A busca por uma influência sustentável

O Brasil pode ser um parceiro importante dos EUA no processo de recuperar o crescimento se antigas e petulantes rivalidades puderem ser deixadas para trás

É COLUNISTA, ROGER, COHEN, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, ROGER, COHEN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2012 | 03h03

Vim ao Brasil nos anos 80, numa época de dinheiro engraçado. A inflação chegou ao pico de 6.821% ao ano em abril de 1990. Hoje, trata-se de um país de preços engraçados. Um vinho tinto chileno comum pode ser encontrado por R$ 100, e um par de tênis de marca chega a custar R$ 350. Paris e Nova York parecem ser o paraíso das compras.

O dinheiro engraçado recebeu muitos nomes diferentes - cruzeiro, cruzado, cruzado novo, cruzeiro real - na busca por uma credibilidade fugidia. Mas o Brasil tinha apenas um nome: instabilidade. Então se sucederam a introdução do real em 1994, as instituições democráticas robustas, a reforma monetária, as privatizações, a prosperidade nas commodities, o comércio com a China, expressivas descobertas de petróleo - e a pizza margherita por R$ 45.

Esta pizza brasileira da era da prosperidade me deixa melancólico. É preciso certa dose de arrogância para oferecer um pão redondo assado por tal preço - justamente a arrogância que desapareceu do Ocidente.

Estamos vivendo a grande inversão global. A etiqueta com o preço traz uma mensagem clara: você já era, meu caro! Ao menos, esta é a impressão que se tem. Funcionários do Citibank já enxergaram o Brasil como um caso perdido: o presente mostra o quanto esta maré virou. O capitalismo brasileiro tem prosperado mais do que o capitalismo americano nos últimos anos, e muito mais do que os bancos americanos. A desigualdade, ainda acentuada, foi muito reduzida no País com os governos mais recentes. De todas as commodities brasileiras em crescimento, a confiança é a que mais chama a atenção.

Pizza de grife. Vamos desconstruir esta pizza de grife. Afinal, ela vende bem. Por trás da massa, do molho de tomate e da mussarela, caríssimos, jaz uma moeda brasileira supervalorizada. Por trás desta moeda há juros altos o bastante e um país estável o bastante para atrair as corporações multinacionais e convencer os ricos a aplicar seu dinheiro aqui. Por trás desta opção de investimento há crises na Europa e nos Estados Unidos que reduziram o valor das principais moedas, em parte por meio das infusões de dinheiro promovidas pelo Banco Central, conhecidas como afrouxamento quantitativo.

Em resumo, trata-se de uma pizza-indicadora. Acredita-se mais no Brasil do que na Europa do euro frágil ou nos EUA e sua frágil indústria financeira. Com suas reservas submarinas de petróleo e seu compromisso de organizar a Olimpíada no seu território, o próspero Brasil proporciona a imagem espelhada de um Ocidente quebradiço.

Aqueles que procuram a promessa das Américas vão encontrá-la aqui. Em 2012, a pauta global não traz foco mais importante do que a busca por um equilíbrio entre os extremos do otimismo do mundo em desenvolvimento e a morosidade do mundo desenvolvido. As guerras pós-11 de Setembro estão no fim ou já acabaram. Não foram totalmente perdidas, mas não houve vitória.

O recente surto assassino que acometeu o sargento Robert Bales - soldado americano que cumpria no sul do Afeganistão seu quarto período de alistamento em combate nestas guerras, enfrentava problemas financeiros e temia perder a casa própria - resumiu as frustrações destes conflitos.

Bales perdeu o juízo. Muitos perderam tudo. Depois das guerras e dos trilhões de dólares consumidos por elas vem a árdua tarefa de superar o endividamento, os déficits, o desemprego estratosférico, o crescimento anêmico e a autoestima abalada.

Esta recuperação de um período de dificuldade só pode ser o resultado de um esforço conjunto. Economias em desenvolvimento como China e Brasil terão de aceitar uma redução no seu superávit se quisermos deixar para trás os debilitantes déficits do Ocidente.

Este real supervalorizado, que castiga o setor manufatureiro que tenta exportar, faz tão mal ao Brasil quando faz à Europa um euro que passa por sucessivas operações de resgate. Brasil, China e as demais economias emergentes não são ajudados por gigantes como EUA e Europa quando estes se encontram dominados pela dúvida e afetados pelo desemprego entre os jovens. O mundo ainda está procurando uma saída sustentável para a quebra de 2008. Medidas paliativas de alto custo moral conseguiram evitar o pior. Mas não foram estabelecidos novos alicerces econômicos de maior credibilidade.

Quando Greg Smith, um executivo que deixava o Goldman Sachs, escreveu recentemente no New York Times, "Fico doente ao ver como as pessoas são insensíveis ao falar em passar a perna nos próprios clientes", sua revolta com a própria empresa refletiu uma inquietação generalizada em relação às grandes instituições financeiras americanas, resgatadas com o dinheiro do contribuinte sem nunca terem sido obrigadas a arcar com a responsabilidade pela crise de 2008.

A cultura que produziu este desastre não foi desmantelada; em certos casos, não foi nem mesmo questionada. Enquanto isso, pessoas como o sargento Bales foram para a guerra e milhões de americanos se viram diante da execução hipotecária. Um dos resultados disto foi o movimento Occupy. Outro foi a impressão de que um capitalismo distorcido de mobilidade social reduzida não está funcionando.

Nos próximos meses, nas reuniões de Camp David (G-8), da Cidade do México (G-20) e do Rio (Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável), os líderes mundiais vão analisar mais uma vez aquilo que pode ser feito. Não existem soluções rápidas. Mas o foco deve ser o estímulo ao crescimento: como indica a agonia vivida por Grécia e Espanha, lidar com problemas de déficit na ausência de algum crescimento não funciona.

Mas, por si mesmo, o crescimento não é suficiente. O mundo está aprendendo que o crescimento precisa ser melhor distribuído e mais sustentável. Para se chegar a tal resultado será necessária uma reforma fiscal, uma estrutura global de regulação e o uso mais sensato dos recursos. Um código tributário americano que permitiu a milionários como Mitt Romney pagar imposto de renda de 13,9% sobre uma renda de US$ 21,6 milhões em 2010 alimentou a ira da classe média, que paga uma proporção muito maior.

Justiça e igualdade de oportunidades são valores americanos essenciais; estes foram erodidos. O resultado é um clima nacional que tornará mais árdua a luta de Barack Obama pela reeleição em novembro, apesar da palhaçada que costuma dominar as primárias republicanas.

Parceiro. Obama precisa alterar a percepção que os americanos têm do futuro. Ele é o sr. competência; precisa se tornar o sr. confiança. Para tanto, o crescimento é fundamental. O Brasil, único país de dimensões e diversidade comparáveis no Ocidente, pode ser um parceiro importante neste processo se antigas e petulantes rivalidades puderem ser deixadas para trás.

Talvez a América Latina e a transformação pela qual ela passou no último quarto de século não tenham recebido a devida atenção. Afinal, estamos no início de outra marcante mudança regional conhecida como Primavera Árabe. Os paralelos são interessantes. É importante destacá-los, pois a vitória no Egito - o processo de forjar, na próxima geração, uma sociedade mais aberta e responsável que desfrute de um robusto crescimento econômico como o brasileiro - tornou-se agora mais importante para os interesses do Ocidente do que o resultado preciso no Afeganistão. A democracia árabe pode combater o extremismo exatamente como ocorreu com a democracia latino-americana.

A junta militar argentina deixou o poder em 1983. O governo militar brasileiro caiu em 1985. O regime militar chileno foi derrotado num referendo em 1988, o que resultou na sua saída. Todos estes regimes brutais receberam o apoio dos EUA. Eles eram considerados a única defesa contra o comunismo revolucionário - assim como ditadores da Tunísia ao Egito foram apoiados pelo Ocidente como a única defesa possível contra o radicalismo islâmico.

Ex-guerrilheira. A presidente do Brasil, Dilma Rousseff, fazia parte destes esquerdistas. Ela foi torturada pelos militares e ficou detida de 1970 a 1973. Agora, passado pouco mais de um ano do início de sua presidência, ela governa com um pragmatismo que combinou políticas capazes de tranquilizar os líderes do empresariado com programas que trouxeram milhões de brasileiros para a classe média. Gosto de imaginar que a ex-guerrilheira Dilma é um exemplo daquilo que um ex-radical da Irmandade Muçulmana poderá ser daqui a 20 anos.

O Islã político está sendo redefinido para levar em consideração a modernidade e as demandas dos muçulmanos por mais transparência e responsabilidade governamental. Adaptando-se às responsabilidades do poder, movimentos como a Irmandade Muçulmana no Egito e o Ennahda na Tunísia encontram-se no coração desta guinada. As mudanças serão assimétricas, às vezes violentas, mas avançarão no sentido de uma maior abertura.

Independentemente de serem seculares ou religiosas, as formas de governo que reduzam países a feudos particulares, como a Síria de Bashar Assad, estão condenadas. Talvez Assad continue em cena por mais algum tempo, mas não há caminho de volta para ele, assim como não houve caminho de volta para os militares na América Latina depois que a cultura democrática fixou suas raízes. Pôr fim à tirania dele após o assassinato de mais de 7 mil sírios deve ser uma das prioridades na pauta global.

Questão nuclear. O mesmo deve valer para o desafio de evitar uma guerra com o Irã. Não creio que Israel atacará o Irã enquanto Obama deixar clara sua oposição resoluta. Em termos da relação custo-benefício, não há justificativa para um ataque - os israelenses não são loucos.

À esta altura, o Ocidente conhece o custo da guerra - não apenas em termos de vidas e recursos, mas também da distorção do debate nacional, adiando decisões fundamentais nos setores do ensino, dos recursos energéticos e da infraestrutura. Os relatórios dos melhores serviços de informações do Ocidente dizem que o Irã ainda não converteu suas décadas de experimentos nucleares na capacidade de fabricar uma bomba e, portanto, ainda há tempo. As negociações serão agora retomadas entre o Irã e as principais potências. Se não forem criativas, tais negociações fracassarão.

O Irã quer ter reconhecido seu direito de enriquecer material radioativo. Este só lhe pode ser concedido se a atividade de enriquecimento tiver limites verificáveis e baixos (cerca de 5%) como aqueles necessários para a geração de eletricidade, sendo impossibilitada de atingir um patamar de enriquecimento superior.

Assim, voltamos ao Brasil: devemos dar vida nova à ideia sugerida por Brasil e Turquia (mas concebida originalmente nos EUA), segundo a qual o urânio enriquecido a 20% necessário para o reator médico de Teerã será fornecido por outro país em troca da limitação permanente do enriquecimento em 5%, assim como a transferência de parte do urânio enriquecido para o exterior. Ao mesmo tempo, o diálogo com Teerã deve ser ampliado.

A questão nuclear iraniana não pode ser solucionada por meio do isolamento, e ninguém pode resolvê-la por conta própria. Além disso, é impossível superar o problema sem as potências emergentes, como Brasil e Turquia - as únicas capazes de superar a desconfiança psicótica que existe entre Irã e Estados Unidos. Aquilo que vale para o Irã aplica-se também à economia: um mundo interligado precisa trabalhar junto de formas nunca antes imaginadas para encontrar soluções eficazes.

No dia 27 de julho, os Jogos Olímpicos de Londres terão início. A capital britânica está nos últimos estágios de seus preparativos para esta celebração global. Talvez o avanço de maior importância social até o momento seja o amplo passeio que liga o Hyde Park ao Victoria and Albert Museum.

A um custo de quase US$ 40 milhões, a Exhibition Road foi convertida na "prova A" da revolução cosmética de Londres. Um padrão xadrez de granito branco e preto espalha-se por toda a largura da via em ambos os lados de uma fileira de esguios postes de iluminação que se assemelham mais a imponentes holofotes do que a postes tradicionais. O efeito produzido é onírico, especialmente depois que reparamos na ausência de calçadas.

Carros, ciclistas e pedestres locomovem-se por uma mesma superfície desprovida de sarjeta ou meio-fio. A área dos pedestres é separada da área dos carros por canais de drenagem de ferro fundido e um trecho de pavimentação de alto relevo (destinada aos deficientes visuais). Trata-se de uma nova forma de planejamento urbanístico conhecida no meio como "espaço compartilhado".

Conscientização. O conceito do "espaço compartilhado", proposto pelo engenheiro de tráfego holandês Hans Monderman, inverte o raciocínio habitual a respeito da segurança nas vias públicas. Durante boa parte do século 20, todos supuseram que um tráfego eficiente dependia da completa separação entre carros e pedestres, complementada pelos sinais de trânsito, placas, barreiras e formas de sinalização que mantinham as pessoas em segurança.

Monderman, que morreu em 2008, pensava diferente. Ele queria promover a conscientização coletiva e a responsabilidade ao deixar de lado tanta sinalização e separação. Monderman acreditava que a segurança seria mais garantida se todos os viajantes se tornassem extremamente conscientes uns dos outros. Às vezes ele testava suas ideias - adotadas em várias cidades holandesas, assim como em algumas localidades na Alemanha e na Escandinávia - ao caminhar de costas no sentido contrário da circulação numa área de espaço compartilhado. O funcionamento de suas teorias foi comprovado.

O espaço compartilhado não é uma metáfora ruim para o mundo de hoje, um lugar em que a antiga sinalização perdeu o propósito, onde a separação é uma ilusão e no qual orientar-se com sucesso é algo que depende de uma profunda consciência de todos os envolvidos, de Ipanema a Teerã, passando por South Kensington. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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