A caçada aos bilhões de Mubarak

Família de ex-presidente tenta proteger fortuna acumulada

Philip Shanon, The New York Times, O Estado de S.Paulo

22 de fevereiro de 2011 | 00h00

Com a saída do velho faraó, começou a caçada ao seu tesouro. Um funcionário de alto escalão do serviço de inteligência ocidental informou que as agências de espionagem europeias detectaram nas últimas semanas algumas tentativas do ex-presidente egípcio Hosni Mubarak e de sua família de transferir seus fundos - cujo total chegaria a bilhões e até mesmo dezenas de bilhões de dólares - para contas bancárias e investimentos onde não possam ser identificados no Egito.

"Estamos a par de conversações urgentes da família Mubarak sobre maneiras de salvar esses bens, e acreditamos que seus assessores financeiros já movimentaram parte do dinheiro", disse uma fonte que não quis informar de que modo as conversações foram monitoradas.

As conversas teriam ocorrido antes da renúncia de Mubarak e antes que os bancos suíços anunciassem que haviam congelado as contas supostamente pertencentes a Mubarak e a seu clã. "Se ele tinha dinheiro de fato em Zurique, é possível que este já tenha sumido", disse a fonte.

Segundo o funcionário da inteligência, a CIA e outras agências de espionagem ocidentais acreditam que as informações recentes de que a fortuna de Mubarak chegava a US$ 70 bilhões eram "exageradas e ninguém, nem o próprio Mubarak, saberia realmente quanto a família possui". Entretanto, o funcionário acrescentou que "é correto supor que ele é um bilionário, provavelmente multibilionário - aliás vem ficando com sua fatia há um bom tempo".

Ao que tudo indica, agora Mubarak passará grande parte do tempo como outros déspotas obrigados a deixar o poder nos últimos anos: defendendo-se de ações nos tribunais em todo o mundo com o objetivo de encontrar e sequestrar os ganhos ilícitos da família.

Entre os outros réus nas batalhas judiciais de Mubarak provavelmente estarão várias figuras fiéis a ele no governo egípcio, e alguns dos generais do Exército que agora governam provisoriamente o Egito depois da expulsão do ex-presidente.

A esperança do ex-presidente de não ser obrigado a ir para o exílio talvez seja inspirada pelo medo dos generais do que ele possa revelar sobre a corrupção que se espalhou nas Forças Armadas do Egito, se a família Mubarak fosse sujeita às leis de um país hóspede pouco amistoso.

Diplomatas e estudiosos especializados em assuntos egípcios afirmam que, embora quase certamente a fortuna de Mubarak esteja bem escondida em contas secretas em bancos e em investimentos de corporações de fachada, pode haver alguns caminhos para chegar ao dinheiro, principalmente seguindo a trilha de várias empresas lucrativas do filho mais novo de Mubarak, Gamal.

O sofisticado Gamal, de 47 anos, que considera Londres sua segunda pátria, onde costuma morar em uma casa em estilo georgiano de seis andares em Knightsbridge, a dois passos da Harrods e de Hyde Park, parecia prestes a suceder ao pai.

Arwa Hassan, especialista sobre Oriente Médio para a organização de combate à corrupção Transparency International disse que, ao que tudo indica, Gamal é o centro das finanças da família Mubarak. Ele costuma aproximar-se de empresas bem sucedidas que operam no Egito e insiste para ser colocado em seu conselho de direção ou num cargo executivo de alto escalão na tentativa nada sutil de pegar sua parte.

"Era realmente muito comum Gamal Mubarak aproximar-se de uma empresa bem-sucedida e dizer: "Deixem que eu me associe à sua empresa"", disse Hassan. "Ouvi isso de muitas fontes. Acho que não é nenhum segredo."

O fato de Mubarak ser tão rico ou mesmo mais rico que muitos de seus colegas do mundo árabe poderia parecer espantoso considerando os seus esforços muitas vezes bem-sucedidos, ao longo de 30 anos, de se apresentar como um homem simples, despretensioso, que nunca buscou o poder - ou a riqueza -, mas foi obrigado a se tornar presidente por causa do assassinato do seu predecessor, Anwar Sadat.

Sua suposta riqueza é particularmente chocante considerando a pobreza da população. O egípcio médio tem uma renda de US$ 6 mil ao ano, e cerca de 20% da população ganha o equivalente a menos de US$ 1 por dia.

Christopher Davidson, um estudioso do Oriente Médio na Universidade Durham na Grã-Bretanha, disse que Mubarak foi acumulando riquezas com uma rapidez que envergonharia alguns de seus vizinhos mais cobiçosos, e insiste que a família Mubarak e seus apaniguados receberam uma boa parcela das centenas de bilhões de dólares em investimentos externos que saíram do país nos anos em que se manteve no poder.

"Acho que esse é um fato ao qual a imprensa internacional nunca deu muita atenção", disse Davidson. "Mas em qualquer rua árabe, é sabido e notório. Os Mubaraks são uma das famílias mais ricas do mundo. Eles controlam um enorme império de recursos cuidadosamente amealhados."

Ele disse temer que a maior parte do dinheiro de Mubarak nunca venha a ser encontrada, por mais agressiva que seja a busca.

"Famílias como a de Mubarak pagam muito para garantir que as investigações para encontrar seu dinheiro não levem a parte nenhuma", afirmou. "Sua riqueza provavelmente foi espalhada de maneira muito prudente - e muito inteligente". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É REPÓRTER

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