Guglielmo Mangiapane / Reuters
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A capitã e o ministro

Carola Rackete representa a honra e as boas tradições da Itália pisoteadas por Salvini

Mario Vargas Llosa *, O Estado de S.Paulo

07 de julho de 2019 | 03h00

Carola Rackete, capitã do barco Sea Watch 3, que há 17 dias estava à deriva no Mediterrâneo com 43 imigrantes a bordo resgatados no mar, atracou na madrugada de sexta-feira da semana passada na ilha italiana de Lampedusa, apesar da proibição das autoridades do país. Fez bem. 

Imediatamente, ela foi detida pela polícia italiana e o ministro do Interior e líder do partido Liga, Matteo Salvini, alertou a ONG espanhola Open Arms, que estava nos arredores com dezenas de imigrantes que, “se eles se atreverem a se aproximar da Itália, terão a mesma sorte da jovem alemã Carola Rackete”, que poderá ser condenada a 10 anos de prisão e pagar uma multa de ¤ 50 mil. O fundador da Open Arms, Óscar Camps, respondeu que “da prisão é possível sair, do fundo do mar não”.

Quando as leis, como as evocadas por Salvini, são irracionais e desumanas, é dever moral desacatá-las, como fez Carola. O que ela deveria ter feito? Deixar à morte esses pobres imigrantes resgatados no mar, que, depois de 17 dias à deriva, estavam em condições físicas muito precárias, alguns à beira da morte? 

A jovem alemã violou uma lei estúpida e cruel, de acordo com as melhores tradições do Ocidente democrático e liberal, sendo que uma das suas antípodas é exatamente o que a Liga e seu líder Salvini representam: não o respeito à legalidade, mas uma caricatura preconceituosa e racista do estado de direito. E são ele e seus seguidores (que são muitos, e não só na Itália, mas em quase toda a Europa) que encarnam a selvageria e a barbárie que imputam aos imigrantes. Não merece outros qualificativos quem decidiu que, antes de pisar o solo sagrado da Itália, os 43 sobreviventes do Sea Watch se afogassem ou morressem por doenças ou de fome. Graças à valentia e à decência de Carola, esses infelizes se salvaram, pois cinco países europeus já se ofereceram para recebê-los.

preconceitos crescentes sobre a imigração alimentando o perigoso racismo que explica o ressurgimento nacionalista em quase toda a Europa e é a maior ameaça ao mais generoso projeto da cultura e da liberdade: a construção de uma União Europeia que amanhã possa competir de igual para igual com os dois gigantes internacionais, os EUA e a China. Se o neofascismo de Salvini e seus partidários triunfasse, teríamos um Brexit em todas as partes do continente, com seus países divididos e inimigos uns dos outros, à espera de um triste futuro que será resistir aos abraços mortais do urso russo (basta ver a Ucrânia).

Apesar de estatísticas e pareceres de economistas e sociólogos serem concludentes, prevalecem os preconceitos: os imigrantes chegam para tirar os empregos dos europeus, provocam delitos e violências, sobretudo contra as mulheres, suas religiões fanáticas os impedem de se integrar e com eles cresce o terrorismo. Nada disso é verdade ou, se for, é exagerado e deformado, chegando a extremos irreais.

A verdade é que a Europa necessita de imigrantes para manter seus altos níveis de vida, pois é um continente em que, graças à modernização e ao desenvolvimento, um número cada vez menor de pessoas tem de manter uma população de aposentados numerosa que continua a crescer sem trégua. Não só a Espanha tem a taxa mais baixa de nascimentos, muitos outros países europeus seguem o mesmo caminho. 

Os imigrantes, gostemos ou não, acabarão preenchendo esse vazio. E, para isso, em vez de mantê-los afastados e persegui-los, é preciso integrá-los, removendo os obstáculos que impedem sua integração. Isso é possível desde que sejam erradicados os preconceitos e os medos que, explorados incansavelmente pela demagogia populista, criam os Salvinis e seus seguidores.

Certamente, a imigração deve ser orientada para que beneficie os países receptivos. Convém lembrar que ela é uma grande homenagem que prestam à Europa esses milhares de miseráveis que fogem dos países subsaarianos governados por quadrilhas de ladrões que, além disso, são indivíduos fanáticos que transformaram o patrimônio nacional na caverna de Ali Babá. 

Além de criar regimes autoritários e eternos, eles saqueiam os recursos públicos e mantêm na miséria e no medo suas populações. Os imigrantes fogem da fome, da falta de emprego, da morte lenta, que é para a grande maioria a sua existência.

Não é um problema da Europa? O fato é que é, pelo menos em parte. O neocolonialismo fez estragos no terceiro mundo e contribuiu em grande parte para mantê-lo subdesenvolvido. Claro que a culpa é compartilhada com aqueles que adquiriram os maus hábitos e foram cúmplices de quem os explorava. Sem dúvida, no final, somente o desenvolvimento do terceiro mundo manterá em suas terras essas massas que hoje preferem morrer afogadas no Mediterrâneo e serem exploradas pelas máfias, a continuarem em seus países de origem onde sentem que não existe esperança de mudanças.

O fundamental na Europa é uma transformação da mentalidade. É preciso abrir as fronteiras para uma imigração que é necessária, regulamentá-la de modo que seja propícia – e não fonte de divisão e racismo ou sirva para incrementar o populismo que teve consequências tão horríveis no passado. 

É preciso lembrar, de vez em quando, que os milhões de mortos nas duas últimas guerras mundiais foram obra do nacionalismo que, inseparável dos preconceitos raciais e fonte irremediável das piores violências, deixou em todas as partes as marcas das atrocidades que causou e voltará a causar se não o bloquearmos a tempo. 

É preciso enfrentar os Salvinis dos nossos dias com o convencimento de que eles não são mais do que o prolongamento da tradição obscurantista que encheu de sangue e cadáveres a história do Ocidente e são o inimigo mais implacável da cultura e da liberdade, dos direitos humanos, da democracia, que não teriam prosperado e se expandido pelo mundo se Torquemada, Hitler e Mussolini tivessem vencido os aliados.

Escrevo este artigo em Vancouver, uma bela cidade à qual acabei de chegar. Hoje pela manhã, tomei um café no centro da cidade, onde conversei com quatro “nativos”, de origem japonesa, mexicana, romena e só o último deles era gringo. Os quatro possuem passaporte canadense e se disseram contentes com sua sorte e se entendem muito bem. Esse é o exemplo a ser seguido na Europa, o do Canadá.

Devemos estar atentos ao julgamento de Carola Rackete e exigir que os juízes salvem a honra e as boas tradições da Itália hoje pisoteadas por Salvini. Tenho certeza de que não serei o único a pedir para essa jovem capitã o Prêmio Nobel da Paz quando chegar o momento.  / Tradução de Terezinha Martino

* É Prêmio Nobel de Literatura

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