A Casa Branca não abandonará Israel

O presidente Barack Obama não quer, nem jamais poderia, jogar Israel ao mar para fechar um acordo com o Irã sobre a questão nuclear

Aaron David Miller*, O Estado de S.Paulo - The New York Times

02 de outubro de 2013 | 02h16

Certa vez, o ex-primeiro-ministro de Israel Ehud Olmert disse-me que todos os premiês israelenses dormem com um olho aberto. Israel é um minúsculo país numa região perigosa e, assim, a preocupação é uma parte importante do cargo.

Atualmente no cargo, Binyamin Netanyahu já manifestou sua grande preocupação sobre as dádivas oferecidas pelos astutos mulás iranianos. Ao se reunir com Barack Obama na segunda-feira, na Casa Branca, será que ele expressou a preocupação de que o presidente americano planeja firmar um acordo com o Irã em detrimento de Israel? Absolutamente não. Ou será um acordo muito bom, capaz de aplacar as preocupações de americanos e israelenses com a questão nuclear, ou não haverá acordo nenhum. Aqui vão as razões para isso.

Em primeiro lugar, Obama esforçou-se muito para reatar relações com Netanyahu e Israel este ano, de modo que não vai anular esse progresso. As tensões com Israel durante seu primeiro mandato não renderam benefícios no campo da política externa e na verdade foram até prejudiciais, pois deram aos republicanos a chance de atacá-lo. Seu próprio partido manifestou preocupação sobre suas credenciais na defesa de Israel. Diante de tais dificuldades, com as eleições de meio de mandato em 2014, a última coisa que o presidente deseja ou precisa hoje é de uma disputa com Israel.

Por outro lado, em seu recente discurso na Assembleia-Geral das Nações Unidas, Obama especificou duas prioridades em matéria de política externa no seu segundo mandato, Irã e palestinos. Israel tem um envolvimento com ambos.

Administrar, sem falar em solucionar, esses problemas, requer um relacionamento estreito com Israel. Falando claramente, se Obama tem alguma esperança de impedir uma guerra com o Irã em torno de seu programa nuclear deverá manter Israel ao seu lado. E para o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, ter alguma chance de fazer avançar o processo de paz, ele terá de manter Netanyahu ao seu lado, e não distante dele.

Depois, é preciso lembrar que o iraniano Hassan Rohani não é o egípcio Anwar Sadat - e o Irã de hoje não é o Egito em 1977. Os mulás não vão continuar com sua ofensiva de sedução por muito tempo. Tampouco mudarão as percepções em Israel ou nos EUA sem oferecer um retorno tangível e significativo. E isso não ocorrerá rápida ou facilmente diante do caráter controlador do líder supremo, que, na verdade, poderá considerar vantajoso manter a relação entre Irã e Estados Unidos numa espécie de tensão controlada.

Finalmente, Obama simplesmente não pode se permitir parecer um tolo diante de Teerã. É verdade que, em matéria de política externa, o Irã joga um xadrez tridimensional, ao passo que nós parecemos jogar damas. Mas o nível de alerta quanto à ofensiva de charme iraniana é incrivelmente alto. Obama está cauteloso e não vai assumir riscos.

Além disso, não há nenhum outro tema que mais una o Congresso do que a desconfiança em relação ao Irã. O governo será atacado duramente por mostrar sinais de fraqueza sem concessões palpáveis e convincentes da parte de Teerã. E o próprio Obama colocou em jogo boa parte da sua credibilidade pessoal para impedir o Irã de fabricar uma bomba. Ele tem um forte incentivo para firmar um acordo - mas apenas se conseguir realmente alcançar esse objetivo.

Netanyahu se depara com desafios importantes, no entanto nenhum deles tem muito a ver com Obama. Primeiramente, o premiê israelense se defronta com um regime iraniano ardiloso e duro que está quase cruzando a fronteira nuclear, mas tenta ver se consegue um abrandamento das sanções sem ceder todas as suas conquistas no campo nuclear. Não está nada claro se, apesar do sofrimento provocado pelas sanções, o líder supremo tem pressa para abandonar os objetivos militares do seu programa nuclear sem grandes concessões dos Estados Unidos.

E então há o próprio Netanyahu: um homem capaz de tornar-se seu grande inimigo quando suas suspeitas e sua inflexibilidade o deixam fora de si.

Se a ofensiva de charme iraniana é uma armadilha ou uma oportunidade, não temos certeza. Mas, independentemente disso, Israel precisa agora de um falcão pragmático, confiante, forte para lidar com essa dinâmica - um líder que suspeita das aberturas do Irã, mas também está aberto a um acordo, para testar se o que o Irã oferece é real, negociável e lucrativo para ambos os lados. Israel precisa de um líder disposto a confiar e comprovar os motivos do seu mais próximo aliado e, assim, se um acordo tiver sentido, conceder o que ele precisa. Para ser alcançado um acordo em que o programa nuclear iraniano deixe de ter objetivos militares e esteja sujeito a amplas inspeções, em troca de um fim das sanções, e com o Irã tendo direito de enriquecer urânio para usos civis, iranianos, americanos e israelenses precisarão ceder em algo significativo.

A arte da diplomacia implica em coragem, sabedoria, ousadia e prudência para determinar se o preço a pagar equivale ao que é oferecido em retorno. É uma decisão de peso, particularmente quando as alternativas parecem ser um Irã de posse de uma bomba, ou bombas sendo derrubadas sobre Teerã.

*Aaron David Miller é pesquisador do Woodrow Wilson International Center e atuou como negociador americano no diálogo de paz entre palestinos e israelenses ao lado de seis secretários de Estado dos EUA.

TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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