A chance perdida dos militares no Egito

Nova Constituição faria com que Exército garantisse que minorias fossem ouvidas e maioria não se tornasse tirânica

O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2011 | 03h07

A violência mostra que o Exército tem dificultado a transição política. Desde que Hosni Mubarak deixou o poder, em fevereiro, os militares se recusam a abrir o regime. O mais recente conflito deixou 14 mortos. A violência teve início no dia 16, quando manifestantes bloquearam a entrada do gabinete do premiê depois que os militares nomearam Kamal el-Ganzouri, burocrata da era Mubarak, novo chefe de governo.

Após acusarem "mãos ocultas" de provocarem a violência, os militares perderam a chance de estabelecer um plano de transição, tentando imprudentemente monopolizar o processo, em vez de dividir o poder com os civis.

Antes de deixar o cargo, Mubarak outorgou aos militares plenos poderes. De início, os manifestantes acharam que eles colaborariam, mas isso não ocorreu. Após décadas de ditadura, o Exército deveria ter supervisionado a transição e retornado aos quartéis. A primeira medida seria um governo de unidade incluindo todas as facções políticas, seguida de uma nova Constituição que permitisse que os grupos políticos competissem em igualdade.

Só após a nova Constituição, eleições seriam realizadas, deixando partidos liberais e seculares recentemente criados no mesmo plano dos islâmicos, já bem estabelecidos. Os militares, porém, insistiram em realizar a votação o mais rápido possível.

À parte os islâmicos, que viram uma chance de ampliar seus ganhos, todas as facções se opuseram. Em março, os militares precipitadamente propuseram um referendo, quando o toque de recolher ainda estava em vigor e a insegurança preocupava o Egito.

O referendo foi livre, mas não imparcial - 77% votaram a favor da realização de eleições legislativas, autorizando o vencedor a se encarregar da Constituição. Da noite para o dia, os seculares rejeitaram o processo político, criando um clima de incerteza. Seculares, cristãos cooptas e outros grupos começaram a acreditar que o protesto, não o diálogo, era a única maneira de exercer pressão sobre o Exército.

Em 28 de novembro, os seculares iniciaram os protestos, aos quais o Exército, mais uma vez, respondeu com mão de ferro. Mas as eleições se realizaram e os islâmicos venceram. Os religiosos eram os únicos preparados para o escrutínio. O conselho não adotou nenhuma medida para controlar financiamentos de campanha ou o uso de slogans religiosos, proibidos por lei.

Até agora, o Partido Liberdade e Justiça, da Irmandade Muçulmana conquistou 40% dos votos, com base numa plataforma liberal. Mas o partido salafista Al-Nour, que prega o fundamentalismo religioso, teve 25%.

Com as eleições, os islâmicos conquistaram legitimidade. A violência, porém, os deixa preocupados quanto ao que herdarão se assumirem o poder. Dez meses após a revolução, os egípcios estão frustrados e os militares, cada vez menos populares.

A elaboração da Constituição daria ao Exército nova chance de cumprir sua promessa, assegurando que as minorias sejam ouvidas e a maioria não se torne tirânica. Se os militares forem sensatos, arbitrarão a transição, em vez de dominar todo o jogo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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