À beira do caos, Iêmen tenta se reerguer sem ditador

País mais pobre da Península Arábica enfrenta movimento separatista, radicais islâmicos e instabilidade após acordo que removeu Saleh do poder

SOLLY BOUSSIDAN, ESPECIAL PARA O ESTADO, SOLLY BOUSSIDAN É REPÓRTER , FREELANCER, COLABORADOR DO , ESTADO. COBRIU OS PROTESTOS , NO IÊMEN, NO BAHREIN, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2011 | 03h09

Os mais de 33 anos em que Ali Abdullah Saleh manteve o poder absoluto no Iêmen não trouxeram benefícios aos 23 milhões de habitantes do país às margens do Golfo de Áden. A população iemenita é extremamente pobre. As oportunidades de trabalho, estudo e o acesso à saúde são muito restritos.

A expectativa de vida no Iêmen é de 63 anos e falta quase tudo no país: água encanada e potável, energia elétrica, estradas e aeroportos.

Em meio a tanto atraso, o Iêmen foi atingido em cheio pelos distúrbios na Tunísia, Egito e Líbia. Em poucos dias, milhares de iemenitas rebelaram-se e saíram às ruas contra a ditadura de Saleh. Após dez meses de confrontos - que deixaram centenas de mortos e feridos, e afetaram a vida de 100 mil pessoas -, o presidente assinou no dia 23 um acordo de transferência de poder ao seu vice. O pacto prevê um governo de união nacional temporário até que eleições possam ser realizadas em fevereiro.

Mas a situação na capital, Sanaa, e em outros focos dos distúrbios, ainda está longe da normalidade. Milhares de iemenitas continuam a protestar, revoltados com os termos do acordo que tirou Saleh do poder. O texto final concede imunidade ao ex-ditador e à família dele. As clivagens tribais complicam ainda mais a disputa pelo poder, com diversos clãs digladiando-se para arrematar áreas específicas do país. Há até mesmo grupos que continuam leais a Saleh.

Os chefes tribais mobilizam verdadeiros Exércitos para enfrentar clãs rivais e as Forças Armadas do Iêmen. Os prejuízos na miserável capital iemenita foram estimados em US$ 8 bilhões.

Rivalidades. Há ainda tensões entre minorias xiitas e salafistas sunitas apoiados pela Arábia Saudita. Esses confrontos se concentram na extensa fronteira saudita-iemenita - uma espécie de terra de ninguém que virou terreno fértil para a Al-Qaeda. Extremistas e campos de treinamento do grupo fundado por Osama bin Laden passaram a ocupar várias cidades e vilarejos da região. As autoridades nacionais pouco ou nada podem fazer para controlar os militantes, influenciados por chefes tribais que lhes garantem abrigo e proteção.

Além de lidar com seus graves problemas internos, o Iêmen também sofre com um grande influxo de refugiados vindos da Somália, que frequentemente realizam serviços braçais e se abrigam em grandes favelas nas regiões de Áden e Sanaa - uma situação melhor do que o caos vivido no Estado falido do país africano. Os mais de 200 mil refugiados somalis tendem a se tornar um enorme contingente humano sem trabalho, comida ou meios de sobrevivência caso a situação política do Iêmen piore ainda mais.

Há atualmente dois grandes cenários possíveis para o futuro imediato do país. O primeiro, otimista, seria a manutenção do governo de união nacional no poder e a aceitação dos resultados eleitorais por parte de líderes tribais, políticos e sectários - algo extremamente difícil de se conseguir em um país onde etnia e filiação tribal são muito mais fortes do que a identidade nacional. Esse cenário daria credibilidade e força para o governo de Sanaa assumir o controle efetivo de todo o país, de suas fronteiras e iniciar as reformas político-sociais e de infraestrutura que o Iêmen tanto necessita.

No segundo - mais pessimista e provável -, as eleições de fevereiro seriam contestadas por líderes tribais e os militantes da Al-Qaeda, fortalecidos, endureceriam a luta jihadista. Dessa forma, a tendência seria a formação de alianças locais entre clãs que, na prática, dividiriam o Iêmen e criariam um vácuo de autoridade central. Em outras palavras: o mais pobre país da Península Arábica mergulharia de vez em uma guerra civil, abrindo caminho para a interferência de países como a Arábia Saudita, EUA e Irã nos rumos da nação.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.