A boa cobertura e o jornalismo corajoso

A recente prisão de quatro repórteres do ''Times'' serve como um poderoso lembrete do perigo que os jornalistas enfrentam em todo o mundo para obter a notícia

, O Estado de S.Paulo

23 de março de 2011 | 00h00

THE NEW YORK TIMES

Num mundo em que a maioria das pessoas consome as notícias em segurança, talvez numa poltrona confortável usando algum tipo de dispositivo eletrônico, vale lembrar o quanto o trabalho de reportagem e apuração se tornou perigoso nos últimos tempos. Na segunda feira, a libertação de quatro membros da equipe do New York Times na Líbia serviu como um poderoso lembrete dos perigos que os jornalistas enfrentam em todo o mundo.

Anthony Shadid, chefe da sucursal de Beirute do Times; os fotógrafos Tyler Hicks e Lynsey Addario; e Stephen Farrel, repórter e cinegrafista, foram libertados quase seis dias depois de terem sido capturados no leste da Líbia por forças leais ao coronel Muamar Kadafi.

Diplomatas turcos intervieram em prol dos jornalistas e os ajudaram a deixar a Líbia na noite de segunda-feira.

Este final feliz é relativizado pelo fato de haver tantos jornalistas sob ataque no trabalho em todo o mundo. O Comitê para a Proteção dos Jornalistas relata que 852 jornalistas foram mortos desde 1992, quando a organização começou a acompanhar este dado. Recentemente, na Líbia, um jornalista da internet e um repórter da Al-Jazira foram mortos enquanto cobriam os combates perto de Benghazi.

O Newseum, um museu dedicado à mídia jornalística em Washington, relatou que mais de 160 jornalistas morreram no Iraque desde o início da guerra, em 2003. O número é maior do que a soma dos jornalistas mortos nas duas guerras mundiais, na Coreia e no Vietnã.

Este sempre foi o risco trágico envolvido na cobertura de uma guerra.

Mas, com frequência cada vez maior, os jornalistas são também alvo dos governos repressivos - na Rússia, no México, nas Filipinas e agora no Oriente Médio. A Turquia, tão prestativa ao ajudar nossos jornalistas, possui um histórico doméstico bastante decepcionante em relação ao tratamento da mídia turca.

O Comitê para a Proteção dos Jornalistas documentou mais de 50 ataques contra a imprensa na Líbia desde o início dos problemas políticos no mês passado. Eles incluem 33 detenções, 2 ataques contra instalações da mídia, a interferência nas transmissões e a interrupção do acesso à internet. Ao menos seis jornalistas locais estão desaparecidos e as autoridades líbias ainda mantêm sob custódia quatro jornalistas da Al-Jazira. A agência France Presse anunciou que dois de seus jornalistas estão desaparecidos na Líbia.

A BBC relatou que três de seus jornalistas foram espancados, submetidos a simulações de execução e obrigados a testemunhar a tortura de outros líbios em alojamentos do Exército. Nos dias de hoje, as notícias fluem com tamanha liberdade e facilidade - nos sites, aplicativos para celulares, no Facebook, no Twitter e no YouTube - que nem parecem ser o produto de um grande esforço.

Mas a sua produção ainda exige a boa e velha coragem e perseverança. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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