A cartada de Sarkozy

O presidente francês, Nicolas Sarkozy, está orgulhoso, e com razão. Conseguiu a aprovação da ONU para uma intervenção militar no conflito na Líbia com o objetivo de frear o punho do coronel Muamar Kadafi, o guia supremo do país africano, no momento em que ele se preparava para desfechar um ataque contra seu próprio povo.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2011 | 00h00

Sarkozy está muito satisfeito, principalmente porque a questão era muito difícil e mal encaminhada. Difícil porque a China e a Rússia, pouco desejosas de ver um dia a ONU imiscuir-se na Chechênia ou no Tibete, não tinham nenhuma vontade de se envolverem com a Líbia.

Mal encaminhada porque, na semana passada, Sarkozy, sempre agitado, havia estendido a mão aos seus aliados decretando sozinho, no seu Palácio do Eliseu, e com o apoio de um escritor "iluminado", Bernard Henry Lévy, que o mundo livre escorraçaria o ditador Kadafi do poder.

Derrapada diplomática. O golpe diplomático de Sarkozy foi tão mal recebido pelos países vizinhos que, em Paris, temeu-se que o tiro saísse por pela culatra, prestando paradoxalmente um serviço ao coronel Kadafi. Felizmente, não foi o que ocorreu.

Na sexta-feira, Sarkozy triunfava com todo o direito: conseguira, "contra os ventos e as marés", e com a ajuda de Londres, puxar para o seu lado os Estados Unidos, embora hesitantes. Pôde, então, saborear os gritos de alegria dos revoltosos líbios de Benghazi: "Viva Sarkozy! Viva a França!"

A ameaça contra Kadafi será suficiente para deter seus tanques e seus aviões? Alguns temem que o Ocidente se envolva em um novo impasse militar. Na sexta-feira, o New York Times publicou um violento artigo de Maureen Dowd, intitulado "A volta dos falcões". Maureen criticava Paul Wolfowitz, partidário da intervenção contra Kadafi, e outrora mentor da guerra do Iraque.

"Pensávamos que o principal arquiteto das guerras desastrosas e das ocupações intermináveis do Iraque e do Afeganistão tivesse o bom gosto de calar e se reciclar, dedicando-se à horticultura", disse ela.

Os adversários da intervenção temem que os povos da região a considerem uma nova agressão "antiárabe" do Ocidente, uma jogada neocolonialista, uma ação do lobby ocidental.

Garantias. Aliás, é por isso que o excelente ministro das Relações Exteriores da França, Alain Juppé (que, segundo afirmam, quis apresentar sua demissão a Sarkozy na semana passada, depois da palhaçada no Palácio do Eliseu) insistiu tanto sobre dois temas.

Primeiro, que nenhum soldado desembarcará na Líbia. Por fim, que não haja duelos entre Ocidente e Oriente. Ficamos felizes pelo fato de muitos países árabes aprovarem as ideias de Paris.

A França lamenta a abstenção do mundo emergente, os quatro grandes: China, Rússia, Índia e Brasil. "Esses quatro países", nota em tom amargo o jornal Le Monde, "são os que há duas semanas estavam prestes a acusar Kadafi de crimes contra a humanidade". Finalmente, Paris deplora que a Alemanha, sua aliada mais próxima, tenha também optado pela abstenção no Conselho de Segurança da ONU.

Por que recusou a intervenção? Evidentemente, por causa da tradicional desconfiança alemã das aventuras bélicas, temendo que Kadafi, hoje odiado e desprezado pelo mundo inteiro, possa encontrar, graças à ONU, a posição do mártir e a do ex-colonizado atacado pelos países do Ocidente.

E há ainda as relações pouco cordiais entre Angela Merkel e Nicolas Sarkozy. Na semana passada, Berlim se enfureceu quando, às vésperas da grande reunião europeia para tratar da questão da Líbia, Sarkozy ignorou todos para pavonear-se e posar como o salvador do mundo. O resultado foi a abstenção alemã no Conselho de Segurança da ONU. / TRADUÇÃO ANNA CAPOVILLA

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