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A bela e a fera

Com três homicídios a cada hora e a capital mais sangrenta das Américas, os venezuelanos conhecem bem o flagelo da violência. Mas o assassinato na semana passada da ex-miss Venezuela Mónica Spear, abatida enquanto esperava o reboque numa movimentada estrada costeira do país, fez tremer até os mais calejados dessa acidentada nação de 29 milhões.

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

12 de janeiro de 2014 | 02h05

Como repetiram à exaustão nas redes de notícias venezuelanas, Mónica e seu ex-marido foram assaltados por "elementos antissociais", segunda a polícia, na rodovia de Puerto Cabello a Valencia, a 220 km de Caracas . Sua filha de cinco anos, Maya, foi ferida no ataque mas está fora do perigo. A garota tem a vida toda para tentar entender o que houve naquela noite e porque, em vez de socorro, sua mãe, ídolo nacional e ícone das telas latinas, terminou as férias crivada de balas, disparadas por habitués das delegacias nacionais.

Atriz de gabarito internacional e modelo célebre, a moça de 29 anos era o orgulho nacional. Ganhou em 2004 o título de Miss e converteu a coroa em uma carreira internacional. Talentosa, virou vedete da Telemundo, a principal rede para os latinos no hemisfério.

Com cidadania americana, poderia ter migrado de vez para o norte. Optou por ficar, apesar dos seis assaltos que sofrera na terra natal e da insistência de familiares, que desistiram do país conflagrado.

Está aí, em miúdos, a tragédia venezuelana, um país de charme, talento e graça sem paralelo, e brutalidade sem trégua. E quando a bela nos Andes topa com a fera, leva a melhor a fera.

Violência não é novidade na Venezuela. A sangria é recorde na última década, em que o caudilhismo político, caos econômico e disfunção administrativa conspiraram para triturar vidas.

Em seu pronunciamento nacional, o presidente Nicolas Maduro apelou a todos para se unirem contra a escalada da violência, que descreveu comovido como um problema "social". Balela. Até recentemente o primeiro mandatário não só negou a violência descontrolada, como alardeou iniciativas em contê-la, como o badalado Plano Pátria Segura.

Só que o governo bolivariano parou de divulgar dados de criminalidade há alguns anos. Já as análises independentes são assustadores. Segundo o Observatório Venezuelano de Violência, que rastreia hospitais, necrotérios e informes comunitários, em 2004, Venezuela sofreu 9.7 mil homicídios. Foi no início do governo de Hugo Chávez.

Desde então, as baixas só se multiplicam. Mês passado, a mesma entidade contabilizou 24.763 homicídios em 2013. Nos 14 anos de governos chavistas, já são mais de 200 mil assassinatos.

Qual é o teto da violência, que taxa de mortandade inviabiliza um país? Ano passado, 7.818 civis morreram no Iraque, país ainda convulsionado por uma década de guerra. É um terço da conta da Venezuela, nação convulsionado pela paz.

O problema tem nome, endereço e flâmula. A tragédia não é que uma bela e rica cidadã foi abatida na flor a idade. Trágico foi que morreu mais uma nas trincheiras de um país em que os generais cavalgam para a glória, erguendo a bandeira de vitória e a tropa os segue com cruzes e caixões. Há três décadas, Eduardo Galeano escreveu seu libelo clássico sobre a tragédia do Novo Mundo, As veias abertas da América Latina. Acertou o título, errou o desastre.

MAC MARGOLIS É COLUNISTA DO 'ESTADO', CORRESPONDENTE DO SITE THE DAILY BEAST E EDITA O SITE WWW.BRAZILINFOCUS.COM

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