A chance de democracia no Paquistão

A renúncia do presidente Pervez Musharraf na terça-feira, após nove anos no cargo, é uma importante vitória para as massacradas e ainda frágeis forças democráticas do Paquistão. Mas por conta particularmente das catástrofes que o país viveu nas últimas semanas, ainda há muitos obstáculos para um efetivo governo civil. Apesar das expectativas nos Estados Unidos de uma breve alteração do estado de coisas, é pouco provável que isso ocorra de imediato. Três dos quatro últimos governantes militares do Paquistão foram afastados do poder por movimentos populares, mas os políticos que os sucederam não conseguiram aproveitar o desejo de democracia e desenvolvimento econômico do povo e acabaram sendo depostos pelos militares sob acusações de corrupção e incompetência.As questões mais prementes envolvem a persistente tensão na política paquistanesa e a relação entre o governo civil e militares. O governo é controlado pelo Partido do Povo do Paquistão (PPP), agora sob o comando de Asif Ali Zardari, viúvo da ex-premiê Benazir Bhutto, mas seu partido governa por meio de uma coalizão complexa.O principal adversário do PPP é o ex-premiê Nawaz Sharif, chefe da Liga Muçulmana do Paquistão - N, que nunca perde a oportunidade de tentar desbancar o PPP, seu eterno rival, em vez de trabalhar com ele para consolidar alguns avanços democráticos que o país tenha feito.Deposto por Musharraf num golpe de Estado em 1999 e humilhado pelos militares, Sharif rejeita concessões ao Exército e não oferece nenhum apoio à guerra contra os extremistas do Taleban. Ocupado em favorecer seus apoiadores de direita, ele encontra pouco tempo para as demandas americanas.Sharif acredita que sua popularidade e as cadeiras parlamentares que controla na Província de Punjab acabarão por lhe valer o cargo de primeiro-ministro.Nos próximos dias, as disputas internas na coalizão prosseguirão na tentativa de responder questões fundamentais, por exemplo, onde Musharraf deve viver, se a ação de impeachment deve prosseguir, se os juízes da Corte Suprema destituídos por Musharraf em novembro devem ser reconduzidos a seus cargos, e quem deverá se tornar presidente.Sharif está adotando uma linha dura, enquanto Zardari quer avançar aos poucos e não confrontar o Exército, humilhando ainda mais seu ex-comandante Musharraf.Essas disputas pelo poder na coalizão são ampliadas pela enorme desconfiança que há entre o Exército e os dois partidos. A desconfiança do Exército em relação ao PPP tem quase 40 anos de história, e os militares não gostam de Sharif.Nos últimos seis meses, o Exército e a coalizão governista não conseguiram costurar uma estratégia conjunta para combater o Taleban paquistanês que se está multiplicando no noroeste do Paquistão, ou para impedir que militantes do grupo cruzem a fronteira para combater no Afeganistão.O Exército, que não é popular, quer que o governo civil assuma a responsabilidade política de perseguir os extremistas. Sharif não tem a menor intenção de atender ao desejo do Exército, e Zardari ainda precisa construir uma posição capaz de assegurar o apoio da coalizão. Enquanto isso, a economia vive uma situação catastrófica, com uma inflação de 25%, mas o governo não tem se mostrado capaz de aumentar a confiança dos investidores.A confusão que Musharraf deixa para trás assombrará o Paquistão e o mundo nos próximos meses. A comunidade internacional provavelmente ficará cada vez mais preocupada com o Paquistão à medida que os radicais forem se tornando mais fortes e mais audaciosos.O governo e o Exército são ameaçados pelos EUA e pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) de que, ou o Paquistão ajude a capturar Osama bin Laden e faça mais para conter as ofensivas do Taleban, ou enfrentará um aumento dos bombardeios contra o Taleban no interior do Paquistão.Boa parte dos percalços dessa situação resulta da aversão de Musharraf à democracia e de sua incapacidade para capitalizar as oportunidades oferecidas juntando-se à aliança ocidental na luta contra o terror após o 11 de Setembro. Após os ataques de 2001, Musharraf recebeu uma ajuda financeira substancial (US$ 11,8 bilhões só de Washington) e um generoso apoio político internacional, mas não conseguiu usá-los para o bem comum.Ele tramou sua própria reeleição em 2002 e obstruiu por muito tempo as tentativas de uma transição para a democracia. Após milhões de paquistaneses ganharem as ruas no ano passado exigindo o império da lei, Musharraf impôs um estado de emergência. Sob pressão pública extrema, ele foi obrigado a revogar as medidas e aceitar a realização de eleições livres em fevereiro, nas quais seus aliados políticos foram derrotados.Enquanto isso, a relação de Musharraf com o Ocidente se desintegrou à medida que o Taleban ganhava terreno no Afeganistão, usando suas bases no Paquistão. Houve uma explosão Taleban no Paquistão quando as tribos paquistanesas pashtun - que protegeram Bin Laden e o Taleban afegão em 2001 - se radicalizaram. Elas formaram suas próprias milícias com uma agenda própria: transformar o Paquistão num Estado islâmico no estilo taleban. Em dezembro, eles assassinaram a única pessoa que poderia ter unificado o país - a líder do PPP, Benazir Bhutto.A maioria dos paquistaneses vê o governo de coalizão como a última chance da democracia no país, e quer que ele funcione. O Exército, o governo e a comunidade internacional precisam trabalhar juntos para que o Paquistão possa começar a enfrentar seus verdadeiros problemas.*Ahmed Rashid, é jornalista e escritor paquistanês. Escreveu este artigo para ?The Washington Post?.

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