A busca inconclusa da América Latina

É difícil prever o que ocorrerá com o crescimento na região ao sul do Rio Grande se e quando os preços das commodities caírem

Andrés Velasco, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2013 | 02h07

Os participantes chegaram, os convidados europeus saudados, discursos foram proferidos, brindes foram feitos e, no final, a reunião anual da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e do Caribe, (Celac) foi aclamada como um sucesso.

Mas o que restou na manhã seguinte foi a sensação clara de uma região que está profundamente dividida, sem um objetivo comum e, sobretudo, sem liderança.

Em primeiro lugar, a boa notícia: os quatro principais países da orla do Pacífico - México, Colômbia, Peru e Chile - adotaram importantes medidas para aprofundar seu acordo de integração e comércio. No fim deste ano, 90% de todo o comércio praticado no bloco estará livre de tarifas. A Costa Rica solicitou sua adesão e o Japão foi aceito como observador. Esta aliança do Pacífico, com quase 40% do PIB latino-americano e US$ 500 milhões de exportações anuais, tem potencial para se tornar uma força motriz do crescimento econômico da região.

A saúde do presidente venezuelano, Hugo Chávez, o impediu de participar do encontro, mas os chefes de Estado que seguem sua liderança compareceram em bloco e coletivamente rejeitaram um pedido europeu para ser incluída na declaração final uma garantia de que as regras de investimento não serão mudadas arbitrariamente.

O presidente boliviano, Evo Morales, usou o fórum para criticar o Chile e reiterar as reivindicações territoriais do seu país. Quando, no final, o presidente cubano, Raúl Castro, assumiu a presidência rotativa da Celac, instituição presumivelmente dedicada a ampliar a democracia, nem mesmo os mais experimentados diplomatas conseguiram disfarçar o sorriso irônico.

A Celac, que exclui explicitamente os Estados Unidos e o Canadá, foi criada em 2010 para que os países da América Latina e Caribe pudessem determinar seu próprio rumo no sentido de políticas democráticas e de uma prosperidade compartilhada. O que não fizeram.

Claro que muitos países da região são nominalmente democráticos. Mas a liberdade política não existe em Cuba e a governança democrática está sob desafio permanente na Venezuela e em outras partes.

É verdade que muitas economias da região cresceram desde a crise, beneficiando-se de um ambiente internacional caracterizado por preços exorbitantes das commodities e taxas de juro baixíssimas. Mas, em razão da competitividade limitada e pouca capacidade para inovar, ninguém sabe o que ocorrerá com o crescimento na América Latina, se e quando os preços das commodities caírem.

Da mesma maneira, a desigualdade diminuiu em alguns países. Mas a região permanece a mais desigual do planeta e os mercados de trabalho e escolas que funcionam muito mal sugerem que a situação permanecerá a mesma num futuro previsível.

Se perguntar aos líderes latino-americanos e caribenhos como pretendem enfrentar tais desafios, você terá uma cacofonia de respostas, nem todas coerentes. As raízes do problema estão nas décadas de 80 e 90.

Nessa época, os governos de diversos países latino-americanos fizeram tentativas radicais para desregulamentar suas economias e abri-las para o comercial internacional e o capital externo.

Algumas reformas de liberalização dos mercados já estavam muito atrasadas nesses países. Mas privatizar sem políticas de concorrência mais vigorosas levou em muitos casos à criação de monopólios privados que cobravam preços altos por serviços e produtos medíocres.

Da mesma maneira, permitir as enormes entradas de capital antes de regulamentar adequadamente o sistema bancário interno provocou uma explosão de empréstimos e crises financeiras em massa. Os custos econômicos e sociais dessas estratégias equivocadas foram enormes.

Um retrocesso era inevitável. E de fato o populismo, tão familiar na história da região, fez um retorno estrondoso na Argentina, Bolívia, Equador, Venezuela e em outros lugares. A retórica adotada é no estilo dos anos 60 e anticapitalista e as políticas adotadas têm sido erráticas e quase sempre arbitrárias. E apesar das receitas inesperadas propiciadas pelo boom global das commodities na década passada, os resultados deixam muito a desejar.

Na Venezuela, a renda per capita hoje está menor do que há três décadas. Na Argentina, o governo resolveu o problema da inflação persistente, de 20% ou mais, manipulando os dados sobre preços.

Naturalmente os países que tiveram melhor desempenho são aqueles que evitaram tanto o fanatismo da direita como o populismo da esquerda. O Brasil sob o governo dos presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva deve ser lembrado neste aspecto, juntamente com o Chile.

Nesses casos, os incentivos com vistas ao investimento e crescimento foram combinados com ambiciosas políticas sociais. A renda se expandiu e a pobreza caiu, enquanto um amplo conjunto de indicadores de desenvolvimento humano melhorou.

Brasil e Chile não têm todas as respostas: os dois países ainda exibem muita desigualdade e seus sistemas de ensino são medíocres, para citar dois problemas arraigados. Mas ambos os países parecem ter encontrado mais respostas do que outros com propostas alternativas. Então, por que Brasil e Chile não se tornam modelos de desenvolvimento de centro-esquerda modernos para a região?

No Chile, a coalizão de partidos Concertación foi uma defensora inútil de suas próprias realização, porque líderes mais velhos da mesma aliança nunca aprovaram as políticas moderadas que eram implementadas.

O Brasil, um país muito maior, seria o candidato natural para liderar ideológica e politicamente a região. Mas não desejando confrontar Chávez e muito ansioso por ser o melhor amigo de todos, o país renunciou a esse papel.

Imagine uma futura reunião da Celac em que a presidência do órgão seja outorgada a um líder progressista, moderno, que consiga impor um programa convincente no sentido das liberdades pessoais, crescimento econômico e inclusão social. Imagine um encontro em que defender a democracia seja algo mais do que uma pilhéria cruel. É pedir muito? Uma geração inteira de latino-americanos espera que não. / / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* É EX-MINISTRO DAS FINANÇAS DO CHILE, PROFESSOR-VISITANTE NA SCHOOL OF INTERNATIONAL AND PUBLIC AFFAIRS DA UNIVERSIDADE DA COLUMBIA. FOI CONSULTOR DO FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL, BANCO MUNDIAL E DO BANCO INTERAMERICANO DE DESENVOLVIMENTO, COMO TAMBÉM DE DIVERSOS GOVERNOS LATINO-AMERICANOS

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