A ‘cartada Trump’ de Vladimir Putin

Semelhanças entre doutrinas do pré-candidato dos EUA e do líder russo têm base na ‘ignorância como força’

NINA KHRUSHCHEVA*, PROJECT SYNDICATE

02 Janeiro 2016 | 03h00

Em sua entrevista coletiva de fim de ano, o presidente russo, Vladimir Putin, estava tão informal, audacioso e ofensivo quanto seu candidato presidencial americano favorito, Donald Trump. Ele respondeu com uma piada a uma pergunta sobre o estado da economia. “Como vai a vida?”, perguntou um homem a outro. “Minha vida é toda de listras, listras negras sucedidas por brancas”, respondeu o segundo homem. “Estou agora numa negra”. Seis meses depois, voltaram a se encontrar. “Como vai a vida?”, perguntou de novo o primeiro homem. “Sei que ela é de listras, mas hoje de qual cor?” “Negra. Parece que da última vez era branca.”

O restante da entrevista foi tão cínico quanto esse gracejo revelador. Putin afirmou repetidamente que a economia em rápido colapso da Rússia está próspera – no que nem seus mais ardentes seguidores acreditam. Após 15 anos acompanhando performances como essa, estou acostumada à dupla linguagem orwelliana de Putin – guerra é paz, ignorância é força etc. Mas dessa vez ele foi longe demais.

Putin insistiu em que a queda do PIB russo – cerca de 3,7% no último ano – foi causada basicamente pela baixa nos preços do petróleo, fazendo apenas uma breve menção às sanções ocidentais impostas em resposta à anexação da Crimeia. E, ao gabar-se de que a Rússia possui US$ 364 bilhões em reservas em moeda estrangeira, esqueceu-se de mencionar a assustadora inflação anual de 12,3%, ou que uma boa parte dessas reservas está comprometida.

A insistência de Putin na saúde da economia faz lembrar sua própria piada. Ao contrário das garantias dadas pelo presidente, a atual listra negra poderá parecer branca em comparação com o que está por vir. No começo de dezembro, um grupo de economistas russos considerou as previsões do governo de recuperação no novo ano como “fora da realidade”.

A entrevista também permitiu a Putin dar um enfoque positivo ao envolvimento da Rússia na Síria, mas será duro manter isso. Mesmo com o segredo que cerca as perdas militares da Rússia, ficará difícil conter o descontentamento público quando os caixões começarem a chegar.

Putin assegurou ao mundo que a Rússia não será “mais síria que os próprios sírios” e insistiu em que os EUA não devem ditar o processo político russo. A política americana no Oriente Médio, disse ele, tem sido tão incoerente que justificou a intervenção russa. Putin também sugeriu – apesar de todas as evidências em contrário – que a presença russa na Síria não irá além da resolução do conflito. Mas a Rússia já tem bases navais e aéreas em Tartus e Latakia – posses que Putin está empenhado em defender.

Na realidade, a anexação da Crimeia e a invasão do Leste da Ucrânia sugerem que Putin costuma apossar-se de territórios, mas não devolvê-los. Certa vez, ele elogiou Catarina, a Grande como a governante russa pela qual tem maior admiração: “Ela derramou menos sangue, mas conquistou mais territórios do que Pedro, o Grande”. Em 1772, Catarina enviou um navio de guerra à Síria a fim de ajudar o governo local a fazer frente ao Império Otomano. Dois anos mais tarde, ela decidiu abandonar a região, satisfeita com as concessões dos otomanos na questão da Crimeia. Ao que tudo indica, Putin deseja um resultado semelhante.

Como Catarina, ele espera ser compensado pelas invasões. A Ucrânia continua sendo a prioridade da Rússia. Com a intervenção na Síria – conflito que constitui uma das principais preocupações para a Europa e os EUA – o Kremlin acredita ter conseguido maior influência sobre os parceiros ocidentais da Ucrânia. As consequências – como as baixas militares e a ameaça de retaliação do Estado Islâmico – são mínimas diante da possibilidade de uma grande barganha que garanta suas conquistas mais próximas dele.

Putin se mostra tão convencido de estar com todas as cartas na mão que fez questão de abrandar sua habitual fanfarronice antiamericana. Ele disse que apoiou os esforços do secretário de Estado americano, John Kerry, para tratar de questões “que só podem resolvidas em conjunto”, e estava disposto a “colaborar com qualquer presidente que o povo americano venha a escolher”.

Entretanto, não há dúvida quanto ao candidato americano que ele gostaria de ver na Casa Branca. Em comentários após a coletiva, elogiou Trump como “uma pessoa pitoresca e muito talentosa”, o “líder absoluto da disputa presidencial”.

Não há dúvida de que os dois se merecem. Ambos são propagandistas e atores inveterados. E ambos estão sempre prontos – e até mesmo ansiosos – para ameaçar, espezinhar e mentir para seguir em frente. Basta comparar o conselho de Trump em seu livro How to Get Rich (“Se alguém o atacar, trate de caçá-lo com toda a crueldade e a violência de que for capaz”) com o método de Putin para combater os terroristas (“Nós os caçaremos e os mataremos, nem que seja num banheiro”).

Trump baseou sua campanha na ignorância disfarçada de força. Seu slogan simplista – “Façamos a América voltar a ser grande” – poderia ter sido extraído do manual de Putin sobre como transformar a incompetência e a fraqueza de caráter na aparência de onipotência e de audaciosa liderança. Putin pretende manter-se no poder por pelo menos mais dez anos. Se os EUA elegerem Trump à presidência, terá um amigo na Rússia, talvez em mais nenhum outro país. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ E ANNA CAPOVILLA

* É AUTORA DE ‘RUSSIA BETWEEN ART AND POLITICS’, ‘THE LOST KRUSHCHEV: A JOURNEY INTO THE GULAG OF THE RUSSIAN KIND’ E PROFESSORA DE ASSUNTOS INTERNACIONAIS DA NEW SCHOOL

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