Musallam descobriram, formaram uma turba e atacaram as casas de xiitas com pedras e coquetéis Molotov, arrastaram suas vítimas gritando para a rua e as esfaquearam com facas e espadas.

Quando tudo terminou, quatro xiitas haviam perdido a vida e dezenas de homens estavam sangrando no chão. Alguns policiais observavam, sem intervir. Eles se contentaram em remover os corpos.

O apoio de Morsi a islamistas radicais não se limitou a uma aprovação silenciosa. Num vídeo gravado no comício, Morsi abraça um homem chamado Assem Abdel-Magid, líder do grupo Al-Gamaa al-Islamia. Abdel-Magid foi parcialmente responsável pelo massacre de turistas em Luxor, em 1997, onde 62 pessoas morreram.

Ele também apoiou o assassino do ex-presidente Anwar Sadat, em 1981. O atual presidente do Egito tornou o grupo terrorista socialmente aceitável. Há três semanas, nomeou um membro do grupo para governador de Luxor. O homem renunciou quando os cidadãos locais protestaram.

Abdel-Magid é um importante aliado do presidente. Morsi até tolerou a ameaça de morte que ele fez, na TV, ao escritor Abdel-Samad, porque ele teria supostamente ofendido o Islã. "Sua relação estreita com um ex-terrorista mostra em que medida o regime egípcio está moralmente falido", afirma Abdel-Samad, que agora vive sob proteção policial na Alemanha.

Um grupo de oposição abrangente começou a coletar assinaturas, no fim de abril, para obrigar o presidente a aceitar novas eleições. Denominado Tamarud (Rebelde), é um amálgama de várias entidades insatisfeitas, incluindo liberais, cristãos, os nostálgicos de Mubarak e apoiadores desapontados da Irmandade Muçulmana.

O Tamarud teria reunido mais de 22 milhões de assinaturas. Foi ele que organizou a manifestação de domingo na Praça Tahrir, o estopim da nova onda de protestos.  TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK.

* DANIEL STEINVORTH É JORNALISTA DA DER SPIEGEL.

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