A China contra a expansão do CS

Documentos divulgados pelo WikiLeaks mostram a preocupação de Pequim com a perda de poder na ONU

Colum Lynch / FOREIGN POLICY, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2010 | 00h00

No ano passado, a China expressou sua preocupação com o "ímpeto" de um acordo para ampliar o Conselho de Segurança da ONU e advertiu um influente diplomata americano de que adicionar novos assentos permanentes no CS, que engloba hoje 15 países, só diluiria o poder de seus membros. Essa informação está contida em um telegrama secreto divulgado pelo WikiLeaks.

Uma autoridade chinesa não identificada insistiu junto ao encarregado de negócios dos EUA, Dan Piccuta, para que os americanos não fossem "proativos" na promoção de um aumento de assentos no CS, alegando que isso não seria bom para os cinco membros permanentes - EUA, Grã-Bretanha, China, França e Rússia. "O "clube" P-5 não deve ficar diluído", teria dito a autoridade chinesa. "Se tivermos, no final, um grupo de 10, China e EUA podem ter dificuldades.".

A reunião em Pequim, em abril de 2009, ocorreu quando um grupo de quatro países com crescente influência - Brasil, Alemanha, Índia e Japão -, o chamado Grupo dos Quatro, exerciam uma forte pressão para a Assembleia-Geral das Nações Unidas votar uma reforma da Carta da ONU, permitindo a expansão do conselho. A iniciativa não foi adiante por causa da oposição de concorrentes regionais do Grupo dos Quatro e de uma demanda dos países africanos para que eles também tivessem pelo menos dois assentos com poder de veto.

Segundo a China, seria difícil para a sociedade chinesa aceitar o Japão, seu rival regional, como um membro permanente do CS. Dan Piccuta respondeu que os EUA ainda não tinham uma posição definida sobre quais países deveriam ingressar no conselho, mas acrescentou que "seria difícil imaginar uma ampliação do órgão que não incluísse o Japão, o segundo maior contribuinte para o orçamento da ONU". Desde então, o governo de Barack Obama passou a apoiar a pretensão da Índia ao assento permanente no CS e mostrou-se menos inclinado a promover uma ampliação do órgão por enquanto. Dan Piccuta também advertiu a China que as cinco potências do órgão deveriam permitir que outros Estados-membros da ONU "expusessem suas posições" dentro de um CS expandido, "livre e abertamente sem a influência indevida do grupo P-5".

Essa conversa fez parte de uma discussão política mais ampla, envolvendo disputas comerciais e militares entre as duas potências, particularmente a vendas de armas pelos EUA a Taiwan; o tratamento dado pela China ao ativista preso Liu Xiabobo, ganhador do Prêmio Nobel da Paz; o destino de dois excursionistas americanos presos na Coreia do Norte; e uma visita ao país da então presidente da Câmara dos Representantes dos EUA, Nancy Pelosi.

Tibete. "O encarregado de negócios (nome censurado) insistiu para que se organizasse um programa proveitoso para Nancy Pelosi, que incluísse uma viagem ao Tibete ou a áreas tibetanas, observando que ela estava também particularmente interessada em questões ambientais e na mudança climática. A China deveria tratar a viagem como "visita de Estado". Contudo, por causa da agenda repleta, Nancy provavelmente "não teria tempo" para visitar o Tibete", diz o documento. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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