A calma da vítima diante do carrasco do EI

Se os três homens executados pelos jihadistas se mantiveram calmos naquelas circunstâncias, não foi certamente por estarem em paz

AKI, PERITZ, THE WASHINGTON POST , O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2014 | 02h01

Desde meados de agosto, o Estado Islâmico tinha divulgado até ontem três vídeos mostrando a execução de três reféns ocidentais. Já nos acostumamos a ver essas brutais exibições, mas o que impressiona muita gente é a calma e a clareza com que as vítimas fazem suas últimas declarações denunciando os próprios governos. Por que esses homens não estavam apavorados? Por que não reagiram?

Admito que não consigo imaginar se eu me manteria tão controlado diante da morte iminente. No entanto, depois de assistir a vários desses vídeos, cheguei a estabelecer três pontos que poderão explicar por que James Foley, Steven Sotloff e David Haines fizeram aqueles discursos de propaganda da maneira como fizeram.

Talvez os reféns não soubessem que seriam imediatamente mortos. Os vídeos do EI têm alguma coisa estranha: nunca mostram o refém sendo efetivamente assassinado. Ao contrário, o vídeo sempre corta exatamente antes do gesto acontecer. O que sugere que o refém não se deu conta de que estava prestes a morrer.

Talvez isso seja proposital. Os predecessores do Estado Islâmico não tinham o menor constrangimento em dizer a seus prisioneiros que sua morte era iminente. Nesses vídeos da guerra do Iraque, alguns reféns parecem estar num transe catatônico, esperando mansamente o fim.

Os poucos que discursaram antes de ser decapitados estavam completamente arrasados. Lembro do vídeo de um refém em particular que pediu que poupassem sua vida; seus assassinos não tiveram nenhuma misericórdia. Foi horrível olhar, embora eu tivesse de fazê-lo como analista da CIA.

Entretanto, outros se mantêm numa atitude de desafio até o fim. Em 2004, um empreiteiro italiano da área de segurança, Fabrizio Quattrocchi, capturado pelo Exército do Islã, gritou: "Vou mostrar para vocês como morre um italiano". E tentou tirar o capuz imediatamente antes de receber o tiro. Aqueles indivíduos, porém, sabiam sem dúvida que aquele era seu fim. As vítimas ocidentais mais recentes do EI - os calmos personagens que vemos nas gravações - talvez não soubessem o que estava para acontecer, por isso se mantiveram articuladas e dóceis nos últimos momentos.

Tortura. Mesmo que suspeitassem que a certa altura morreriam, estavam sendo tremendamente pressionados a obedecer a seus captores. Devo lembrar que esses homens estavam presos havia meses, submetidos a sofrimentos físicos e psicológicos. Foley estava no cativeiro desde novembro de 2012, Haines desde março de 2013, e Sotloff desde agosto de 2013.

Sem sombra de dúvida, foram tratados com grande crueldade e ameaçados de morte inúmeras vezes. Sabemos disso porque um jornalista francês que estava preso com Foley disse que ele teve de suportar várias simulações de execução.

Além disso, John Cantlie - que recentemente reapareceu em outro vídeo do Estado Islâmico - tinha sido feito refém na Síria anteriormente, capturado por um grupo de jihadistas que o vendaram, colocaram um capuz na sua cabeça e frequentemente afirmaram que o matariam. É possível que os três tenham sido mantidos em circunstâncias semelhantes.

Essas condições extremas provocam um desgaste emocional terrível. Os reféns devem ter pensado que pronunciar aqueles discursos favoráveis ao EI era mais um ato indigno que tinham de suportar. Por outro lado, talvez eles tenham tomado alguma coragem pelo fato de saberem que as mensagens mostrariam que estavam sendo coagidos a fazê-lo.

A mais famosa mensagem de um prisioneiro na época da Guerra do Vietnã, por exemplo, foi a do comandante Jeremiah Denton, que teve de se submeter a um filme de propaganda em favor dos seus captores norte-vietnamitas, em 1966. Ele demonstrou grande tenacidade ao indicar piscando os olhos a palavra "tortura" em código Morse.

Talvez os reféns soubessem que o fim estava próximo e o aceitaram. No entanto, esta é a menos convincente de todas as explicações. Tanto Foley quanto Sotloff falaram de sua própria morte de maneira abstrata. O último refém, David Haines, discute explicitamente sua próxima execução. Entretanto, considerando a calma com que pronunciaram seus discursos ensaiados, isso não parece particularmente provável.

Simulação. Raramente, os reféns expressam seus verdadeiros pensamentos em filmes e vídeos de propaganda. Se o fizessem, enfraqueceriam, em primeiro lugar, o propósito da propaganda, que é divulgar uma mensagem e defender uma causa política. Denton, que defendeu a política americana e pagou por isso com anos de espancamentos, foi uma rara exceção. Se os três homens se mantiveram calmos naquelas circunstâncias, não foi certamente por estarem em paz. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

É EX-ANALISTA DE CONTRATERRORISMO DA CIA E COAUTOR DO LIVRO

FIND, FIX, FINISH: INSIDE THE

COUNTERTERRORISM CAMPAIGNS THAT KILLED BIN LADEN AND DEVASTATED

AL-QAEDA

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