A bizarra guerra do governo

Democratas põem o debate sobre se o governo deve ser grande ou pequeno no centro da vida americana e estimulam o crescimento da direita anti-governo

DAVID BROOKS, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2010 | 00h00

Nestas colunas, eu tento dar voz a uma filosofia que pode ser chamada de conservadorismo progressista. Ela começa com a sabedoria de Edmund Burke - a crença de que o mundo é mais complexo do que podemos conhecer e devemos ser céticos sobre entregar demasiado poder aos planejadores do governo. Ela acomoda uma dose de otimismo hamiltoniano - a crença de que um governo limitado, mas enérgico, pode, no entanto, ser bem-sucedido em melhorar as oportunidades e a mobilidade social.

Essa filosofia me coloca à esquerda de onde o Partido Republicano se encontra agora e à direita do Partido Democrata. Coloca-me naquele ponto bobo do mapa político, o centro, ou um passo à direita dele.

O centro vem perdendo poder político durante boa parte de minha carreira. Confesso, porém, que tive, há cerca de 16 meses, alguma esperança de um renascimento. A guerra de culturas que divide ferozmente os EUA há décadas, estava arrefecendo.

A guerra da guerra - a disputa sobre Iraque e segurança nacional - também estava perdendo força. O país acabava de eleger um homem que prometia deixar para trás as velhas polaridades, que valorizava a discussão e, claramente, tinha alguma simpatia pelos impulsos burkeanos e hamiltonianos.

Barack Obama montou seu governo com pragmáticos brilhantes cujos pontos de vista se sobrepunham aos meus. A única diferença era que eles tinham mais fé no planejamento tecnocrático.Entretanto, as coisas não fluíram bem para nós, os centristas. A política está mais polarizada do que nunca. Os dois partidos se afastaram ainda mais para os extremos. O centro está drenado e deprimido. O que aconteceu? Foi a História. Obama assumiu o poder em um período de crise econômica.

Política. Isso o levou, no primeiro surto de autoconfiança, a tentar aprovar muitos projetos grandes de uma única vez. Cada um desses projetos pode ter sido defensável isoladamente, mas combinados eles criaram a impressão de um massacre federal.

Uma das características mais bizarras do Partido Democrata é a sua incapacidade de aprender o que é política. Política não é vencer disputas. É decidir que disputas devemos travar. No primeiro ano do governo Obama, os democratas, deliberadamente ou não, decidiram colocar o debate entre o "governo grande" e o " governo pequeno" no centro da vida americana.

Justo quando os EUA estavam abandonando a guerra de culturas e a guerra da guerra, os democratas atiraram o país de novo na guerra do governo. Dessa vez, porém de maneira ainda mais detestável.

Essa guerra é como um roteiro social. Uma vez ativada, todos assumem seus papéis previamente atribuídos. À medida que o governo crescia, a direita antigoverno se mobilizava. Isso produziu o Movimento Tea Party - uma revolta bruta, mas autenticamente americana, liderada por membros da classe dos pequenos proprietários rurais.

À medida que o governo crescia, muitos moderados e independentes (nem sempre a mesma coisa) se retraíam alarmados. Em 2008, o governo estava dividido entre um "governo maior", com mais serviços, ou um "governo menor", com menos serviços. Agora, segundo uma pesquisa do Pew Research Center, o lado do "governo menor" tem uma vantagem de 10 pontos porcentuais.

Pesquisas. No ano passado, a parte dos americanos que se considerava esquerdista (24%) continuou inalterada, mas a parte que se considerava conservadora (42%) cresceu 10 pontos porcentuais, de acordo com uma pesquisa encomendada pelo jornal Washington Post, que apontou ainda que os antigos moderados guinaram para o lado antigoverno.

À medida que o governo parecia mais ameaçador, moderados e independentes também deixaram o Partido Democrata. Os índices de aprovação dos democratas caíram 21 pontos no ano passado, de 59% para 38%. Nunca na história moderna os democratas foram tão mal avaliados.

Essas mudanças no eleitorado tiveram efeitos previsíveis nos dois partidos. Durante os períodos em que a guerra de governo estava a pleno vapor, a tendência libertária no Partido Republicano se tornou dominante e todas as outras tendências ficaram dormentes. Isso ocorreu agora.

Radicalismo. Durante os períodos de guerra do governo, o Partido Democrata também volta para seu ser residual. Os democratas não querem defender o "governo grande", por isso saem malhando o meio empresarial. Nas últimas semanas, Obama elevou o tom de seus ataques às grandes petrolíferas, a Wall Street e aos "interesses poderosos", soando como um democrata ortodoxo da era Reagan.

A guerra de governo segue como era de se esperar, fortalecendo aqueles com posições puras e deixando aqueles de nós, do centro, no fogo cruzado. Se o debate fosse sobre como aumentar a produtividade ou melhorar os níveis de vida, as pessoas como eu poderiam atuar. No entanto, quando o país está envolvido em um debate teológico sobre o tamanho do governo, pessoas como eu ficam na encruzilhada, tentando fazer distinções nas quais ninguém presta atenção.

Este é um período desapontador. Os democratas se tornaram o partido do governo e os republicanos são o partido do governo pequeno. O velho debate rançoso voltou com furor. A guerra, como sempre, assumiu o controle da discussão. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

É AUTOR DE LIVROS SOBRE POLÍTICA AMERICANA E JÁ FOI CORRESPONDENTE NO ORIENTE MÉDIO E EM MOSCOU

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