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A bênção, Brasil

Eleito por um triz, o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, começa a desfilar suas credenciais. O país está rachado, mas ele decola como o ungido de Hugo Chávez, comandante eterno da revolução bolivariana, que se disse o escolhido de Simon Bolívar. Nenhum lugar melhor para testar a bona fide do que o Brasil.

Mac Margolis,

12 de maio de 2013 | 02h03

Há algum tempo, os eleitos da América Latina olhavam oceano afora. Apressavam-se em apresentar-se aos mandachuvas de Washington, Londres ou Moscou, dependendo de que lado das barricadas se posicionavam. Eram esses os eixos do poder e as fontes indispensáveis de bênção e patrocínio.

No entanto, o mundo girou. No GPS da atual diplomacia latino-americana, o ponto cardeal é o Brasil, dono de dois terços do PIB da região, sucesso entre as democracias emergentes e vedete do esquerdismo light. Assim que foi eleito, em 2011, o presidente do Peru, Ollanta Humala, embarcou para o Brasil. Ansioso para se livrar da pecha de nacionalista incendiário, ele se encontrou com a presidente Dilma Rousseff e chamou o País de "modelo de crescimento econômico com inclusão social". Antes dele, veio Maurício Funes, o ex-guerrilheiro que se tornou presidente de El Salvador. "O Brasil mostrou que um governo de esquerda não significa um salto no vazio ou uma mudança que traga incertezas", disse. Do equatoriano Rafael Correa ao conservador Sebastian Piñera, do Chile, passando pelo boliviano Evo Morales, é o Brasil que os recém-eleitos preferem.

O que faz o Brasil com tanto capital político? Talvez menos do que poderia. "Não estamos aqui para dar atestado de bom comportamento", dizia Celso Amorim, chanceler de Lula. Segundo ele, era mais útil a conversa a portas fechadas. Em contraste com seu padrinho, Dilma começou mais cauteloso. Colocou na geladeira Mahmoud Ahmadinejad, figura fácil na diplomacia lulista, e manteve distância de Chávez.

Agora se mostra mais opaca. Ao tecer elogios a Chávez, disse que Brasília nem sempre concordou com o bolivariano, mas não pestanejou em congratular Maduro pela vitória duvidosa.

Claro, não há garantia de que a opinião brasileira mude as coisas. Afinal, Evo tomou refinarias da Petrobrás. Correa quase deu calote no BNDES e Chávez jamais se intimidou diante do modelo brasileiro.

Há, sim, interesses em jogo: US$ 5 bilhões em trocas comerciais bilaterais ao ano, com saldo de US$4 bilhões para os cofres brasileiros. No entanto, custa acreditar que uma relação mais franca ameace a vantagem brasileira. Para quem mais a Venezuela recorreria para abastecer seu mercado?

O silêncio fala. O afago, também. O aval brasileiro a Maduro vem em momento oportuno. Suas primeiras semanas de governo foram desastrosas. Quando a oposição foi às ruas contestar a eleição, o chavismo respondeu a cassetete com saldo de 7 mortos.

Depois, o presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, cassou a palavra de congressistas que não reconheceram a vitória de Maduro e cortou seus salários. Quando os amordaçados ergueram uma bandeira de protesto, soltou os seguranças contra eles e mandou desligar as câmeras.

Maduro culpou os suspeitos de sempre: os gringos endiabrados, a selvageria capitalista e seus aprendizes nativos. Todos verbetes de Chávez que desafinam na boca de Maduro. Talvez isto explique o giro latino-americano do acidentado mandatário bolivariano. O prêmio para Maduro não é econômico. É moral. Não se sabe se o aval de Dilma vai salvá-lo dele mesmo. Mas ajuda a enfeitar o fracasso.     * É colunista do 'Estado', correspondente da revista 'Newsweek' e edita o site www.brazilinfocus.com

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