A Casa Branca da estrela solitária

Com a renúncia de Gonzales, Bush perde um dos últimos remanescentes de seu grupo de fiéis assessores texanos

Lois Romano, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2002 | 00h00

Um amigo que se encontrou com Alberto Gonzales no fim de semana passado contou que o secretário de Justiça americano parecia calmo pela primeira vez em vários meses. Na verdade, o peso provavelmente foi tirado dos ombros de Gonzales duas semanas antes, quando o assessor presidencial Karl Rove anunciou sua renúncia - abrindo a porta para a saída de um dos últimos membros do grupo texano leal ao presidente George W. Bush.Sempre chega um momento em que o governo americano começa a parecer-se com a Enron depois do colapso: os pesos pesados conterrâneos começam a debandar, substituídos pelos matadores de aluguel sem nenhuma lealdade especial. O anúncio da saída de Gonzales, na segunda-feira, pode ter marcado esse momento para Bush, um presidente que sempre deixou bem claro que trabalhava melhor apoiado por amigos, servidores fiéis e seu próprio travesseiro.Desde 1977, quando Jimmy Carter chegou da Geórgia, um presidente não dependia tanto de um grupo coeso de amigos pessoais e velhos assessores, valorizando mais a lealdade do que a experiência em Washington. E talvez Gonzales tenha sido o mais grato a Bush, que o tirou de uma firma de advocacia no Texas em 1994 para transformá-lo em seu conselheiro no governo estadual e o conduziu ao topo do poder federal, preparando-o ao longo do caminho na esperança de que ele se tornasse o primeiro juiz hispânico da Suprema Corte. O presidente adorava a história triunfal de Gonzales, da pobreza imigrante à Escola de Direito de Harvard e além. Gonzales e sua mulher tinham uma relação íntima com a família Bush; estavam entre os que recebiam cobiçados convites para passar fins de semana em Camp David e ver filmes na Casa Branca.''''É realmente significativo para um presidente como este perder seu círculo mais próximo'''', disse Allan Lichtman, professor de história especializado em assuntos presidenciais da Universidade Americana. ''''Bush não é um presidente de base intelectual. É um presidente de base pessoal. Relações pessoais são tudo para ele - a lealdade e a confiança são fundamentais. Não há mais porto seguro para Bush.''''Nos últimos 18 meses, enquanto seus índices de aprovação despencavam, Bush perdeu dois conselheiros de comunicação com a saída de Dan Bartlett e Scott McClellan, ambos servidores leais vindos do Texas, o ''''Estado da estrela solitária''''. Harriet Miers, que sucedeu a Gonzales como conselheira da Casa Branca e, como ele, era vista como candidata à Suprema Corte, também veio do Texas e para lá voltou. O secretário de Defesa Donald Rumsfeld e o chefe de Gabinete Andrew Card também saíram, assim como o vice-conselheiro de Segurança Nacional J. D. Crouch e a diretora política da Casa Branca Sara Taylor.Dos texanos de primeiro escalão que acompanharam Bush até Washington, poucos permanecem - a secretária de Educação, Margaret Spellings, o secretário de Habitação e Desenvolvimento Urbano, Alphonso Jackson, e o vice-diretor do Escritório de Administração e Orçamento Clay Johnson, colega de quarto de Bush em Yale e chefe do Conselho Presidencial de Integridade e Eficiência.Os mais íntimos de Bush dizem que o impacto da perda dos colegas de trabalho e confidentes é aliviado pela própria natureza do presidente. Segundo eles, Bush é um homem sentimental que se encarrega de ficar próximo de dezenas de amigos de diferentes fases da vida.Donald Etra, que integrou com Bush a Skull and Bones, sociedade secreta de Yale, foi nomeado pelo presidente para o Conselho Memorial do Holocausto dos EUA há cinco anos. Com a nomeação veio um pedido aparentemente casual de Bush para que Etra o avisasse sempre que estivesse em Washington, a fim de que os dois se encontrassem. Assim, nos últimos cinco anos, Etra - freqüentemente acompanhado da mulher - dormiu 28 vezes na Casa Branca. ''''Isso o tira da bolha'''', disse Etra, advogado de defesa criminalista em Los Angeles. ''''Ele quer saber o que se passa em meu mundo. Faz perguntas sobre o sistema de defesa criminal. Ele sempre terá seus amigos por perto. Ninguém está indo embora.''''Muito se escreveu sobre a exigência de lealdade de Bush e sobre seus amigos quando ele foi eleito em 2000. Johnson, seu colega da escola e de Yale, foi encarregado das nomeações políticas e começava as entrevistas perguntando: ''''Você quer trabalhar na Casa Branca ou quer trabalhar na Casa Branca de Bush?'''' No fim, muitos cargos importantes ficaram com quem esteve ao lado de Bush durante seu governo no Texas ou o conheceu bem antes de ele ser considerado presidenciável. Eram as pessoas bem informadas sobre esqueletos no armário - e nunca abririam a boca.Quando Bush disputou a presidência pela primeira vez, sua evidente habilidade no trato com as pessoas foi considerada um grande trunfo político. A lealdade a velhos amigos era parte desse atrativo. Quando finalmente aceitou a renúncia de Gonzales - à qual resistia firmemente, apesar de um cerco de sete meses ao Departamento de Justiça que levou a acusações de que o secretário havia mentido para o Congresso -, Bush insistiu em questioná-la. Definiu Gonzales como ''''talentoso e honrado'''' e lamentou que seu ''''bom nome'''' tenha sido ''''arrastado para a lama por razões políticas''''.

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