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A bomba norte-coreana

A Coreia do Norte prossegue com seus testes nucleares, como se estivesse rigorosamente indiferente aos rugidos e à indignação que se levantam de um canto a outro do mundo após cada explosão.

Gilles Lapouge, O Estado de S. Paulo

14 de setembro de 2016 | 05h00

A Coreia do Norte prossegue com seus testes nucleares, como se estivesse rigorosamente indiferente aos rugidos e à indignação que se levantam de um canto a outro do mundo após cada explosão. Pyongyang, a capital norte-coreana, zomba desse furor. O ditador Kim Jong-un, filho do ditador Kim Jong-il e neto do ditador Kim Il-sung, vai em frente com seu programa.

A força da última explosão foi calculada em 10 quilotons, próxima à da bomba de Hiroshima. Washington, assim como a ONU, respondeu com ameaças de sanções. Mas a própria cabeçorra hilária de Kim Jong-un já é uma resposta irônica às repreensões americanas.

O que choca no caso, porém, é o tratamento diferente dado por Washington a alguns dos denominados “Estados renegados”, como Cuba, Mianmar, Irã e Coreia do Norte.

Com os três primeiros, Cuba, Mianmar e Irã, os americanos têm procurado dialogar nos últimos anos. Não com a Coreia do Norte. Washington resume sua posição em relação ao país com a expressão “paciência estratégica”, que pode ser traduzida assim: “Esperemos. A Coreia do Norte é um país tão fora do tempo que acabará por desmoronar sozinha”. Os EUA esperavam, particularmente, que o regime alucinado de Pyongyang não sobrevivesse à morte de Kim Jong-il, pai do atual ditador.

O problema é que a Coreia do Norte teima em não se acabar. Continua lá. Comemorou nesses dias o 68.º aniversário de criação. E, mais surpreendente: mesmo que o atual chefe pareça ainda mais fanfarrão que os antecessores, seu regime vem obtendo alguns modestos resultados.

Kim Jong-un pôde prometer a seu povo que logo não haverá mais necessidade de apertar o cinto, otimismo corroborado pelos raros visitantes estrangeiros autorizados a entrar na Coreia do Norte. O padrão de vida no país melhorou nitidamente de alguns anos para cá, principalmente em alimentação e vestuário. Pelo menos é o que ocorre na capital, pois para o restante do país nenhum estrangeiro pode viajar.

No plano diplomático, porém, a Coreia do Norte parece mais isolada que nunca. No passado, entre 1998 e 2008, a Coreia do Sul, capital Seul, praticava em relação à do Norte a sunshine policy, a política das mãos estendidas, na qual se multiplicavam os contatos a fim de diminuir as tensões. Mas essa iniciativa teve fim com a chegada ao poder em Seul do governo conservador de Lee Myung-bak, seguido pelo da sra. Park Geun-hye, que o sucedeu em 2013.

Prova do endurecimento sul-coreano foi a decisão de instalar um sistema defensivo de mísseis americano – o que irritou bastante tanto a China como a Rússia e facilitou à Coreia do Norte melhorar as relações com esses países.

Quanto ao Japão, o governo de direita dura, muito dura, de Shinzo Abe recusou-se a condenar o passado militarista japonês (antes e durante a última guerra mundial), o que não combina com a détente. Significaria isso que a via diplomática fracassou e a escalada nuclear vai prosseguir? Os especialistas acham que não. Eles lembram que o povo norte-coreano, após tantos anos de pobreza, solidão, Estado policialesco, penúria e até fome, está impaciente para se ver livre do terrível aperto no qual vive. As recentes melhorias no cotidiano aguçaram o apetite de felicidade.

Ao contrário do avô e do pai, o bizarro atual dirigente Kim Jong-un sempre fez da economia uma de suas prioridades. Sob essa análise, a busca do programa nuclear deve ser vista não em termos estritamente militares ou bélicos, mas em termos de economia. Os pressupostos de uma eventual negociação seriam hoje em torno de ajuda econômica substancial em troca do compromisso de pôr fim ao programa nuclear.

Alguns interpretam como vontade de negociar a exigência manifestada por Pyongyang: Kim Jong-un quer que a questão nuclear seja examinada “no quadro de conversas iniciais conduzidas com vistas a um tratado de paz entre as duas Coreias”. De fato, por mais estranho que possa parecer, há um armistício estabelecido em 1953 entre as duas Coreias, armistício esse ao qual nunca se seguiu um acordo de paz de fato. Daí a existência de uma das guerras mais longas de nossa época, uma guerra quase centenária.

Se entendemos o pedido de Kim Jong-un, o fim oficial da Guerra da Coreia seria uma preliminar, ou um passo inicial, com vistas a encerrar o litígio nuclear. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

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