''A causa do acidente em Fukushima foi banal''

Para especialista, apesar de terremoto e tsunami, problema poderia ter sido evitado com proteção mais rigorosa de usina

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

19 de março de 2011 | 00h00

ENTREVISTA - Francis Sorin, especialista da Sociedade Francesa de Energia Nuclear

O acidente nuclear na usina de Fukushima, no Japão, e o consequente risco de um desastre ambiental e humano comparável apenas à explosão da usina de Chernobyl, em 1986, foi causado pela combinação de dois fatores prosaicos: falta de luz e falta de água. A interpretação é feita por Francis Sorin, especialista da Sociedade Francesa de Energia Nuclear (SFEN), um dos principais órgãos do setor na Europa. A seguir, trechos da entrevista exclusiva ao Estado.

O Japão elevou o nível de gravidade do acidente de Fukushima para grau 5, de um total de 7. As autoridades francesas falam em 6. Qual é a extensão real dos fatos?

Houve um acidente grave e neste momento a situação está estabilizada. Estamos diante de dois caminhos possíveis: ou vai se agravar, porque não conseguiremos recuperar o resfriamento correto dos reatores e das piscinas de combustível; ou conseguiremos restabelecê-lo, e diremos que o acidente será controlado. Neste momento, estamos menos pessimistas. Mas não significa que tudo está resolvido, pois os esforços continuam para restabelecer o resfriamento e a eletricidade no sítio. Houve várias tentativas. Nesse momento, como a rede elétrica nacional foi reparada, eles querem ligar a usina à rede nacional, para que possa voltar a funcionar normalmente. Vamos ver nas próximas horas.

Um dos maiores acidentes nucleares da história pode ter sido causado pela falta de luz e água, mais do que pelo terremoto ou o tsunami. É isso?

Você tem toda razão. O que causou o acidente foram duas coisas: pane de eletricidade e falta de água, duas coisas muito comuns. Mas é preciso ponderar que isso foi causado por dois eventos naturais de violência atroz: um terremoto de alta magnitude, incomparável em 150 anos, e um tsunami destruidor, que aliás entupiu os circuitos de resfriamento, que captam água do mar. A verdade é banal: uma falta de eletricidade e um sistema de urgência que não funcionou. É uma lição que precisa ser lembrada. É inadmissível, mesmo em um evento natural muito forte, que uma central perca sua alimentação.

Essas falhas seriam possíveis em outras usinas do mundo?

Não, foi a conjugação dos eventos naturais muito fortes que causaram as falhas que destruíram o grupo eletrógeno (a máquina que move o gerador de eletricidade). É muito difícil imaginar que eventos semelhantes pudesses ocorrer em países como EUA, França ou China. Na França, em particular, isso não ocorreria, pois não temos eventos naturais dessa magnitude. E ainda temos sistemas eletrógenos muito completos. Posso dizer que a segurança é de 98%, 99%.

A energia nuclear pressupõe um risco concreto e permanente.

Os riscos existem. Mas se você analisar o que aconteceu nos últimos 50 anos, tempo no qual produzimos energia, hoje com 440 reatores em 30 países, você percebe que é extremamente segura. Não houve ameaça ao meio ambiente e ao homem nos países que usam tecnologia nuclear ocidental. Se você comparar entre os danos causados por outros meios de produção de energia, como gás, carbono, petróleo, vai concluir que o nuclear é o que causa menos danos. O nuclear tem esse paradoxo: é a mais temida pela opinião pública, mas é a menos danosa.

Voltando ao Japão, as autoridades japonesas usaram helicópteros para jogar água nas piscinas, tentando controlar a temperatura do material radioativo. Não parece uma medida desesperada?

Era o que era necessário fazer para realimentar as piscinas. A partir do momento em que é difícil de se aproximar com caminhões de água, é uma boa iniciativa.

O sr. vê erros na segurança de Fukushima ou verifica falhas nas operações realizadas até agora?

Eu penso que houve um erro. Não quero acusar os japoneses, mas é verdade que a proteção contra tsunamis não era suficiente nesta central. O muro construído para protegê-la à beira do mar não foi suficiente. Mesmo que o tsunami tenha sido muito forte, seria preciso prever algo mais forte. Além disso, é preciso dispor de sistemas que não entrem em pane jamais.

As autoridades locais também sofrem críticas sobre o grau de informação que chega aos japoneses. O senhor pensa que se esconde algo?

Não creio. Em um acidente como este, os engenheiros e técnicos que estão no local têm dificuldade de saber e analisar tudo o que está ocorrendo. É claro que se sabe quais circuitos estão danificados, que há fugas. Mas é preciso analisar antes de transmitir a informação. Há uma pressão para restabelecer os sistemas, e não de comunicar. Não creio que o Japão tente comunicar com menos transparência os eventos.

A ONU e a Agência Internacional de Energia Atômica (AEIA) estão bem informadas neste momento?

Creio que sim. O contato é permanente e eles estão por dentro de todos os elementos.

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