A blindagem do presidente boliviano

Enquanto esquerdistas estão balançando na América do Sul, Morales pode ser o último socialista a se manter em pé

Nick Miroff, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

22 Janeiro 2016 | 07h40

Os eleitores bolivianos irão às urnas no próximo mês para avaliar uma mudança constitucional que permitiria ao presidente Evo Morales disputar um quarto mandato em 2019, quando termina seu atual. O referendo vem no momento em que eleitores da América do Sul estão dando as costas a dirigentes esquerdistas que assumiram o poder na região durante a chamada “maré rosa” da década passada.

Os baixos preços de exportação do petróleo, minérios e commodities minaram a habilidade desses governos de financiar programas sociais, levando os eleitores a querer mudanças. Só o boliviano Evo está em situação um pouco diferente da de outros socialistas atingidos pela maré mudancista.

Em novembro, o conservador Mauricio Macri foi eleito presidente da Argentina, encerrando 12 anos de governos esquerdistas. A oposição venezuelana assumiu o controle do Parlamento pela primeira vez em 17 anos. A presidente brasileira, Dilma Rousseff, luta contra o impeachment enquanto a economia de seu país afunda. Estaria próximo um revés também para Evo?

Eleito para um terceiro mandato em 2014 numa lavada eleitoral, ele ainda goza de mais de 60% de popularidade, segundo as pesquisas mais recentes. As acusações oposicionistas de corrupção e autoritarismo até agora não o atingiram. Tampouco o afetou um vídeo exibido meses atrás em que aparecia ordenando a um ajudante que se abaixasse e amarrasse os sapatos presidenciais.

Evo, o primeiro presidente de indígena da Bolívia, pode ser também o socialista politicamente mais bem informado de toda a América do Sul.

Sua boa-fé esquerdista não é questionada. Ele adora fustigar “o império” (leia-se EUA) e expulsou o embaixador americano e funcionários da DEA, a agência antidrogas americana, em 2008. E, principalmente, é “o cara” que deu ao papa Francisco um crucifixo em forma de foice e martelo.

Mas uma coisa é a política do dia a dia. Outra é a grande política – e nessa Evo tem se mostrado um expert.

Pequenos produtores. Um exemplo: o presidente está impulsionando uma série de novas leis para promover a pequena indústria vinícola da Bolívia. Ele determinou a ministros que trabalhem com os vinicultores para reduzir impostos e incentivar a exportação. Anunciou que atuará pessoalmente na promoção do vinho boliviano em suas viagens ao exterior.

A maioria das pessoas pensa logo em alpaca e quinoa quando imagina produtos bolivianos. No entanto, um pequeno número de famílias produz vinhos há gerações no Departamento de Tarija, de baixa altitude, cujo clima ameno e seco é propício para a vinicultura. O país também produz um tipo de conhaque chamado singani, cuja exportação Evo também quer promover.

Enquanto esse tipo de promoção local é comum na maioria dos países, outros socialistas sul-americanos não se inclinam a se alinhar com negócios privados. Na Venezuela, principalmente, a tendência do finado Hugo Chávez – e agora de seu agressivo sucessor, Nicolás Maduro – é a de acusar o setor privado de sabotagem econômica e tomar seus bens.

Mas Evo trilhou um longo caminho desde os tempos iniciais de seu primeiro mandato, quando as regiões mais prósperas das terras baixas ameaçavam se separar da Bolívia. Passada uma década, após anos de crescimento econômico sustentado e disciplina fiscal, o presidente conquistou amplo apoio até no Departamento de Santa Cruz, centro financeiro do país.

Durante a última década, o presidente aplicou dividendos da crescente exportação de soja, gás natural e minério em programas sociais populares e projetos de infraestrutura, como o popularíssimo Teleférico, sistema de transporte por cabos aéreos em La Paz.

Mas também aumentou, com diligência, as reservas bolivianas de divisas estrangeiras até um grau que hoje permite segurar o baque advindo da queda no preço das commodities. A relação entre reservas de moeda estrangeira e o PIB, indicador de prudência fiscal, está entre as mais altas da América Latina.

O referendo de 21 de fevereiro dá a Evo outra chance de vencer nas urnas mesmo com a provável futura necessidade de apertar ainda mais o cinto. E renova também a chance de reeleição se ele decidir disputar de novo, avalia o próprio Evo: “Se o povo quiser que eu fique, vai dizer isso com o voto”. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

NICK MIROFF É JORNALISTA DO THE WASHINGTON POST

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